Design e economia – reflexões para a Bienal Ibero-americana de Design

Por Editor DesignBrasil

Por Ruth Klotzel

 

O encontro de países ibero-americanos na BID (Bienal Ibero-americana de Design) foi muito significativo também para percebermos como o foco da economia se modificou nos últimos tempos.

No dia 24 de novembro de 2008 foi inaugurada em Madrid a 1ª Bienal Ibero-americana de Design, com a participação de 22 paises através de 320 projetos, em uma semana repleta de palestras, eventos e exposições paralelas. A Bienal (BID), segue na Central de Diseño Matadero, em Madrid, até o dia 1º de março de 2009. Este artigo é uma adaptação de meu discurso de abertura da Bienal. Mais informações podem ser acessadas pelo site http://www.bid-dimad.org/ .

O encontro de países ibero-americanos na BID (Bienal Ibero-americana de Design) foi muito significativo não só no sentido de conhecermos, discutirmos e difundirmos o design da região, mas também para percebermos como o foco da economia se modificou nos últimos tempos, dando espaço para a busca de soluções alternativas em contextos culturais diferentes, como o dos países em desenvolvimento.

O assunto que enfoco aqui diz respeito aos novos paradigmas que têm aparecido no sentido de buscar alternativas à nossa previsão negra de futuro.

Nosso modelo de desenvolvimento, calcado no aumento desenfreado de produção e consumo, produziu resultados catastróficos, nos levou à deterioração do meio ambiente e ao esgotamento de recursos naturais, desequilíbrios sociais, crises econômicas, como a que presenciamos agora.

O Brasil, bem como alguns outros países Ibero-americanos, cresceu muito e se modernizou, principalmente a partir da década de 1970, alcançando hoje uma presença respeitável no cenário mundial. Porém o bolo não era dividido e nossa discussão girava em torno da avaliação do crescimento do PIB.

As distorções e mazelas da cultura da superprodutividade, do consumo histérico num mundo onde pessoas ainda morrem de fome, têm nos despertado para questionar que tipo de desenvolvimento nós desejamos. Sabemos que grande parte da sobrevivência humana depende das nossas escolhas políticas.

O design, como postulado intelectual da industrialização, é um dos protagonistas importantes desse contexto. Por isso, no seio da profissão, a autocrítica, a reflexão sobre o que vimos fazendo, que espaço temos, como trabalhamos, o que defendemos, e quais os caminhos desejados, se faz primordial.

No plano conceitual, não é por acaso que aparecem novos movimentos como o Slow Tech (François Bernard) que prega a diminuição da velocidade para uma melhor qualidade de vida. Esse conceito sugere que se faça um passeio ao mundo desmaterializado, se faça uso de tecnologia leve, fluída, revisitando a naturalidade e uma filosofia de vida simplificada, distanciada da cultura do descartável.

Os Metropuritanos expressão utilizada para designar uma nova tendência que prega a produção orgânica, o consumo ético e o comércio justo reagem ao considerarem as práticas de consumo modernas como ações de destruição em massa.

O desenvolvimento de produtos sob a ótica da sustentabilidade abraça a simplicidade, a economia de variedade e quantidade de materiais, a durabilidade, a otimização dos processos de manufatura. Ou seja, simplificação que implica em redução de custos de produção, de preços, de consumo, e de lucratividade, constituindo um paradoxo em relação à economia baseada no lucro financeiro, no aumento da produção e do consumo.

Soma-se a isso a discussão e busca de matrizes energéticas alternativas, que por si só já é um assunto vasto e complexo que não pretendo desenvolver aqui.

Nesses últimos anos, tive a oportunidade de participar de congressos, conhecer lugares e conviver com comunidades de designers de culturas muito diferentes e percebi também como os países ditos em desenvolvimento, que possuem uma cultura autóctone bastante marcada, têm sido foco de interesse em escolas européias, na indústria em geral e marcadamente na moda, na produção cultural.

Mas se há interesse pela cultura, pelos saberes e fazeres de lugares que antes eram desconsiderados, ainda existe uma relação de exploração e desigualdade, de modo que os produtos são desenhados nos grandes centros, a produção é feita na periferia e o produto volta para ser consumido pelos grandes centros.

Outro aspecto que quero levantar é sobre design e democracia. Gui Bonsieppe diz que democracia é, para o neoliberalismo, a predominância do mercado como uma exclusiva e quase santificada instituição que governa todas as relações entre sociedades. E se indaga em como podemos recuperar a noção de democracia no sentido de participação dos cidadãos abrindo espaço para a auto-determinação. Formulado de modo diferente, a natureza da democracia vai muito além do que o direito ao voto, da mesma maneira que liberdade é muito mais do que a possibilidade de escolher entre centenas de diferentes modelos de telefones celulares.

Em sua opinião, o design deve ser feito na periferia e não PARA a periferia, como resultado de uma espécie de atitude paternalista. O design de cada lugar deve ser fruto da prática local, uma vez que determinados problemas só podem ser solucionados no contexto local.

Temos muitos desafios, mas também temos um caminho fértil pela frente, podemos formular novas equações visando um desenvolvimento mais saudável. Esse já é um discurso corriqueiro em alguns lugares da América Latina, não só no que diz respeito ao design, mas também ao modelo de desenvolvimento como um todo.

No seio dessa discussão, as políticas públicas de design têm buscado seguir parâmetros definidos para toda a cultura, pois o design faz a ligação entre o mundo imaterial e o material e é o link central entre os mundos da arte e do comércio. Está comprometido com a melhora da forma e da função e tem um potencial grande no que diz respeito à melhoria da qualidade de vida.

Segundo um recente relatório do UNCTAD (United Nations Conference on Trade and Development) em parceria com a South-South Cooperation Special Unit PNUD/ONU), o design faz parte de um dos 4 núcleos de atividades estratégicas da chamada Economia Criativa.

O principal diferencial da economia baseada na criatividade é que ela promove desenvolvimento sustentável e humano e não mero crescimento econômico.

Segundo Lala Deheinzelin, quando trabalhamos com criatividade e cultura, atuamos simultaneamente em quatro dimensões: econômica, social, simbólica e ambiental. Isso leva a um inédito intercâmbio de moedas: o investimento feito em moeda-dinheiro, por exemplo, pode ter um retorno em moeda-social; o investimento realizado em moeda-ambiente pode gerar um retorno em moeda-simbólica, e assim por diante.

A economia baseada na criatividade é estratégica não apenas para os negócios criativos, mas para todos aqueles que ganham competitividade por intermédio do que chamamos culturalização dos negócios: valor agregado a partir de elementos intangíveis e culturais.

Segundo a Convenção da Unesco sobre Diversidade Cultural, os bens culturais, são únicos, singulares e diferenciados, carregam uma alta carga simbólica, imaterial, e são o rico patrimônio acumulado de populações, de forma milenar, centenária, resultado de fluxos, fruto de aprendizados e acúmulos que se deram em muitos e muitos planos de vida.

E o design tem a capacidade de participar dessa experiência singular do viver, construindo situações e objetos que surpreendem, emocionam e funcionam, comunicando, materializando experiências, saberes, que são o patrimônio imaterial de um povo. Ele se faz democrático quando é acessível e, mais ainda, quando surge de um espírito e de uma necessidade coletivos.

E, para terminar, vi na TV, há uma semana, o economista brasileiro Eduardo Gianetti falar que o mundo institucional ficou muito aquém do mundo real, uma vez que a globalização exigiria repensar e reformular a multilateralidade.

Isso me remeteu novamente a uma frase circular, que adoto há uns anos, e descobri no piso de mosaico que circunda a torre do relógio da Universidade de São Paulo. Ela é de autoria do ex-reitor e jurista Miguel Reale e diz: no universo da cultura o centro está em toda parte.

 

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