Design, do Conhecimento e Educação.

Por Editor DesignBrasil

Design, do Conhecimento e Educação.

Escrever sobre educação, ensino, aprendizagem, pedagogia e outros assuntos a estes relacionados, para designers e pessoas interessadas em design pode parecer um tanto estranho. Mas não é, nem deveria ser. Podemos dizer que o design tem muitas relações com a educação. Já há algum tempo temos desenvolvido estudos sobre como o design pode contribuir na educação de crianças e jovens. Batizamos nossa proposta de trabalho de EdaDe Educação através do Design. Acreditamos incondicionalmente no potencial pedagógico das atividades de design. Por isso, mais uma vez, aproveitamos a oportunidade para aqui registrar e compartilhar as nossas idéias com os leitores deste site.<?xml:namespace prefix = o ns = “urn:schemas-microsoft-com:office:office” />

 

O cidadão contemporâneo vive um momento de perplexidade diante das situações do cotidiano. O acelerado desenvolvimento técnico-científico levou para dentro dos lares uma enorme variedade de objetos com elevado grau de tecnologia: aparelhos eletrodomésticos, equipamentos eletrônicos e novas máquinas com funções diversas.

Entre eles existem diversos objetos bem e mal desenhados. Os transportes e a própria residência, com sua infra-estrutura, geram uma certa tensão e muita insegurança diante de uma série de equipamentos cuja complexidade ultrapassa a dos utensílios tradicionais. A leitura dos manuais de uso que acompanham os equipamentos e artefatos

tecnológicos exige do usuário, muitas vezes, uma capacidade de compreensão que vai além da formação convencional. Isto por causa do excesso de informações em linguagem técnica e da falta de clareza na abordagem dos temas. Então, aquilo que foi criado para facilitar a vida do cidadão acaba, na verdade, complicando.

 

Mas a perplexidade das pessoas não se limita a estas situações. Os jornais e revistas especialmente as publicações especializadas noticiam diariamente os problemas ecológicos e o impacto ambiental causados pelas aplicações das técnicas e das ações da tecnologia, expressos em um vocabulário que também tem uma índole essencialmente técnica.

O repertório lingüístico do cidadão contemporâneo é invadido por novos termos e expressões intimamente ligados ao mundo da tecnologia e do design. Por outro o local de trabalho também sofre mudanças na sua fisionomia. Os telefones, os computadores, a necessidade do trabalho e contabilidade em tempo real, o aumento da cadência da atuação profissional e dos contatos humanos exigem atitude e preparo dinâmicos, para os quais a escola tradicional se mostra pouco capaz de contribuir.

 

O professor David WOOD (1996) do Departamento de Psicologia da Universidade de Nottingham, em seu livro intitulado Como as crianças pensam e aprendem, na página 110, diz que … nas sociedades sem as crianças são gradualmente aculturadas, socializadas e educadas na medida em que se tornam progressivamente mais envolvidas com a atividade econômica dos adultos, até que por fim aprendem e herdam seus papéis sociais. Nos diz ainda que … nossas crianças, por sua vez, são efetivamente excluídas dos centros de atividade adulta, e não aprendem ao fazer aquelas coisas nas quais seus pais estão envolvidos, mas sim, ao ouvir, ler, fazer experimentos e resolver problemas que lhes são propostos por um professor especialista.

 

Diariamente o ser humano realiza uma série de escolhas: qual roupa usar, qual produto comprar, qual serviço contratar, qual caminho tomar, etc… Essas escolhas não dependem somente de critérios lógicos ou racionais, muitas vezes são decisões ou escolhas puramente estéticas. Os critérios adotados dependem da formação, do nível econômico e, principalmente, das características culturais do indivíduo e da sociedade da qual faz parte. As sociedades contemporâneas, ao contrário das sociedades sem escola, exigem do cidadão habilidades que parecem específicas da sua cultura, transmitidas por meios culturais e que devem ser, ao longo do tempo, pelas novas gerações.

 

David WOOD confirma esta idéia, argumentando que estamos acostumados a ver as máquinas, a arquitetura e a tecnologia como invenções culturais especiais. O autor também diz que admitimos que cada nova geração da sociedade deve aprender sobre coisas novas e desenvolver novas habilidades, a fim de operar novos instrumentos de produção. Lembra que talvez seja estranho para nós ver aqueles que parecem ser aspectos naturais de nossa vida mental como invenções culturais da mesma espécie. Mas, por mais que pareça estranho, WOOD afirma que é exatamente isso que eles são. Por tudo isso, é imprescindível o surgimento de sistemas educacionais que busquem responder às demandas da sociedade emergente, sejam elas referentes às coisas materiais ou às questões do intelecto. A bem da verdade, vive-se um excitante momento de mudanças no campo da educação. Assim, muitos sistemas nacionais de educação vêm sofrendo reformulações e adequações às exigências dos novos tempos.

 

Num documento de 1996, da Comissão Européia, intitulado Towards the Learning Society, são identificados três elementos-chave para a educação no novo milênio: a expansão do conhecimento e de suas formas, o desenvolvimento de habilidades para o aprendizado autônomo e a adoção de uma consciência crítica. A Comissão considera os objetivos da Sociedade do Conhecimento cruciais para o planejamento educacional e para a prosperidade social, bem como para o autodesenvolvimento e para a educação continuada do indivíduo. A Sociedade do Conhecimento transcende as diferenças entre as necessidades individuais e as necessidades da sociedade. Sob este ponto de vista, a educação é cada vez menos entendida como mera transmissão e cada vez mais compreendida como desenvolvimento ou construção de conhecimentos, habilidades, compreensões, entendimentos e atitudes que deverão preparar as crianças e jovens para participar plena e ativamente das constantes mudanças da sociedade. O aluno passa a ser, cada vez mais, o protagonista da educação.

 

Os sistemas educacionais também deverão estar atentos e enfatizar, cada vez mais, os processosde ensino e aprendizagem envolvidos nesse novo processo. Também deverão atentar para a necessidade premente de estabelecer conexões entre idéias, materiais e tecnologias. E é exatamente aqui que o design

pode contribuir signifi cativamente nos campos da educação, do ensino e da aprendizagem. Pode-se ensinar, pode-se aprender e, num sentido mais amplo, pode-se educar por meio do design e de suas atividades. Para Iseult McCARTHY e Gary GRANVILLE, da Faculdade de Educação do National College of

Art and Design da Irlanda, o design, como um conceito na educação e como um agente ativo no currículo,

pode ser descrito através de quatro diferentes, porém relacionados, estabelecimentos:

 

1. O design é educação: a educação por meio do design pode ser equiparada ao processo de auto-educação e de auto-aprendizado. O design, sob esta ótica, é entendido como um esforço consciente do sujeito para estabelecer uma ordem signifi cativa para as coisas e objetos que o cercam.

 

2. O design é uma aproximação à educação: a solução de problemas, o planejamento e a implementação de ações para transformar uma situação existente em uma outra desejada, como dimensão essencial do design, envolve o aprendizado com base na atividade ação do educando.

 

3. O design é um conceito que pode dar signifi cado ao ensino e à aprendizagem: o design pode ser usado

como um meio através do qual vários aspectos de diversas áreas do currículo podem ser cobertos.

 

4. O design é uma atividade por meio da qual objetivos educacionais específi cos podem ser plenamente realizados: o processo prático do design é muitas vezes central, apesar de não estar explícito nas diversas disciplinas curriculares. A educação por meio do design já tem sido praticada em diversos países, seja pela inclusão de disciplinas nos currículos formais ou pela promoção de atividades complementares dentro e fora das escolas. Um bom exemplo a ser lembrado é do sistema educacional britânico, no qual Design and Technology e Art and Design fi guram entre as disciplinas compulsórias do currículo escolar. Em outros sistemas de ensino, a educação por meio de atividades de design aparece associada à educação tecnológica. Mas o design não mantém relações apenas com a tecnologia. Em alguns casos, aparece associado à educação estética, artística e visual. Como bem sabemos, o design, enquanto atividade humana, possui natureza interdisciplinar e mantém interfaces com diversos campos do conhecimento. Assim, suas atividades, quando associadas aos processos de ensino e aprendizagem e praticadas nas escolas, propiciam contatos e interações das

crianças e jovens com outras áreas curriculares.

 

No Brasil, nossas escolas primárias e secundárias já envolviam seus alunos em diversos tipos de atividades ou tarefas que se aproximavam às de design, não necessariamente com esta denominação, tampouco seguindo as orientações e o ideário da EdaDe. Mas, com certeza, envolviam atividades práticas e, de alguma maneira, a concepção e a execução de objetos e produtos. Essas práticas eram denominadas de trabalhos manuais, artes manuais, artes industriais ou artes aplicadas.

 

Apesar da falta de referências ao design nos atuais documentos ofi ciais brasileiros sobre educação e, ainda, da freqüente ignorância dos professores sobre o que é o design e do potencial pedagógico das suas atividades, pode-se observar que para a prática educacional contemporânea, é estrategicamente interessante retomar estas atividades e torná-las mais explícitas, planejadas, estruturadas, fundamentadas e coordenadas. Desta forma, estas atividades poderão ser usadas de forma mais efetiva e producente na educação e na integração de conteúdos curriculares. Cremos que a EdaDe, enquanto proposta pedagógica, pode e deve contribuir de forma signifi cativa com este processo e, principalmente, na preparação do cidadão para a Sociedade do Conhecimento emergente. É o que esperamos ao investirmos nesta idéia.

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