Destaque do design automotivo, Ari Rocha fala ao DesignBrasil

Por Centro Brasil Design

Autor do primeiro doutorado brasileiro na área de design de produto em 1973, Ari Rocha é ‘Doutor’ apenas nos espaços acadêmicos. Desde os 14 anos de idade, tem a meta de aprender algo novo a cada dia. Seu envolvimento nos eventos estudantis é justificado pela preocupação em difundir e estimular o conhecimento entre os aprendizes da profissão: “jovens discutem e questionam, fato que considero desafiante e válido”, afirma.

Pioneiro no design automobilístico brasileiro, o arquiteto e designer, graduado em 1964 pela USP, desenvolveu o primeiro carro-conceito no país, o Aruanda, que já lhe rendeu até o codinome de ‘Avô do Smart e do Classe A’ – ainda que honrado, Rocha acredita que “não se deve valorizar demais um trabalho isolado que se tenha realizado”, e que se não houvesse proposto o carro monovolume  em formato de cunha, certamente outros o fariam.

Sua vasta experiência com design automotivo levou a convites para fazer parte de bancas examinadoras de doutorados e, mais recentemente, Ari Rocha integrou o júri do prêmio internacional ‘The Best Designed Car Award’, que escolheu os melhores carros apresentados no ano de 2011. “Esse tipo de atividade obriga uma atualização constante”, comenta sobre os aprendizados. Nesta entrevista exclusiva ao DesignBrasil, Rocha fala sobre sua carreira, conquistas e aprendizados. 

DesignBrasil: Você é bastante conhecido por estudantes de todo o Brasil pela participação em semanas acadêmicas e palestras por todo o país. Como acha que essa propagação de conhecimento tem impacto nos futuros e jovens designers?

Ari Rocha: Quando terminei a faculdade, em 1964 [mesmo ano em que ganhou o Prêmio Lúcio Meira, do Salão do Automóvel], saí para tentar realizar meu sonho de expor um carro no Salão de Turim.  Mas, ao contrário do que imaginei, a ideia não foi bem recebida por muitas pessoas que ‘contavam’ na área.  Ao voltar ao Brasil, percebi que as pessoas ainda não acreditavam no que se podia fazer aqui mesmo no país. Nesse momento comecei a entender que era preciso mudar nossa forma de ver o mundo; era necessário mudar as cabeças das futuras lideranças.  Então, assim como o Prof. Eddy, [se refere a Auresnede ‘Eddy’ Pires Stephan], passei a dedicar parte de meu tempo ao contato com os mais jovens, primeiro como professor e, mais tarde, como palestrante. Hoje priorizo o contato com estudantes, rejeitado pela maioria dos colegas porque os jovens discutem e questionam – fato que considero desafiante e válido.

DB: Como você acha que a sua conquista do Prêmio Lúcio Meira e o prestígio no “47° Salone Internazionale dell’Automobile”, em Turim, abriu portas para que outros designers automobilísticos brasileiros tivessem oportunidades no exterior?

AR: O Lúcio Meira foi decisivo, pois conferiu visibilidade ao trabalho, favorecendo o convite do Mario Fissore para construir o protótipo e apresentá-lo no Salão de Turim, à época o mais importante evento da área em todo o mundo.  Era, não sem motivos, considerado inacessível para trabalhos de designers brasileiros. O prêmio em Turim foi muito importante para mim, porque a escolha do projeto mais inovador foi feita pelos próprios ‘carrozzieri’. Ganhei a capa do número especial do Salão de Turim, da revista ‘Il Carrozziere Italiano’, publicação que circulava no ambiente do design automotivo, que pela primeira vez publicou um projeto não-italiano. Creio que isso pode ter ajudado um pouco a derrubar algumas barreiras existentes aos designers brasileiros.  Mas projetos bem sucedidos, como da VW-Brasília e SP-2, foram decisivos para consolidar essa superação.

DB: Há pouco tempo, você fez parte do júri do ‘The Best Designed Car Award’, junto a outros renomados designers. Como foi?

AR: Toda situação nova é uma boa oportunidade para aprender. Foi gratificante estar ao lado de designers com a criatividade de Luigi Colani, autor de grande número de propostas que vão de automóveis, a trens e aviões; a introspecção oriental de Satoshi Wada, designer da Audi; a simpatia e simplicidade que bem definem Patrick Quément, que recentemente deixou a Vice-Presidência de Design do grupo Renault; a maturidade de Roy Lonberger, que projetou sucessos da General Motors, como o Corvette e o Camaro; além de ‘Tom’ Matano, autor do emblemático Mazda Miata.  E ainda outros designers não tão conhecidos no Brasil, onde incluo o brasileiro Artur Mausbach, um dos mentores do PDA – Pensando Design Automotivo, talvez o mais bem sucedido evento da área, recentemente realizado na USP. Esse tipo de atividade obriga uma atualização constante, no que se refere às tendências do design e da tecnologia automotivos.

DB: Em sua opinião, qual é a importância dessas premiações para os designers e para as empresas? Essa competição aumenta a competitividade das indústrias? Melhora a qualidade técnica dos produtos? Como o Brasil ou os designers brasileiros poderiam se apropriar desta iniciativa?

AR: Desde os tempos dos antigos salões do Automóvel e da Feira de Utilidades Domésticas, no início dos anos 1960, a associação sempre foi a uma premiação dos melhores produtos.  Os prêmios Lúcio Meira e Roberto Simonsen sempre representaram um importante fator motivador tanto para a evolução, quanto para o processo de maturação do Design que se pratica hoje no Brasil. Importantes nomes, como Geraldo de Barros, Michel Arnoult, Auresnede ‘Eddy’ Pires Stephan, Joaquim Redig, Anísio Campos e eu próprio, ganhamos mais consistência graças essas premiações. Durante algum tempo, empresas e designers trabalharam com objetivos convergentes, mas logo os conglomerados de porte internacional passaram a absorver as indústrias locais, mudando paulatinamente essa realidade. Esse conjunto de circunstâncias desfavoráveis acabou provocando o final dos concursos, no momento em que começavam a gerar mais benefícios para os produtos locais.  Mas essas experiências bem sucedidas permitiram que se entendesse suas vantagens, a tal ponto que hoje se multiplicam as iniciativas nessa direção.

DB: Como você definiria a principal característica do design automotivo brasileiro?

AR:
A indústria automobilística perdeu muito de sua característica ‘local’. Grande parte dos componentes, principalmente eletrônicos, são produzidos em países asiáticos (China, Malásia, Hong Kong, etc.), de modo a deslocar o centro de interesse dos fabricantes. Tornou-se ocioso falar em indústria automotiva brasileira, argentina, mexicana… Os designers da área, no entanto, tiveram algumas vantagens com esse tipo de mudança. O longo e progressivo processo de aceitação da criatividade/qualidade dos projetos aqui realizados permitiu um maior reconhecimento internacional, por parte dos conglomerados de empresas do setor automotivo, como atestam o trabalho de Raul Pires, irmãos Pavone, ‘Brazilian Corner’ e diversos outros.

DB: O que acha de ver pelas ruas carros como o Fiat 500 e o Smart, que se assemelham ao seu projeto de 1964, o Aruanda? Existe alguma convergência conceitual?

AR:
A convergência de conceitos, para a concepção de veículos urbanos, era inevitável. Talvez meu único mérito tenha sido a oportunidade de levantar a questão um pouco antes, podendo difundir essas ideias de um modo mais amplo, graças à oportunidade gerada pelas premiações recebidas. Mas, se não o tivesse feito, certamente outros fariam, porque o raciocínio que norteou a proposta era quase natural. Sinto-me gratificado ao ver que uma ideia de quase cinquenta anos ainda tem validade, que não envelheceu, mesmo com o ritmo quase frenético das transformações tecnológicas. Fiquei orgulhoso quando um dirigente do setor de Comunicação da Mercedes Benz me apresentou a um diretor da área industrial, como “o avô do Smart e do Classe A”.

Veja também

2 Comentários

  1. sidney disse:

    Boa noite. A design brasil oferece algum tipo de setor que recebe por e-mail design de veículos para apreciação?

    1. editor disse:

      Sidney, qual é o seu interesse?