Design e Ergonomia: princípios e permeabilidade

Por Editor DesignBrasil

A relação entre Design e Ergonomia vem se caracterizando cada vez pela permeabilidade de ações entre ambas as áreas.

Neste início de século XXI, o desenvolvimento de novos produtos e sistemas informacionais tem buscado atender, com maior intensidade, os aspectos de usabilidade, desempenho e segurança nas interfaces dos produtos, uma vez que os mercados apresentam-se cada vez mais competitivos, as exigências normativas tornam-se cada vez mais rigorosas e as inovações tecnológicas cada vez mais freqüentes e distribuídas na sociedade de consumo. Dentro desta nova condição produtiva, duas áreas do conhecimento se destacam e se apresentam cada vez mais correlatas: o design e a ergonomia. Nossa discussão, neste primeiro artigo para o DesignBrasil, será conduzida pela definição destas áreas e a permeabilidade que há entre elas, o que deve proporcionar uma oportuna reflexão. Iniciemos pela ergonomia, cujo objetivo está relacionado à adequação de processos e produtos tecnológicos aos limites, capacidade e anseios humanos.

Sabemos que não há consenso quanto a sua definição, principalmente devido ao seu caráter trans e multidisciplinar. Entretanto, iniciemos por nos basear num dos principais expoentes internacionais da Ergonomia, o professor Hal Hendrick, que durante o VI Congresso Brasileiro de Ergonomia, em 1993, afirmou que … a única e específica tecnologia da ergonomia é a tecnologia da interface homem sistema. A ergonomia como ciência trata de desenvolver conhecimentos sobre as capacidades, limites e outras características do desempenho humano e que se relacionam com o projeto de interfaces, entre indivíduos e outros componentes do sistema. Como prática, a ergonomia compreende a aplicação da tecnologia na interface homem-sistema, aos projetos ou modificações de sistemas, para aumentar a segurança, conforto e eficiência do sistema e da qualidade de vida. Passados 14 anos, tal definição parece manter-se bastante atual.

A Associação Internacional de Ergonomia, após ampla discussão entre suas associações afiliadas, também adotou uma definição: Ergonomia (ou Fatores Humanos) é uma disciplina científica preocupada com a interação entre os seres humanos e outros elementos de um sistema…, e sua aplicação se dá através de … teorias, princípios, dados e métodos de projeto com o objetivo de otimizar o desempenho do ser humano e de todo o sistema. Neste caso, os profissionais que trabalham com a ergonomia devem contribuir … no projeto e na avaliação das tarefas, profissões, trabalho, produtos, ambientes e sistemas, a fim de torná-los compatíveis com as necessidades, as habilidades e as limitações das pessoas.

Ainda, segundo esta entidade, a ergonomia apresenta algumas especilidades, como por exemplo: a ergonomia física preocupada com os aspectos físicos da relação homem-sistema; incluindo anatomia, antropometria, fisiologia, biomecânica, posturas funcionais, manipulação de materiais, movimentos repetitivos, doenças profissionais, postos de trabalho, segurança e saúde musculoesquelética; a ergonomia cognitiva, preocupada com os processos mentais, tais como: a percepção, a memória, o raciocínio; e a ergonomia organizacional preocupada com a otimização dos sistemas sociotecnológicos, incluindo suas estruturas organizacionais, de políticas e de processos.

Independente das fontes de informação, e por estar intimamente associada à evolução tecnológica, a ergonomia passa a apresentar diferentes enfoques, o que dificulta uma única e consensual definição.

Esta condição também pode ser observada com o design. Entre as proposições de muitos estudiosos, percebe-se que o design é uma área de conhecimento correlato ao desenvolvimento do projeto do produto e sistemas informacionais, cujos princípios apóiam-se no atendimento às exigências e expectativas do homem (produtor, consumidor, usuário e expectador), em sua concepção produtiva.

Talvez um dos melhores conceitos para design, ainda é aquele apresentado por Bernd Löbach, em sua obra intitulado Design industrial bases para a configuração dos produtos industriais, o qual define como … toda atividade que tende a transformar em produto industrial passível de fabricação, as idéias para a satisfação de determinadas necessidades de um indivíduo ou grupo, ou seja, é … um processo de adaptação dos produtos de uso, fabricados industrialmente, às necessidades físicas e psíquicas dos usuários ou grupo de usuários.

Essas necessidades … têm origem em alguma carência e ditam o comportamento humano visando à eliminação dos estados não desejados. (…). Quando as necessidades são satisfeitas, o homem sente prazer, bem-estar, relaxamento. Entretanto, o alcance dessa satisfação exige que o homem modifique a natureza, utilizando sua inteligência para idealizar objetos e informações que ampliem suas capacidades e limitações. A produção depende da participação ativa do designer.

Ainda segundo Löbach, na … sociedade industrial altamente desenvolvida, o objetivo de quase toda atividade é a elevação do crescimento econômico e do nível de vida. Aí a satisfação de necessidades e aspirações tem um papel substancial, motivando a criação e o aperfeiçoamento de objetos.

O processo se inicia com a pesquisa de necessidades e aspirações, a partir das quais se desenvolverão as idéias para sua satisfação, em forma de produtos industriais (…). É na transformação destas idéias em produtos de uso (…) que o designer industrial participa ativamente.

Alguns leitores desta coluna poderão não gostar muito de tais citações, podendo considerar que o fundamento apresentado é um tanto anacrônico ou ultrapassado (principalmente diante as novas tecnologias), mas não dá para negar que o design tem por objetivo satisfazer as necessidades humanas (materiais, perceptivas ou quaisquer outras), através de produtos e sistemas informacionais, desenvolvidos nos processos produtivos disponíveis (industriais, ou não) na atualidade.

Aqui, há sempre uma longa discussão sobre as nuances entre design, engenharia e arte/artesanato, mas ao invés de, mais uma vez analisarmos cada uma dessas áreas, eu prefiro identificar o design como um sistema em si, cuja principal característica (além de seus objetivos, claramente expostos anteriormente) está em apresentar uma metodologia própria.

A metodologia do design surgiu num momento em que se procurou sistematizar e tornar científico o desenvolvimento de produtos e sistemas informacionais. A criação da Bauhaus e, posteriormente, a Escola de Ulm, fizeram com que o design fosse observado como processo. Após a segunda metade do século XX, Jones, considerado um dos precursores da metodologia do projeto, apresentou trinta e cinco propostas metodológicas, constituindo até então uma reunião fundamental para a teoria e prática do design. Depois disso, muitos pesquisadores e designers desenvolveram e publicaram trabalhos sobre metodologia do projeto, os quais se destacam (no conhecimento do público especializado) Bruno Munari, Gui Bonsiepe e, no Brasil, o Prof. Gustavo Amarante Bomfim, entre outros.

Ao final da década de 1990, a evolução desta área alcançou um elevado nível, surgindo importantes estudos no mundo todo, com destaque para o livro denominado Creating innovative products using Total Design, de Stuart Pugh (um pouco mais voltado à engenharia do projeto).

Atualmente, os estudos sobre metodologia do design têm se preocupado com os impactos ambientais do sistema produtivo mundial, mas não tem deixado de considerar as necessidade e anseios do ser humano. Assim, ao propormos o design como sendo um processo de desenvolvimento de produtos e sistemas informacionais que objetiva satisfazer as necessidades humanas, não podemos desconsiderar que a evolução tecnológica e os processos de relação entre o homem e a tecnologia foram se alterando ao longo do tempo e, conseqüentemente, novas necessidades metodológicas foram surgindo.

De acordo com um artigo escrito por Yap e seus colegas de trabalho, publicado na década de 1980 na Applied Ergonomics, podemos considerar que enquanto produtos e outros dispositivos tecnológicos eram simples, seus desenhos podiam ser desenvolvidos por métodos puramente empíricos ou mais intuitivos. Com a evolução tecnológica e a complexidade dos sistemas e produtos, essa abordagem empírica tornou-se insuficiente, sendo necessária uma abordagem científica, então baseada em considerações ergonômicas das capacidades e limitações do ser humano, aperfeiçoando e maximizando a segurança, funcionalidade e usabilidade dos produtos.

Talvez neste sentido é que se estabelece, definitivamente, a relação entre Design e Ergonomia, a qual vem se caracterizando cada vez pela permeabilidade de ações entre ambas as áreas.

No próximo texto da coluna, pretendemos dar continuidade à discussão sobre os impactos da ergonomia nas metodologias do design.

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