Dorotéia Pires

Por Editor DesignBrasil

“Torna-se imprescindível que as indústrias se abram para uma nova cultura em que o valor e a urgência da adoção de tais medidas permitam implementar o design como processo e estratégia”

Dorotéia Baduy Pires é designer, professora e pesquisadora. Especialista em estudos de design de moda, tem múltipla atividade docente no Brasil e Itália, atuando no curso de graduação em Design de Moda e de pós-graduação em Moda e Cultura da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Coordena o Projeto Milano e é mestre em Educação pela PUCPR, onde se graduou em Desenho Industrial. É bacharel em Pintura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Nesta entrevista concedida ao DesignBrasil, por e-mail, ela fala sobre o livro que organizou para a Editora Estação das Letras e Cores, “Design de moda – olhares diversos”, e ainda sobre a sua carreira e atividades. Analisa ainda o momento do design de moda no país. Confira.

 

DesignBrasil Como foi o processo de organização do livro “Design de moda – olhares diversos” e o que motivou seu lançamento?

Dorotéia Pires A diretora da Editora Estação das Letras e Cores, Kathia Castilho, convidou-me para organizar a obra. Inicialmente a idéia era de um volume menor e com autores somente brasileiros. No entanto, o reduzido universo de pesquisadores que se dedicam ao assunto despertou-me o desejo de convidar colegas e amigos de outros países para participar do grupo de amigos que compõe o volume. Assim, o livro ficou dividido em três partes compostas de 18 artigos e 28 autores do Chile, Argentina, Itália, Portugal e Brasil. Esta obra, a primeira publicação do gênero no Brasil, apresenta ao leitor diferentes olhares sobre o design de moda e suas diferentes etapas, conexões, inter-relações e imbricações. Os textos nela compilados auxiliam a compreender as múltiplas dimensões do design e justificam a necessidade de serem desenvolvidas ações estratégicas para consolidá-lo na moda brasileira.

DesignBrasil Um dos textos do livro é de sua autoria “O viajante e a cidade: o olhar do designer em outros territórios”. Do que trata o artigo?

Dorotéia Baduy Pires Com este texto, faço um recorte pontual na ampla tecitura que o tema evoca: propor o início de uma reflexão sobre a leitura da cidade de Milão, a capital do projeto e do Sistema Design Itália e centro gestor do made in Italy, que tem na moda um dos seus pilares, além da gastronomia, do mobiliário, entre outros. É ainda comum que a criação de moda no Brasil busque inicialmente coletar informações em alguns países do hemisfério norte, entre eles, a Itália. Torna-se então pertinente tratar do design italiano e o modo como foi estruturado e construído este complexo sistema, hoje um patrimônio inestimável para a economia daquele país. Por meio dele, reflito sobre a cultura de design, um tema que tem me inquietado e motivado investigar. Apresento brevemente as origens do design de moda brasileiro e italiano e destaco alguns de seus aspectos significativos. A idéia de abordar a cultura de design dos dois países vem do intuito de contribuir para a construção de um olhar mais crítico do brasileiro quando observa o design em território estrangeiro. Em termos práticos, aponto um programa de migração, periódico e temporário, que criei e o qual coordeno, como proposta de experiência transformadora da percepção e da capacidade criativa do viajante aprendiz de design de moda, o Projeto Milano.

Dorotéia (de óculos), no lançamento do livro “Design de Moda”, em Londrina.

 

DesignBrasil O design de moda brasileiro já atingiu sua maturidade? Por que?

Dorotéia Baduy Pires Desde 1982, quando fui surpreendida por uma bolsa de estudos para estudar na Itália, o tema Moda tornou-se em minha vida objeto de estudo cotidiano. Naquela época, o design era ainda mais racional, rígido e preconceituoso. Hoje, constrói-se uma relação mais amigável entre moda e design. Mesmo assim, temos ainda muitos desafios a superar. Destaco que a atual conexão entre moda e design sobretudo formal é inédita em nosso país. Agora, a resistência e a tensão estão minimizadas, de modo que se torna possível potencializar iniciativas de maneira conjugada.

DesignBrasil Nos últimos anos, houve alguma mudança no perfil de profissionais procurados pela indústria de moda? Quais mudanças?

Dorotéia Baduy Pires Além do perfil convencional, hoje o designer de moda deve pensar na promoção da justiça social e econômica, no desenvolvimento sustentável, no respeito pelas pessoas e pelo ambiente, por meio do comércio, do aumento da consciência dos consumidores, da educação, da informação e de ações políticas.

DesignBrasil O design de moda vem ganhando espaço nas instituições de ensino, com o lançamento e consolidação de cursos, inclusive em nível de pós-graduação. Que contribuição estes egressos vêm dando para a indústria de moda brasileira?

Dorotéia Baduy Pires Vivemos um período de transição de culturas. Desde a homologação das Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em design, tais cursos passam gradativamente a ajustar-se aos conceitos do design, o que implica desafio para toda a comunidade, uma vez que sofremos pela carência de docentes capacitados e pela escassez de referencial teórico e publicações sobre o tema, o que fortaleceu a minha motivação para concretizar esta obra. Historicamente estas duas dimensões foram consolidadas sem sintonia de interesses, gerando uma série de tensões no processo. A atuação destes profissionais tem contribuído sobretudo para a profissionalização do setor têxtil-confecção e da moda brasileira. Reduziu-se a tensão existente entre a cultura empresarial e a cultura criativa.

DesignBrasil Anualmente, a senhora leva um grupo de interessadas para visitar eventos em Milão e Paris, dois dos principais pólos de geração de tendências de moda internacional. De que modo esse aprendizado agrega conhecimento para as participantes?

Dorotéia Baduy Pires O evento que já teve um total de 117 participantes, visa gerar conhecimento de cultura de moda incorporando novos conceitos, proporcionando capacitação de recursos humanos específicos, permitindo o acesso a modernas metodologias de desenvolvimento de produto. O programa foi organizado de forma a racionalizar o período de atividades com o máximo aproveitamento para atingir os objetivos a que se propõe. Entre outros compromissos da agenda do Projeto Milano, o roteiro inclui palestras, visitas culturais, centros de informação e pesquisa, bibliotecas especializadas em moda, indústrias de confecção, feiras, além de uma rica programação cultural. Durante todo o período o grupo recebe orientação de uma equipe especializada. Após cada edição, o Projeto Milano é avaliado e atualizado. Estamos fazendo o lançamento da nona edição. Entre os objetivos do curso podemos destacar: compreender a cidade [Milão e Paris], ampliar a cultura de moda; internacionalizar os profissionais e empresas do setor; conhecer como se realiza o processo de pesquisa de moda; aprender a decodificar as informações coletadas em produtos de moda; atualizar os métodos de gestão, criação e produção; promover uma experiência estésica e sinestésica; desenvolver a percepção e a inventividade; desenvolver a capacidade de observação e análise; ampliar a sensibilidade estética e o espírito criativo; investigar a estética da cidade; educar o olhar e enriquecer o repertório e cultura visuais; entender a cultura de produto do made in Italy; conhecer os produtos de conceituadas marcas italianas que tem sido referência internacional de moda; conhecer importantes feiras de moda.

DesignBrasil Em 1978, a senhora se formou na Escola de Música e Belas Artes do Paraná e, quatro anos depois, concluiu a graduação em Desenho Industrial pela PUCPR. Como surgiu o interesse por design de moda e o que a levou a um curso em Fashion Design na Itália?

Dorotéia Baduy Pires Além da forte descedência italiana do lado materno, estudei arte e design durante oito anos consecutivos, motivação suficiente para compreender meu grande interesse pela excelência dos italianos em ambas as áreas. No último ano do curso de desenho industrial surgiu então uma oportunidade de concorrer a uma bolsa de estudos para estudar fashion design em um programa de cooperação técnica entre Brasil e Itália. Posso afirmar que foi a paixão pela arte que me conduziu ao design de moda.

DesignBrasil Como foi seu aperfeiçoamento em Design di Moda pelo Istituto Artistico dell´Abbigliamento Marangoni, em 1992?

Dorotéia Baduy Pires Foi muito importante voltar à Itália para estudar o assunto após alguns anos. Procurei esta instituição em um momento que senti a necessidade de atualizar meus conhecimentos na área e que antecedeu ao início da minha carreira acadêmica na PUCPR à convite do arquiteto professor Edison Ogg, coordenador dos cursos de design na época e que me convidou a implementar o design de moda na instituição, uma vez que uma pesquisa entre os discentes na época, apontou a moda como uma das áreas de maior interesse. DesignBrasil Como era o cenário do design de moda na década de 1980? O que mudou de lá para cá?Dorotéia Baduy Pires Na década de 1980, ainda não existiam publicações, eram raros os pesquisadores interessados pela área e a indústria compreendia esta atividade apenas como estilística, era a pré-história do design de moda. Não existia conexão entre design e moda, esta consolidação foi se dar somente em 2000 quando o MEC determinou que os cursos de estilismo deveriam passar a denominar-se design de moda. Hoje, o Brasil é o país com o maior número de cursos em todo o mundo. Entre graduações e pós-graduações temos aproximadamente 150 cursos. Agora precisamos superar este valor quantitativo e traçar estratégias para crescer a qualidade tanto na dimensão acadêmica quanto na empresarial. Este é um grande desafio, uma vez que o setor trabalha de modo individualizado e fragmentado, isto é, não tem percepção de unidade entre a indústria, academia, varejo, centros de pesquisa, editoras, feiras, entre outros. Deveríamos pensar de modo sistêmico. O setor de moda italiano trabalha integrado como um sistema. O rigor da ciência e do método, que ainda persiste na quase maioria das escolas brasileiras de design, atrasou a integração entre design e moda. Na Academia, a moda passou a ser acolhida pelo design somente no início do século XXI. Durante todo o século anterior, a moda foi negada como uma habilitação do design e recusada até mesmo como tema de projeto nos cursos de design de produto. Assim, entre 1988 e 2000, a Academia ofertou cursos para formar profissionais que se ocupavam da concepção de produtos de moda; no entanto, isso ocorria na perspectiva do estilismo e não de design. Durante esse período, formamos uma geração de estilistas que hoje coordena e ensina nos cursos de design de moda no Brasil, o que pode perpetuar uma compreensão do design como um processo parcial e estetizante. Como agente do processo de transformação, a partir da década de 1990, por meio do qual a moda passou a representar objeto de interesse social, acadêmico e científico, posso afirmar que o design tem despertado particular interesse, sobretudo nos setores ligados à indústria não mais apenas como técnica ou estética, mas como cultura de projeto.

DesignBrasil Como está a produção científica no segmento? E que contribuição ela vem dando ao fortalecimento do design de moda?

Dorotéia Baduy Pires Há no Brasil, atualmente, um grande número de profissionais e acadêmicos que estão ocupados em pensar o design, que teorizam a sua prática e constroem conceitos de design de moda. Entretanto, a pesquisa e as publicações na área têm ainda, de fato, pouca expressividade. Avançamos muito desde então. Hoje o Brasil é o país com o maior número de cursos que formam profissionais para a área. Infelizmente, o número de eventos acadêmicos e publicações científicas não cresce na mesma proporção, mas podemos observar outros indicadores de reconhecimento e inclusão: são as quatro últimas edições do Congresso Brasileiro de Design, quando observam-se o crescimento do volume de produção e a ampliação do conhecimento resultante de pesquisa aplicada e pesquisa básica na área do design de moda. Em 2006, o design de moda representou 4% e o design têxtil 1% do total dos trabalhos recebidos pelo Congresso. Além disso, no 14º Congresso Brasileiro de Ergonomia, pela primeira vez houve duas sessões técnicas intituladas Ergonomia na Moda, com trabalhos aplicados ao vestuário. Desde 2005, o Colóquio de Moda tem se configurado como um espaço para disseminar a pesquisa e consolidar a área, com a promoção do estudo e a divulgação de assuntos relacionados ao ensino, à pesquisa e à produção acadêmica. Para a edição 2007, de Belo Horizonte, inscreveram-se quase duzentos trabalhos, sendo que uma das mesas de debates e a de um grupo de trabalho foram denominadas ambas Design de Moda. Apesar da inegável relevância econômica do setor vestuário e têxtil, a essencial rede de informações para consolidar a cultura do design de moda brasileiro é incipiente, se considerarmos as seis associações; 14 institutos, centros e núcleos de estudos; quatro bibliotecas especializadas, duas tecitecas e uma modateca; sete museus; quatro editoras com perfil de publicações com o tema moda; 31 eventos.

DesignBrasil Existem mais de 50 eventos anuais de moda no Brasil – dois deles, o São Paulo Fashion Week e o Fashion Rio, com amplo destaque na mídia. Que medidas o Governo e o empresariado poderiam adotar para estimular ainda mais o mercado de moda nacional?

Dorotéia Baduy Pires Temos muitas iniciativas de ambas as partes, mas percebo que falta articulação, estratégia e continuidade nos planejamentos. O maior segredo da excelência do design italiano no início foi o espaço que o empresariado deu aos projetistas da cultura material que propuseram desenvolver produtos inovadores que levaram à consolidação do design naquele país. No Brasil ainda não encontramos tal sintonia entre a cultura empresarial e a cultura criativa, como fosse possível dissociar estas dimensões. Torna-se imprescindível que as indústrias se abram para uma nova cultura em que o valor e a urgência da adoção de tais medidas permitam implementar o design como processo e estratégia.* Entrevista em junho de 2008.

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