Design na Índia: tradição e oportunidade para crescimento

Por Editor DesignBrasil

Design na Índia: tradição e oportunidade para crescimento

O design é promovido de diferentes maneiras em diferentes países. Em geral, as estruturas mais desejadas são os centros de design estabelecidos e mantidos pelo governo do país ou da região. No entanto, este formato é tão raro quanto a estabilidade dos governos atuais. Felizmente, a criatividade e a necessidade levam designers a encontrarem outras maneiras de realizar as iniciativas pela promoção do design.

Na Índia, o National Institute of Design NID tem atuado como a principal organização para o design do país desde 1961, quando foi fundado com a missão de criar conhecimento, educar estudantes para operar no setor de design, conduzir pesquisa e promover o design na Índia.

Em 2004, tive a oportunidade de conversar com o professor Ranjan a respeito das atividades deste Instituto. A sua carreira está diretamente ligada ao NID. De 1981 a 1991, ele coordenou as atividades de consultoria no instituto. Durante este período, escreveu aproximadamente 4 mil propostas de projetos, das quais quase 400 foram realizadas uma proporção considerável tendo em vista que design, nessa época, era uma área nova na Índia.

No início deste ano, Ranjan nos atualizou sobre as atividades do Instituto, sua importância no contexto do país e sobre novas diretrizes para a política de design na Índia. A entrevista original foi concedida em inglês e está publicada no SEEdesign Bulletin (www.seedesign.org).

Professor Ranjan, qual a função do NID na promoção de design junto a indústria na India?

O NID é financiado pelo Departamento de Política e Promoção Industrial (DIP&P) do Governo da Índia e tem uma posição única de atuação tanto como instituto de educação como organização promotora de design. NID também é a maior organização de pesquisa e consultoria na Índia, acumulando cinco funções: educação, promoção, pesquisa, consultoria e publicação, o que é bem raro para uma escola de design. A Política Nacional de Design para a Índia está para ser concluída logo e deverá conduzir a uma nova era de expansão do suporte dado pelo governo ao design no país. Através disso, nós esperamos ver a fundação de um National Design Council e de muitos outros NIDs na Índia no futuro próximo. Enquanto esta infra-estrutura não é estabelecida, o NID de Ahmedabad vem desenvolvendo a função de promotor do design no país. Sobre as atividades do instituto: nós estabelecemos um Design Showcase na Índia International Trade Fair complex (IITF) em Nova Delhi e, há cinco anos, conduzimos encontros anuais com a Confederação das Indústrias na Índia (CII) e o DIP&P. A Incubadora de Design e Negócios (DBI) no NID recebe o apoio do Departamento de Ciência e Tecnologia e é outra iniciativa que ajuda a estabelecer negócios de design na Índia.O NID tem conduzido inúmeros projetos na área de pesquisa na área de artesanato e setores sociais da nossa economia através do departamento de Outreach programas e projetos. O setor de consultoria lida com projetos comerciais de design para a indústria e agências do Governo. Nestas iniciativas, empresas podem contratar docentes e alunos do NID para projetos específicos com base em uma remuneração profissional. Outra nova iniciativa está estabelecendo contratos no Instituto para o desenvolvimento de colaboração em pesquisa a longo prazo com setores específicos da indústria. Atualmente, temos acordos com os setores de metais, aplicação de nanotecnologia têxtil, interface de usuário e informação de design para o setor de tecnologia da informação. Muitas outras colaborações estão sendo estabelecidas. O corpo docente do NID tem atuado também junto ao Governo em discussões de planejamento internacional, influenciando a política nacional. Eu estou envolvido diretamente com o setor de bambu e artesanato junto a várias organizações como consultor especializado nesta área. Nós também temos um setor de treinamento industrial que oferece cursos curtos em design para gerentes e técnicos da indústria hindu. Os projetos com estudantes do NID também têm sido outro caminho para a abertura de projetos de demonstração numa grande variedade de setores da indústria na Índia. Isto é documentado no catálogo Young Designers, uma série de publicações anuais do NID desde 1989, da qual fui um dos fundadores.

Como o design está organizado na Índia?

O design está distribuído entre muitos stakeholders e em muitos setores diferentes, cada um gerenciando seu próprio grupo. Não existe uma agência do Governo cuja missão seja promover o design nestes setores. É o nosso Instituto que assume esta responsabilidade ainda que não esteja de fato contratado para exercer esta tarefa e muito menos subsidiado para desenvolver atividades de promoção do design. Tendo dito isso, existe muita atividade de design na Índia. Escolas de design têm sido estabelecidas num grande e variado número de instituições de tecnologia. Isto está em expansão e nos próximos anos deverá haver uma explosão de novas iniciativas em educação de design devido a uma crescente demanda (globalização e competitividade). A indústria tem mostrado crescente interesse em design nos anos recentes. A relação entre NID e a Confederação das Indústrias da Índia (CII) vem se fortalecendo. No setor profissional existe a necessidade de organização da área de design de produto. Nos anos 70, início dos anos 80, existiu uma associação profissional chamada SIDI (Society of Industrial Design of India), mas está inativa agora. Na área de design gráfico e comunicação, existe uma associação que tem sustentado interesses e organizado o seu próprio setor.

Existem países onde o governo exerce um papel crucial nos investimentos em promoção do design para a população e para o setor industrial. É este o caso na Índia? Qual a relação entre design e governo?

O NID foi fundado em 1961 e, desde então, tem sido totalmente financiado pelo Ministério Público da Indústria e Comércio. Instituições que trabalham com têxteis e design de moda são financiadas pelo Ministério da Indústria Têxtil. Instituições de Tecnologia também começaram a ter escolas de design, subsidiadas pelo Ministério de Recursos Humanos e Desenvolvimento e Ministério da Educação. E assim por diante. Isso significa que não há um Ministério único apoiando iniciativas de design na Índia. Além de totalmente distribuído, acredito que o design se ligará a outras instituições, como os ministérios da agricultura, meio ambiente, etc. Existe competição para isso e também uma certa falta de clareza na alocação de fundos para o design. Isso porque cada Ministério trabalha isoladamente como se os programas de design fossem seus frutos e não considerando a função maior do design para a economia e desenvolvimento social da Índia.

Além de uma maior unidade, o que é preciso para melhorar a infra-estrutura para suporte em design na Índia?

Ainda penso que é necessário mais reconhecimento do governo. Existe muito investimento para o fortalecimento da indústria, infra-estrutura, promoção e suporte. Ciência e Tecnologia tem um Ministério próprio, assim como várias outras atividades. Design não tem esta liderança e acaba sendo subfinanciado pelo governo, particularmente em comparação com a Ciência e Tecnologia. Em um encontro com políticos no departamento de Ciência e Tecnologia (DST), sugerimos que todo projeto de ciência e tecnologia tivesse um componente de design inserido. Então qualquer investimento nesta área iria certamente atingir o mercado como um produto finalizado, utilizável e de valor. Então, neste sentido design poderia ser integrado diretamente no início destes projetos. Se estas políticas são adotadas, a efetividade da intervenção do design atingirá um alto nível na Índia. Esta é uma oportunidade madura e pronta para ser explorada. Existem inúmeros designers lá fora, em número suficiente para servir todas as necessidades, uma vez que as políticas sejam implementadas. Uma outra coisa: os grandes gastos do Governo. Eu pediria que em alguns tipos de atividades, as obras fossem submetidas a um processo de auditoria de design em um estágio antes da implementação.

Auditoria de Design. Este conceito é interessante.

Por que não? Digamos, por exemplo: você constrói uma estação de trem. Quão boa é esta estação para os usuários? Uma outra oportunidade: o país é enorme! A diversidade cultural também catorze línguas principais, centenas e centenas de dialetos, hábitos alimentares que variam enormemente. Eu imagino que isto também seja uma oportunidade para o desenvolvimento de uma variedade de produtos nestas regiões. Para isso, iniciativas regionais e sub-regionais voltadas para as raízes da cultura e idioma locais poderiam competir entre si e incitar a diversidade do país de uma maneira mais efetiva que uma organização central. E uma última oportunidade: nós acreditamos que cada setor da economia seria capaz de cooperar com escolas em um trabalho focado naquele setor especifico. Por exemplo, as escolas regionais de Engenharia são encorajadas a desenvolver programas de design, particularmente aqueles alinhados ao foco regional ou alinhados com a indústria local.

Numa entrevista anterior, Arlene Gould, do Canadá, também mencionou o contexto geográfico. Considerando o tamanho e a diversidade da Índia, como funcionaria o suporte em design regionalizado?

Eu acredito que a Índia precisa lidar com design e com suporte em design em vários níveis simultaneamente, devido à grande escala e extensão do trabalho a ser feito junto aos 230 setores da nossa economia que estão em um desesperado necessidade por serviços de design. A Índia é um país vasto e se torna necessário valorizar as iniciativas regionais e sub-regionais com a promoção do design. Com a abertura da economia, nossa indústria e setores econômicos estão todos enfrentando uma intensa competição e a necessidade do design está sendo sentida mais e mais. As iniciativas nacionais em progresso hoje são importantes para o futuro das ações de design, mas eu acredito que também precisaremos de iniciativas específicas para cada setor da economia se o uso do design é para ser sistematicamente introduzido com todos estes setores. Precisamos olhar o design como um sistema e eu espero que a Política de Design Nacional em progresso faça isso em breve. Precisamos multiplicar os níveis de integração das iniciativas de âmbito nacional, regional e setorial para promover e dar suporte ao uso do design no país.

E quais as barreiras a serem transpostas para fortalecer o design?

Uma coisa é o suporte financeiro do Governo, outra é fazer os profissionais mais pró-ativos para as Políticas governamentais. Fazer que eles questionem e obtenham o apoio adequado. A terceira é criar algum nível de regulamentação. Mesmo na educação, a política de formação e direção que a estabelece é muito centrada em poucas pessoas que podem tomar decisões substanciais e dirigir o futuro do design de uma maneira arbitrária.

Como deve ser o futuro das atividades de suporte em design na Índia?

Penso que existe um ótimo futuro, com o crescimento do nível de informação da indústria e do governo sobre a necessidade do design. Como resultado disso, penso que muitos sistemas serão inovados e nós seremos parte de muitos deles. Estou extremamente positivo em relação a isso. A ênfase em suporte em design em comparação à promoção do design é uma diferenciação bastante importante. Promoção em design é algo que governos terão que continuar a fazer para assegurar que a informação seja divulgada tanto entre a população quanto entre o setor industrial. No entanto, suporte em design é talvez muito mais efetivo e sustentável para promover o envolvimento de designers com indústria e para assegurar que ambos progridam rapidamente. Neste sentido todos os esforços que são feitos para melhorar o uso do design pela indústria valerão a pena.

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