Design em tempos de crise

Por Angela Carvalho

Agora é oficial: Brasil em recessão!

Apresentada em letras garrafais no jornais de domingo, a notícia caiu como um diagnóstico final de uma doença há tanto tempo instalada.

Já vivi muitas crises e, hoje em dia, encaro estes ciclos com mais neutralidade sabendo que são passageiros e que servem para  transformar e aprofundar a minha consciência como empresária e como ser humano.

Portanto, este me parece o momento oportuno para uma reflexão sobre a importância e o papel do design em tempos de recessão.

O pior efeito da crise é o medo que se instala como pano de fundo. Com ele vem a insegurança e a paralisa que muitas vezes faz perder a visão do cenário maior. Passamos a reagir aos fatos, às situações de emergência e deixamos de atuar com uma estratégia inteligente.

Fácil dizer… mas o que fazer quando o mercado está estagnado, falta dinheiro e principalmente confiança?

Se olharmos para o passado poderemos encontrar vários exemplos onde o design floresceu em períodos de recessão contribuindo para o sucesso das empresas que usaram a sua capacidade criativa.

Durante a Grande Depressão, iniciada em 1929 com a queda da Bolsa de Valores Americana, muitas empresas contrataram designers para incrementar a estética de seus produtos buscando motivar o consumo.

O famoso designer Raymond Loewy,  abriu seu escritório em 1929 exatamente no ano da crise. Na Europa, a Depressão incentivou soluções de produtos mais econômicos, funcionais e inovadores em termos de tecnologia. Os móveis revolucionários de Le Corbusier para a Thonet, o design minimalista da Bauhaus e de sua sucessora Ulm são exemplos desta tendência.

O editor e colunista do Times Michael Cannell  em seu interessante artigo Design loves  Depression  lembra que em 1940 , tempos de escarces, Charles e Ray Eames prosperaram produzindo produtos inovadores realizados com materiais baratos como  plástico, resina e compensado e que foi exatamente no pós guerra que o Design Italiano se tornou reconhecido em todo o mundo.

Com menos dinheiro no bolso o consumidor irá direcionar seus gastos para a alimentação e gêneros  e serviços de primeira necessidade consumindo produtos de forma mais seletiva e buscando qualidade e preço.

Marcas que construíram confiança em seu público sairão beneficiadas nesta competição.

Compartilho a opinião do economista Thomas Friedman que, em artigo no NY Times escrito em março 2009, faz uma análise instigante do cenário criado pela crise financeira mundial:

“ E se a crise de 2008 representa algo muito mais fundamental do que uma profunda depressão? E se ela está nos dizendo que o modelo de crescimento que criamos nos últimos 50 anos é simplesmente insustentável econômica e ecologicamente e que 2008 foi o ano em que alcançamos o limite – quando a Mãe natureza e o mercado, ambos disseram : Basta!

Mais avante ele coloca: “ Nós precisamos crescer mas de uma forma diferente…

Muitos países como Alemanha, Inglaterra, China e USA estão usando a diminuição do crescimento econômico como estímulo para um reposicionamento de suas economias investindo em tecnologias limpas.

Em tempos de crise e de desaceleração o design certamente  terá um lugar cada vez mais essencial nas empresas que tem visão, buscam  uma estratégia para o futuro, querem inovar, agregar valor a seus produtos, atrair e fidelizar consumidores.

Se superarmos o medo inicial e partirmos para a ação consciente talvez seja a exatamente a crise ( mundial e a nossa nacional ) que nos ensinará  a repensar a nossa forma de atuar como empresas e profissionais.

Como designers teremos o desafio de realizar nosso trabalho considerando cada vez mais as reais necessidades das pessoas e da sociedade. Teremos que criar e promover uma experiência legítima e uma relação afetiva dos objetos, serviços e marcas com o nosso público.

Será nosso papel incentivar a produção local, industrial e artesanal, minimizando a importação de manufaturados e insumos.

Continuará a ser nossa obrigação ética projetar produtos mais inteligentes e duráveis, fáceis de serem reparados pelo próprio consumidor, eficientes , econômicos e com baixo impacto sobre o meio ambiente.

Será nossa missão usar a nossa criatividade para encontrar saídas para um mundo de menos consumo, mais compartilhamento e qualidade de vida.

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3 Comentários

  1. ismael - sao luis ma disse:

    oLÁ ANGELA, QUERIA TIRAR UMA DUVIDA.
    COM RELAÇÃO A PROFISÃO “DESIGNER”
    QUANTO TEMPO SE TRABALHA? VOCÊ PEGA MAIS PROJETOS DE PESSOAS OU EMPRESA?
    E MAIS FACIL ATUAR EM GRAFICO, INTERIORES, MODA OU PRODUTO?
    SOU UM ESTUDANTE JA DO CURSO. MAS QUERIA UMA RESPOSTA MESMO DE UMA PROFISSIONAL DA AREA.
    ESPERANDO UMA RESPOSTA :)
    DESDE JÁ vlW!!!!!!

  2. Claudio Viveiros disse:

    Parabéns pela exposição do pensamento otimista nestes tempos bicudos. Também penso assim, mas não saberia expressar tão bem.

  3. Mércia Anselmo Amaro disse:

    Fantástica sua reflexão. Obrigada