Discutindo o mercado de design

Por Bruno Porto

É realmente muito difícil para um designer falar do aspecto comercial de sua atividade. Deve ser por falta de prática.

No início de maio coordenei um seminário de dois dias no Senac Rio, dentro do Encontros CultCom promovido pelo seu Centro de Comunicação e Cultura. O objetivo era debater, como o próprio título do evento esclarecia, o Mercado de Design no Rio de Janeiro.

Raras são as discussões sobre o aspecto comercial da nossa atividade nos encontros ou semanas de design que pipocam por aí, que ultrapassem a profundidade (de um pires) das mesas redondas de encerramento. Geralmente nestes eventos designers são convidados para apresentar seus projetos isoladamente ou em um pout-pourri chamado de portfólio ou dar palestras sobre um tema específico, geralmente com mais estudantes do que profissionais na platéia há uma saborosa e evidentemente cáustica descrição desta situação no livro Morte aos papagaios (Ateliê Editorial) do designer paulista Gustavo Piqueira que podem até encher os olhos mas que nada acrescentam em termos de modos de condução do nosso negócio. Daí, estes eventos não serem frequentados em sua maioria por designers, mas aspirantes a designers.

Por isso partimos para algo diferente: a proposta era reunir profissionais atuantes no Rio de Janeiro para discutirem tudo menos design, ou melhor, tudo menos linguagem e processo criativo. Nenhuma figurinha seria mostrada, nenhum slide-show, nenhuma animação, e só se falaria sobre assuntos desagradáveis: impostos a serem pagos, encrencas trabalhistas, remuneração inadequada, formatos de relacionamentos comerciais, a indefectível regulamentação, contratos, tabelas, e por que temos a impressão de que fornecedores, clientes, estagiários, funcionários, patrões e empresas, enfim, todos, não exercem de maneira eficiente suas funções. Perrengue total. Dois dias inteiros de problemas, sem refresco.

Convidamos profissionais com largo tempo de atividade para dividirem seus conhecimentos e experiência em sete mesas redondas com temas que seguiam uma seqüência lógica, dividida em duas partes. Abríamos os trabalhos listando e discutindo as conseqüências práticas delimitação de mercado, exclusividade de concorrências públicas, possíveis formas de fiscalização, situação jurídica das empresas e profissionais que surgiriam com uma possível regulamentação da profissão. Vejam bem, o debate não era o usual por quê regulamentar a profissão, mas sim uma análise (a princípio pouco romântica e mais crua) de seus prós e contras, principalmente para os nossos bolsos. Com este dados levantados, o assunto tinha prosseguimento natural na segunda mesa, Adequação Legal e Tributária de uma Empresa de Design no Rio de Janeiro (não dá para ser mais claro em um título…) que procurava levantar quanto custa manter uma empresa, possíveis cuidados a serem tomados, possíveis formatos legais, possíveis encrencas. Esta primeira parte era uma espécie de Quem Somos, como profissionais, para em seguida partirmos para (o que um livro de auto-ajuda chamaria de) Discutir a Relação com fornecedores, clientes e mesmo entre nós mesmos. Representantes comerciais de uma indústria de papéis, uma gráfica e uma empresa de sinalização apresentaram os principais pontos de conflito com os designers que usam seus serviços revelando um aspecto pouco conhecido do nosso Quem Somos. No segundo dia, designers atuantes nos mercados editorial, fonográfico e de mídia interativa (nichos particularmente fortes no Rio de Janeiro, e que envolvem uma certa vocação cultural da cidade) discutiram em três mesas, propositalmente consecutivas (e por isso muito ricas, pois geravam inevitáveis comparações e contra-argumentações muito próximas) questões como remuneração com base no que já havia sido discutido no dia anterior e problemas causados por características específicas destes segmentos. A mesa final reunia designers-que-atuam-como-professores em diferentes instituições de ensino da cidade (ou seja, com experiência tanto contratando como formando profissionais) para conversar sobre as necessidades do mercado carioca: o que as empresas demandam de um candidato a um emprego X as falhas no desenvolvimento desses profissionais.

Obviamente, todas as discussões envolviam maneiras de superar as adversidades apresentadas, mas não havia a menor ambição de se esgotar os assuntos debatidos, nem de se chegar a uma solução milagrosa (aquela sacada genial que ninguém nunca pensara), por que os problemas apresentados são realmente espinhosos (ou, ora essa, não estariam sendo debatidos!). Como não seria possível resumir aqui tudo que foi discutido, eis quatro conclusões e informações diversas sobre o seminário:

1- Uma grande satisfação: nenhuma das mesas foi encerrada com o assunto total ou unanimamente esgotado. Isso mostra que ainda há muito a ser debatido, analisado, proposto. Todas foram além do tempo previsto, e muito foi deixado de fora, deixando gancho até mesmo para outras discussões mais específicas, como os mercados de cinema e animação (apontados na abertura do seminário pelo designer André Stolarski), de design editorial de revistas e jornais (sugeridos por alguns dos designers inscritos, como Bruno Lemgruber, Fernanda Precioso e Mariana Ochs, entre outros), e mesmo de suportes de mídia interativa (como levantou o designer Roberto Brício, medidador da mesa sobre o assunto uma das mais produtivas em termos de informações conduzidas, com os designers Danilo Medeiros e Felipe Vaz).

2 A frágil formação dos profissionais foi uma questão que permeou muitas das discussões. Na mesa Design para o Mercado Fonográfico, mediada pelo designer Ricardo Leite, o designer Gê Alves Pinto, diretor do departamento de arte da Universal Music, atentou para a dificuldade que enfrenta na contratação de um designer, devido ao fato de hoje as gravadoras girarem mais em torno de dvds do que de cds (leia-se pirataria, mp3 etc), e poucas são as faculdades que abordam o desenvolvimento conceitual e ferramental necessário para este tipo de projeto. Também nesta mesa, o diretor comercial da produtora de design Tecnopop, Luis Marcelo Mendes, salientou que o profissional de design que atua neste mercado tem que se mostrar extremamente atualizado com novas tecnologias e áreas de conhecimento. Não existe mais esse negócio de só fazer a capinha do cd. É o cd, o dvd, o cenário do show, o site institucional, o hotsite do disco, o outdoor, o vídeo e pensar isto não apenas de forma artística, mas estrategicamente: aonde este cantor ou banda quer estar em dez anos?, disse. A falta de intimidade com os modernos processos gráficos também foram apontados como causa de problemas que vão de atrasos nos prazos a orçamentos altos (por questões de segurança), pelo gerente comercial da Gráfica Minister Délio Couto. Segundo ele que participou da mesa Relacionamento com Fornecedores com José Carlos Alencar, coordenador de contas da Ripasa, e Beatriz Assumpção, gerente de marketing do Studio Alfa muitos designers vão aprender aspectos técnicos (como fechar arquivos), projetuais (etapas de um briefing) e comerciais (como negociar prazos e remuneração com clientes) depois de formados. Isso resulta em inesperadas mudanças no curso de produção de um trabalho, aumenta valores, gera insatisfação etc. Abrindo a mesa de encerramento, que tratava especificamente da formação e desenvolvimento de designers, o designer Guto Lins apresentou dados sobre como a baixa qualidade dos resultados do ensino fundamental aliada a problemas sociais (família entrega a responsabilidade de formação a escola, por exemplo) comprometem não apenas o ensino médio e superior, mas a subseqüente formação (cultural, intelectual, moral) de nossos profissionais e de nosso clientes! sugerindo que boa parte deste problema encontra-se em outra escala, de mais difícil solução.

3- Uma associação de profissionais é realmente necessária. Talvez esta tenha sido a conclusão mais clara que ficou na cabeça dos que assistiram a todos os debates, e puderam traçar um panorama do mercado profissional carioca em seus desafios. Já na primeira mesa, os designers Lucy Niemeyer e Freddy Van Camp explicitaram que as mobilizações necessárias a uma regulamentação da profissão só serão possíveis se feitas através de associações. Se vocês realmente querem que a profissão seja regulamentada, associem-se!, afirmou Lucy. Na segunda mesa, mediada pelo veterano designer Ivan G. Ferreira, isto se tornou até mesmo palpável: o diretor jurídico da ABES Associação Brasileira de Empresas de Software, Manoel Antonio dos Santos, trouxe o estudo de uma proposta de convênio da Adobe para a ADG Brasil que garantiria aos seus associados, individualmente, uma redução do valor de compra de qualquer de seus produtos ao equivalente pago por empresas que adquirem mais de 50 licenças. A Adobe não tem interesse em fazer isso com o indivíduo designer, mas com uma associação juridicamente constituída. Outros tópicos nesta mesa, que também contou com a consultora empresarial Adriana Malamut, passam pela organização de uma associação, como redução de impostos municipais para empresas de design e mesmo a negociação de planos de saúde individuais para seus membros. As associações também são a forma mais completa e viável de instituições de ensino e fornecedores de produtos e serviços (cursos, papéis, impressão etc) terem uma interface eficiente com os integrantes do meio o que de certa maneira contribuiria para uma melhora no nível de formação destes profissionais. Uma das conclusões obtidas na mesa (mediada por Marcelo Martinez, com Evelyn Grumach, Victor Burton e Guto Lins, e um participante Sergio Liuzzi na platéia) que debatia a remuneração dos serviços de design para o mercado editorial carioca também só seria factível através de uma associação, nunca de poucos indivíduos: o reconhecimento pleno do designer como autor, ou seja, com adequado retorno financeiro. Já que o preço do produto final diante de características nacionais como o alto custo da distribuição e baixíssimo índice de leitura é engessado, a única forma de haver um aumento na remuneração do designer é através da inclusão de um percentual do contrato incial (já que um percentual do direito autoral interferiria no do autor do texto e isso certamente seria comprar uma briga que inviabilizaria a história) depois de transposta a barreira da tiragem inicial (pelo qual o serviço de design foi pago). Isto requer inicialmente a inclusão da tiragem nos contratos, mobilização jurídica e ninguém quer ser boi de piranha. Daí a necessidade de uma manisfestação de classe.

4- É realmente muito difícil para um designer falar do aspecto comercial de sua atividade. Deve ser por falta de prática. Conversei com todos os participantes convidados que esta seria a tônica do evento, mas em diversas ocasiões a conversa resvalava para aspectos de linguagem e uma ou outra história curiosa sobre um trabalho. Muitas das vezes isso vinha do público, outras tantas das próprias mesas. Cerca de cinqüenta pessoas se inscreveram para participar do seminário. Somados aos vinte debatedores que não estiveram todos presentes nos dois dias inteiros tínhamos sempre um mínimo de 35 pessoas para cada mesa. Destes, um terço era composto por estudantes, um terço por designers com menos de três anos de profissão, e o terço restante por profissionais mais tarimbados. Na prática, tínhamos dez a quinze pessoas participando ativamente em cada discussão, somando ao debate. Das poucas certezas que tivemos, apenas a de que é preciso proseguir debatendo e estudando, trocando informações. E a de que se isto for feito, com o tempo a gente melhora.