Duas sustentáveis contribuições para eventos de design

Por Bruno Porto

Intitulado Design at the Edges, o primeiro congresso da International Design Alliance – composta pelo Conselho Internacional de Associações de Design Gráfico – ICOGRADA, pelo Conselho Internacional de Sociedades de Desenho Industrial – ICSID e pela Federação Internacional de Arquitetos/Designers de Interiores – IFI – aconteceu entre 24 e 26 de Outubro em Taipei, reunindo 3000 participantes e cerca de 130 palestrantes (www.2011idacongress.com).

As “edges” do título do encontro podem ser compreendidas tanto como as fronteiras entre as diversas disciplinas do Design que integram a IDA, como também das diferentes áreas que o tangenciam – ciência, tecnologia, negócios, governos e ongs – e que foram exploradas nos cinco tópicos de discussão do congresso: Biotecnologia, Desenvolvimento Econômico, Êxodo Internacional, Internet, e Urbanismo. O título também é uma referência ao termo “cutting edge”, utilizado em referência a projetos e ideias radicais, controversos ou inovadores. 

Pois radicalmente diferente da maioria dos eventos de design no Brasil – que, grosso modo, encontram-se estagnados como meras apresentações de portfólio – o IDA Congress Taipei teve como principal diferencial a participação ativa de cientistas, ativistas, líderes empresariais e representates de governos, analisando diversas problemáticas globais deste século e como o design pode – ou melhor, deve – contribuir com soluções; além de profissionais e acadêmicos de design dos cinco continentes apresentando projetos com aspectos realmente inovadores para a solução de muitos destes problemas.

Mesmo que o congresso tivesse sido fraquinho em conteúdo – e ficou bem longe disso, como pode ser conferido na cobertura que fiz para a edição 38 da revista abcDesign – ou não tivesse contado com uma estrutura impressionante (o que um verdadeiro apoio federal e municipal confere), já teria valido a pena por duas importantes – e sustentáveis – contribuições para o costume de “congregar designers”:

1) Uma bem sucedida palestra pré-gravada

IDA Congress

A primeira palestra do evento aconteceu logo após a formalíssima cerimônia de abertura que contou com as presenças do vice-presidente de Taiwan e do prefeito de Taipei. Muito adequadamente, o tema era Desenvolvimento Econômico e o keynote speaker, o ex-primeiro-ministro da Finlândia e atual vice-presidente executivo da Nokia Esko Aho. Mas como Aho tinha uma reunião com acionistas em Londres (hein!?), enviou sua palestra pré-gravada, em um take só, e muito sutilmente editada.

Sinceramente, sua presença não fez a menor falta, pois o moderador e o trio de debatedoras que se seguiu era afiadíssimo, inteligente, embasado por exemplos práticos e sem chapa-branquismo. Discutiram ideias e não ficaram reclamando da vida (que foi o grande problema da frustrante mesa redonda sobre Biotecnologia, que se limitou a tachar as grandes corporações como super-vilãs). Enfim, foi infinitamente superior a palestra em si, e não imagino que a presença de Aho pudesse ter acrescentando algo muito significativo a discussão.

Apesar de não ser o caso de Esko Aho – que possui uma larga experiência profissional falando para pessoas – este sistema solucionaria um problema comum em eventos de design: ser um bom profissional não faz de ninguém um bom palestrante. Entender do riscado não significa automaticamente que se possa falar, ou ensinar, ou escrever, com a mesma desenvoltura, e vice-versas. Daí que muitos encontros, acadêmicos, estudantis ou profissionais, pecam pela qualidade de suas apresentações, e quando o assunto é design, isso fica mais contundente ainda. Não por que queiramos simplesmente ver figurinhas, mas por que os próprios conceitos de “comunicação” e “visual” são inerentes a área, seja ela do segmento impresso, interativo, industrial, arquitetônico etc.

Sou de opinião que, nestas situações, subir em um pódio, ou sentar a uma mesa, e simploriamente LER um texto é uma perda de tempo e de recursos imensa, mesmo que conte com imagens projetadas. Se não há intenção ou possibilidade de interação com a platéia que está ali presente, se a ideia é apenas apresentar um determinado conteúdo, que se publique o texto – e imagens – online, oras. Muito participantes fazem suas apresentações e se vão em seguida – muitas vezes porque o evento não programou uma interação maior ou mesmo tempo para perguntas. Se antes congressos ‘congregavam’ conhecimento difícil, demorado ou caro de ser difundido, esta não pode ser mais a desculpa.

A comediante norteamericana Sarah Silverman recentemente reclamou que o YouTube arruinou sua perfomance stand up por que ela não pode mais aperfeiçoá-la a contento sem que versões não acabadas invadam a internet. Neste caso, não só o YouTube e Vimeo como os sites do TED e ESAD TALKS são mais que bem-vindos, inclusive como forma de assistir palestras de designers estrangeiros sem gastar nada. Se não for para participar de um debate, responder perguntas, fazer um workshop ou algo do gênero, por que mesmo a pessoa tem que estar lá de corpo presente? Economiza-se recursos naturais e pode-se redirecionar os investimentos em passagens, hotéis, locação de espaço, eletricidade etc. para outros itens – como a produção da própria palestra e/ou (melhor) remuneração do palestrante.

Verdade seja dita: Aho foi um palestrante bastante correto, seguro, e a edição apenas garantiu disto. Não usou nenhum auxílio visual em sua apresentação – exceto quando pegou um dos primeiros modelos de celular da Nokia e comparou-o com um atual –, o que é um formato normal para um keynote speech. Não fiquei muito frustrado por isso, exceto pelo desperdício de outros recursos que justamente uma palestra pré-gravada poderia agregar.

Entretanto, o auge da sua apresentação, como escrevi acima, foi a seleção de panelistas para desenvolverem o tópico abordado. E embora realizar este debate via Skype ou sistema semelhante seja até viável, a interação pessoal em uma discussão até então tem sido sempre mais poderosa, focada, rica (mas tampouco pode ser descartada, especialmente se for para integrar o palestrante distante). Enfim, apresentações online e mesmo pré-gravadas são recursos já utilizados em alguns congressos, mas quase sempre por uma questão de custos. Já está na hora de ser considerada como opção estratégica consciente para se consolidar uma boa programação.

2 – Água para matar a sede e aperfeiçoar a imagem

IDA Congress

Não pude acreditar quando o carro do congresso me buscou no aeroporto: tanto o IDA Congress como a Taipei International Design Expo 2011 (evento de um mês de duração em que o congresso estava inserido) possuiam suas próprias caixinhas Tetra Pak de água mineral. Como um dos patrocinadores principais de ambos eventos, a empresa não perdeu esta oportunidade de ter seu produto associado a importantes personalidades do design mundial. Depois de um momentâneo período de estranhamento (não estamos acostumados a consumir água em embalagens não transparentes, não é?), abracei a idéia com fervor. Além de mostrar o cuidado com o branding do evento – que pode ter surgido de uma simples oportunidade de parceria – isto resolve um grave problema em eventos, especialmente de design e com temática sustentável: as horrendas garrafinhas plásticas visíveis nas mesas redondas e dos palestrantes. Será difícil não se decepcionar com outro evento de design que não siga esta proposta.

1 Comentário

  1. Fernanda Martins disse:

    Obrigada Bruno por compartilhar esta importante experiência. Nem sempre é possível acompanhar eventos que acontecem tão longe.
    Mais sustentáveis seriam se fizessem streaming das palestras, permitindo que um público muito mais abrangente tivesse a oportunidade de participar.
    E não posso deixar de comentar, em minha opinião, não considero um evento que usa Tetrapack um evento sustentável, longe disso, bem longe.
    É público e notório que estas embalagens trazem um dano enorme para o Planeta pela dificuldade em serem recicladas, gerando resíduos com enormes dificuldades de eliminação do meio ambiente.
    Esta empresa não se preocupa com a Amazônia, com os mangues que está destruindo e deveria ser responsabilizada pelo estrago que está causando.
    Como um evento pode se dizer sustentável usando embalagens de Tetrapack? Só consigo imaginar que a empresa tenha sido um grande patrocinador ou não faria sentido.
    Aliás não faz sentido nenhum. Sustentabilidade é agir diferente,

    Fernanda Martins