E se fizéssemos uma exposição de design brasileiro na China?

Por Bruno Porto

“A exposição chegou a ser vista por quase três mil pessoas em Xangai, e o plano do Consulado-Geral é montá-la nos festivais internacionais de cinema em Saigon, Londres e Buenos Aires”.

Há pouco mais de um ano, o PhD em História da Arte pelo University College de Londres Sérgio Martins que escreve alguns dos melhores textos que já li, na internet ou fora dela apresentou o trinômio e se/tá aí/por que não como provável causador de todas as idéias estapafúrdias que estão por aí.

Como, em um exemplo dado, o Bis laranja:

– E se a gente fizesse um Bis sabor laranja?
– Hmm, tá aí. Bis é bom, laranja é bom…
– Pois, por que não?

Segundo Sérgio, “basta alterar qualquer uma das variáveis e presto!, tudo pode ser realizado” já que “a beleza do e se é que ele permite a livre associação de quaisquer idéias empreendedoras sem as amarras da coerência, da cautela e do bom senso”. Os outros exemplos que Sérgio sugere em seu texto <www.verbeat.org/blogs/miudos/arquivos/2005/11/> vão do perigoso ao dantesco:

– E se a gente abrisse uma loja de cabides?
– Tá aí, por que não? Eu nunca sei onde ir quando eu quero comprar especificamente um cabide!

Ou pior:

– Tá aí: e se a gente chamasse o Nicholas Cage para fazer o Super-Homem?
– Hmm, por que não? Ele bem que daria uma densidade dramática ao personagem…

Mas o trinômio não é necessariamente um agente do mal. Meu último “E se”, por exemplo, resultou na exposição Descubra o Cinema Brasileiro, sobre a qual você pode ler aqui <www.focobrasil.com.cn/cartazes_br.html>.

Em março passado estava no Consulado-Geral do Brasil em Xangai discutindo a estratégia de divulgação da Mostra Foco Brasil, o festival de filmes brasileiros que aconteceu dentro do 10º Festival Internacional de Cinema de Xangai <www.focobrasil.com.cn/filmes_br.html>. Conversávamos sobre como promover a Mostra entre a juventude xangainesa e eu sugeri envolver estudantes chineses de alguma forma. Tendo ido ao Cathay, um dos cinemas onde a Mostra aconteceria, lembrei que lá havia um pequeno foyeur com espaço para cinco ou seis posters. E se, comecei, expuséssemos cartazes universitários com algum tema relacionado a Mostra?.

Alguns taís e por que nãos depois, Billy Bacon e eu estávamos selecionando alguns dos melhores alunos de Comunicação Visual do Raffles Design Institute (onde temos lecionado desde setembro de 2006) para quem apresentamos um seminário sobre cultura, cartazes e cinema brasileiro. Exibimos cerca de vinte trailers de diversos gêneros da recente produção nacional, os alunos ganharam livros sobre a história do nosso cinema e cópias de artigos sobre design brasileiro contemporâneo, tudo em chinês. Acabaríamos por selecionar cartazes de dez alunos chineses e indonésios. Quando o Cathay não liberou o espaço, nosso Cônsul-Geral conseguiu através de um amigo uma conhecida galeria na badalada área da Concessão Francesa da cidade mas que justamente pelo porte e exposição que teria achamos ser muita areia para o caminhãozinho dos estudantes.

O “E se fizéssemos uma exposição de cartazes inéditos de artistas gráficos brasileiros?” surgiu em um animado jantar com a equipe do Consulado-Geral. Na manhã seguinte, a idéia havia sobrevivido.

Mas não havia dinheiro, e não havia lá muito tempo. O patrocinador que iria bancar a plotagem de cinco ou seis cartazes teve que entender que iriam ser alguns mais, “alguma coisa entre 20 e 30″ (foram 37). Expliquei que poderíamos fazer uma ação entre amigos, convidando pessoas que topariam produzir cartazes sem cachê se houvesse um catálogo que registrasse e divulgasse a exposição após sua realização. Sorriram, e deram o ok.

A curadoria que Billy e eu fizemos consistia inicialmente em selecionar e administrar os nomes a participar, e isso não é nem foi tão fácil como parece. Afinal, há no Brasil zilhares de profissionais capazes de executar belos cartazes. Quem convidar?

Primeiro, havia a questão da não remuneração. “Não me peça para dar de graça a única coisa que tenho para vender” ecoa nos ouvidos de todo designer brasileiro, começando pelos nossos. Pessoalmente, posso ou não trabalhar de graça, mas não gosto que me peçam isso sem um bom motivo. Acredito que deva haver sempre uma remuneração envolvida, e o prestador do serviço é quem deve ditá-la, valendo escambo, mas sem esculhambação. E a satisfação pessoal também conta, e muito, nesta negociação interna que constantemente fazemos com nós mesmos. Trabalho voluntário para uma associação de classe, por exemplo, dar palestras ou workshops em eventos organizados por estudantes, ou colaborar com artigos para sites e revistas sem remuneração financeira, são a meu ver um bem maior que nos ajuda a todos como profissionais. Mas sei que há pessoas que não dividem esta opinião, e respeito isso. Portanto, essa acabou sendo a primeira diretriz para compormos a lista de convidados: além do evidente talento etc., só convidamos pessoas com quem já tínhamos certa intimidade, que estavam a um telefonema (ou, no caso, e-mail e skype) de distância, e que achávamos que não iam se incomodar. Se ouvir “pô, mas de graça?!” de um conhecido já é deveras desconfortável (por que dou razão), de um estranho então nem se fala. Mas não parava aí.

Designers e ilustradores aceitam pegar trabalhos mal remunerados quando há uma dose de liberdade maior envolvida, pela liberdade de experimentar, ou quando o tema nos comove / entusiasma, e essa era a segunda encrenca: apesar de instigante, não havia liberdade no projeto, muito pelo contrário O tema escolhido para os alunos havia sido “Descubra o Cinema Brasileiro”, e os cartazes deveriam estimular o público chinês a ir a Mostra e assim descobrir nosso país. Mas como o chinês médio não entende outro idioma que não o seu, não fazia sentido escrever nada em português ou inglês. Eu tampouco queria arriscar uma interpretação equivocada de um caracter chinês, então optamos por trabalhar exclusivamente com imagens, banindo texto que não no papel de imagem. Isso afastava tipógrafos e calígrafos da nossa lista, o que nos doeu um tanto, já que é uma área do design que muito nos agrada. Comprometimento pessoal: fica para a próxima.

Além do mais, qualquer texto, como mensagem, deveria ser traduzido e explicado para a organização do Festival, e certamente seria interpretado e reinterpretado, e achamos todos que isso seria um vai-e-vem não só desnecessário como até mesmo desagradável, caso cismassem com alguma coisa. Explico melhor: o Consulado-Geral já estava tendo problemas com a liberação de alguns filmes por cenas com drogas, violência, sexo e mesmo política. Ou seja, para não criar situações saia-justas para o Consulado-Geral, e mesmo para nós como curadores, em um possível caso de censura, pedimos aos convidados se absterem destes temas. Isso, obviamente, descartou mais algumas (poucas) pessoas para as quais não nos sentiríamos confortáveis em pedir para tolhir seu trabalho.

Não bastasse isso, o desafio incluia também não fazer referências diretas a pessoas ou filmes específicos, pois isso nada significaria para um público que tudo desconhece sobre cinema brasileiro. O que a figura do José Lewgoy significa para um chinês?

Outra decisão foi a de convidarmos apenas indivíduos e não empresas. Essa talvez seja difícil de racionalizar, mas buscamos um aspecto mais autoral, e menos funcional, na percepção do público em relação as obras. Talvez por ser uma das primeiras apresentações de artes gráficas brasileiras na China, em uma galeria de arte, com uma forte presença de comunicação visual pictórica (leia-se ilustração) sem o aspectos tipográfico presente, achamos que poderia confundir arte=design se despersonalizássemos a autoria. Independente se quem assinava era designer, ilustrador, fotógrafo, diretor de arte ou o que fosse, era uma pessoa, não um escritório ou agência. Alguns nomes mais conhecidos ficaram de fora por este motivo, já que (novamente) não nos sentíamos confortáveis em pedir que descaracterizassem suas posturas profissionais de assinar projetos como empresa o que eu mesmo costumava praticar nos anos da Porto+Martinez designStudio.

O último dos critérios seletivos (neste ponto já eram critérios de corte de nomes) era de uma subjetividade tamanha, e ao mesmo tempo, razão de um de nossos maiores temores: a capacidade do convidado em cumprir o prazo dado. Acrescento aí também com um cartaz de qualidade, por que, sim, estas coisas acontecem: mais de uma vez fiquei decepcionado visitando (para não dizer organizando) mostras em que o que estava exposto era aquém da conhecida capacidade de seu autor. Com alguma experiência em organizar exposições, congressos e semelhantes, os curadores escaldados resolveram não arriscar com nomes que já haviam decepcionado anteriormente nestes aspectos.

A lista final continha cerca de trinta nomes, para quem enviamos emails. Duas pessoas declinaram por já estarem comprometidas com projetos e duas não responderam meses depois, uma delas explicou não haver compreendido que era um convite para participar da exposição: achou que era apenas um release! E duas outras realmente perderam o prazo, entrando em contato pouco antes do deadline final de desculpando.

No meio do processo, obviamente sem saber que haveriam dois furos, esbarrei no flickr em uma foto da carioca Lilian Granado que conheci anos atrás quando esta era designer de jóias tão perfeita para a exposição que não sosseguei enquanto não propus sua inclusão a Billy apesar de algumas características da imagem: o formato não só não era proporcional aos 60cm x 90cm dos cartazes pedidos, como a foto era horizontal! Nela, a Baía de Guanabara (símbolo carioca e brasileiro dos mais conhecidos no exterior) vista de dentro do MAC Museu de Arte Contemporânea de Niterói era apresentada em frames (as janelas) sequenciais preto e branco, atemporal, secular, de sala de cinema. Investidos de autoridade curatorial, decidimos botar para dentro, só faltava checar a resolução. O e-mail não podia ser mais simplista: Oiê, diz aí uma coisa: essa aqui em www.flickr.com/photos/zillig/365787036/ tem resolução para ficar com 90cm de comprimento a umas 200dpi? Beijos, Bruno. Tinha. Segundo o site da Mostra Foco Brasil, é a imagem mais vista.

E há ainda outro cartaz não comissionado na exposição. No mesmo esquema, outro e-mail misterioso foi para o designer e grafiteiro Eduardo Denne: OBAAAA!!! Me diga uma coisa: tens a mão, jogo rápido, aquela tua imagem do Grande Otelo? Manda?. Pois é, havíamos pedido para que os artistas não usassem pessoas ou filmes que não fariam muito sentido mesmo para o público mas o primeiro trabalho a chegar nos fez repensar isso de tão bom que estava! Fazia referências a filmes, atores, personagens, tudo ao mesmo tempo, e estava sensacional por isso! O ilustrador e professor de história do cinema na PUC-Rio Felipe Muanis retratou o personagem Dadinho do internacionalmente conhecido “Cidade de Deus” (2003) na roupagem de outro clássico da cinematografia verde-amarela “Deus e Diabo na Terra do Sol” (1964), indicado a Palma de Cannes. Em uma homenagem declarada ao conhecido cartaz de Rogério Duarte, o personagem vivido pelo ator Douglas Silva substitui o cangaceiro Corisco de Othon Bastos, representando a mudança na temática social que se passou no Brasil nas quatro décadas que separam os dois filmes. Estava irretocável, inclusive na maneira sutil com que Muanis inseriu a arma e nós que havíamos pedido para que não houvessem referências a violência Daí que quando recebemos o Jece Valadão em Boca de Ouro digital de Claudio Reston, lembrei que Denne havia produzido uma série de cartazetes em stencil para seu projeto [CDR] Cultura de Rua que retrata diversas personalidades brasileiras como Elis Regina, Garrincha e Grande Otelo! E, afinal, o previsível Macunaíma era um dos filmes da Mostra.

A exposição chegou a ser vista por quase três mil pessoas em Xangai, e o plano do Consulado-Geral é montá-la nos festivais internacionais de cinema em Saigon, Londres e Buenos Aires. Taí, por que não?