Equipe E-cipó

Por Editor DesignBrasil

Grupo de estudantes venceu o concurso AMD Conectando O Mundo.

E-cipó – Internet on Television. Este é o nome do projeto vencedor do concurso internacional “AMD Conectando o Mundo”. O projeto foi elaborado por um grupo de estudantes do Centro Universitário Positivo (Unicenp), de Curitiba. Dos 12 graduandos que compõem a equipe, nove são estudantes do curso de Design.

Os universitários brasileiros ganharam o “Prêmio do Júri”, enquantos uma equipe de chilenos levou o “Prêmio do presidente”. Ambos os grupos receberam uma premiação de US$ 30 mil, cada. A equipe paranaense também recebeu uma menção honrosa durante a cerimônia de premiação.

O E-Cipó consiste num terminal de acesso que provê serviços e conexão à internet a pessoas que vivem em áreas isoladas. Equipado com um telefone celular GPRS, o dispositivo permite transmitir as imagens captadas da internet em qualquer aparelho de televisão, por meio de um sinal UHF. Além disso, o E-Cipó tem um portal de serviços que pode ser administrado por diferentes entidades como universidades, ONGs, cooperativas e parceiros.
O concurso foi disputado por cerca de 30 equipes de diversos países da América Latina. A equipe E-cipó é formada por cinco estudantes de Design de Produto (Ana Paula Batista Alves, Iuri Coutinho de Alencar, Paulo Ferraz Pires Neto, Romi Trombini Teixeira e Ronaldo Ineu Guedes), quatro de Design Gráfico (Vinícius Marchini Del Cura, Camila Florencio Martins, Carolina Barrone de Alcântara e Gabriela Rocha de Oliveira), dois de Engenharia da Computação (André Luiz Gonçalves Pepino e Ricardo Ross) e um de Administração (Diogo Arthur Gonçalves Faust).

Eles foram orientados por cinco professores: Carolina Calomeno Machado e Renato Bertão (Design Gráfico), Dulce de Meira Albach e Jorge Tamura (Design de Produto) e Maurício Perreto (Engenharia da Computação).

O DesignBrasil conversou com parte da equipe vencedora. Confira os principais trechos da entrevista:

 

DesignBrasil: Como tudo começou?

Renato Bertão: Eu recebi no final do ano retrasado um e-mail, quando o concurso foi lançado, mas acabei não dando muita atenção. O pessoal da AMD ligou perguntado se a gente ia participar do concurso. Eu olhei o e-mail e achei bem interessante. A gente fez uma chamada de alunos para participar. O concurso exigia a participação multidisciplinar. Esse projeto foi um dos pioneiros que conseguiu articular diversas áreas e chegar a um resultado concreto. O concurso teve uma divulgação mais intensa. Eu vinculei o projeto Amo MidiaLab, agregou-se mais alguns professores. No começo de maio vieram os menos da computação que foram bastante receptivos. E aí começou uma rotina de encontros semanais. Isso foi até outubro, trabalho semanal, para resolver todas as questões do projeto.

 

DesignBrasil: Já no início dos trabalhos vocês já tinham uma certa clareza do que seria o projeto?

Paulo Pires: Tinha o briefing do concurso. A iniciativa 50×15 da AMD prevê que, até 2015, 50% da população tenha acesso à internet. Então inicialmente, a gente se uniu, tinha o briefing inicial e com isso, cada área, o pessoal da Engenharia e do Design, a gente começou a juntar várias idéias, a cada semana cada um vinha com novas idéias, a gente começou a articular isso aí até chegar ao ponto final. Teve uma primeira apresentação, que a gente passou para uma próxima fase, que veio o pessoal da ADM conversar com a gente. E isso até mudou um pouco o nosso trabalho.

 

DesignBrasil: Basicamente em que consiste o projeto?

Paulo Pires: Em poucas linhas, o e-cipó é um terminal de acesso á internet que busca pessoas de comunidades isoladas, que tem um baixo custo, e que seja uma sementinha para que cada vez vá crescendo o número de pessoas vão começar a usar na sua comunidade. A nossa idéia é juntar organizações, ONGS, as faculdades, para trabalharem num portal que visa o interesse das pessoas dessa região. Os estagiários de uma universidade da região vão colocar o conteúdo no portal e tudo que for para essa pessoa.

Iuri Alencar: Foi pensado como produto e serviço. Primeiro, óbvio, veio o produto, mas uma das dificuldades que estávamos tendo de viabilizar o que a gente havia proposto, foi sugerido ter também um serviço. É um ecosistema, digamos. O produto, um hardware, e um serviço na internet para complementar isso daí. Como a gente utiliza a televisão que é transmitido via UHF, tem uma resolução pequena. Para corrigir isso, a gente criou esse portal em que a resolução é própria para a televisão, para acessar à internet. Vai aparecer um pouco maior, digamos assim. Paratelevisão está cerrtinho para a pessoa ter boa visibilidade. Todos os serviços agregados que a gente pensou: serviço de médico, prefeitura, cartórios. Era o briefing do concurso.

Romi Trombini Teixeira: A gente queria incluir a população carente, a população que tem uma renda menor, no mundo digital, no mundo da internet, mas também que pudesse prover cidadania.

Paulo Pires: Quando veio a Michelle e o Walter eles falaram a opinião deles que o próprio produto se sustentasse. Foi daí que surgiu o portal. O cartório é longe, um médico é longe. O portal veio para trazer sustentabilidade e ajudar essas pessoas. As pesquisas mostram que 40% da população no Norte e Nordeste tem acesso à internet. Desses 40%, 60% usam no trabalho ou na escola. A idéia era trazer esse ambiente um pouco mais próximo deles para que isso gerasse uma reação em cadeia.

Iuri Alencar: Serve como treinamento. A gente imagina que a pessoa nunca teve contato com esse equipamento. Tirar um pouco dessa mágica e, num segundo passo, ter em casa.

Ricardo Ross: O e-cipó tem essa função de capturar os dados da internet via celular por causa das comunidades mais distantes. Você pega o pessoal que está na Amazônia ou No Nordeste, esses só acessam na escola ou no trabalho porque eles têm que ir a um centro que tem essa tecnologia. E com a tecnologia do celular você consegue levar isso um pouco mais longe. Dentro da própria floresta amazônica tem regiões que funcionam telefonia celular, mas não chega telefonia e internet a cabo.

 

DesignBrasil: Qual foi o maior desafio durante o projeto?

Ricardo Ross: Integrar a tecnologia que o pessoal da Engenharia desenvolveu com a forma que o pessoal do Design criou.

Paulo Pires: E isso ser barato também, porque atingir 50% da população mundial em oito anos, tem que pensar num custo baixo. Tinha que aliar a questão de Engenharia ser barato, o design não poderia ser algo que fosse caro, buscar os elementos.

Ricardo Ross: Colocar todos os componentes dentro do produto, dentro do gabinete, sem que ele esquentasse, que nada queimasse.

Paulo Pires: Tudo foi um desafio. Não sabia como começar. Não foi só uma questão de design, era o planejamento completo. Tudo foi um desafio. A parte de Engenharia, Administração… Não foi só criar o conceito do e-cipó.

Iuri Alencar: Fazer todo mundo enxergar a mesma coisa. Tinha estudantes de Design, Engenharia, Administração.

 

DesignBrasil: O protótipo foi viabilizado com que recursos?

Paulo Pires: Da própria AMD. A partir que a gente passou para a segunda fase, a gente recebeu recursos para viajar para São Paulo e para construir um protótipo não funcional: 20 mil dólares para o protótipo e 10 para a viagem.

Ricardo Ross: Foi enviado para o Texas, para a ADM.e a gente fez um plus, que é o funcional. A AMD emprestou uma placa que ainda não está no mercado.

Renato Bertão: A gente recebeu uma visita da Trendcom, que representa a AMD, e a gente tem percebido que tem um burburinho sobre esse projeto.

Paulo Pires: Tomou uma proporção bem grande. Maior do a gente imaginava.

 

DesignBrasil: Qual o futuro que vocês esperam para o projeto?

Gabriela Oliveira: Basicamente, a gente poderia produzir e fazer uma parceria com as empresas. É tudo baseado em responsabilidade social. Desde o começo o projeto pega muito pela responsabilidade social. Uma das coisas que a gente tem juntado é em cima da cidadania.

Paulo Pires: Teve uma reunião sobre vários . O e-cipó foi apresentado como uma das idéias mais realistas de inclusão digital. Os direitos são nossos. A idéia da AMD não é vender para o mundo todo. A AMD não quer comprar o e-cipó para vender no mundo todo. Eles têm interesse que usem uma tecnologia.

 

DesignBrasil: Vocês já pensaram concretamente nessa possibilidade? A experiência se parece muito a de uma incubadora?

Paulo Pires: A gente prevê alguns meses de trabalho. A gente deve estar na incubadora. Nos próximos seis meses concluir algumas coisas para que o produto vire realidade no mercado.

 

DesignBrasil: Do ponto de vista formal, a solução, quais requisitos vocês impuseram?

Romi Trombini Teixeira: O design foi baseado. A gente precisava desenvolver um equipamento que fosse de fácil acesso e de fácil adaptação do usuário. Porque é uma população que tem um nível de escolaridade menor, um nível de renda menor e estava tendo contato com uma espécie de computador. Então, primeiramente a gente desenvolveu linhas orgânicas, porque a gente percebeu que isso não assusta tanto, é mais lúdico, mais leve. A gente escolheu a forma de um feijão porque é o elemento mais forte da cultura brasileira na alimentação diária da população. A gente escolheu a cor verde porque é uma cor calma, não causa choque, faz parte da cultura brasileira, das matas, faz parte do repertório. Escolhemos o trackball porque o manuseio é mais fácil. A webcam para serviço de atendimento médico, se tem um problema que precisa ser resolvido de forma mais rápida possível. As pregas laterais porque facilita transporte.

 

DesignBrasil: É mais comunitário ou pessoal?

Romi Trombini Teixeira Os dois. A pessoa começa a conhecer o mundo do computador. Serviços para pessoa e serviços para comunidade. Ele não faz o que um computador faz – o pessoal não vai jogar, ouvir música. Embora até seja possível. O projeto é aberto.

 

DesignBrasil: Como vocês chegaram ao nome e-cipó?

Romi Trombini Teixeira: Um nome indígena, brasileiro, da nossa cultura. Estudamos tupi-guarani e uma série de nomes. Chegamos a icipó com i, depois chegamos ao e-cipó, que tem a idéia de ligação, de conexão, que é bem o conceito que a gente queria trabalhar no projeto. O “e” de eletronics e “cipó” de ligação. O e-cipó significa todos interligados numa árvore.

 

DesignBrasil: Como foi a criação da marca, o conceito, a pesquisa de tipo?

Gabriela Rocha de Oliveira: Na criação da fonte, essa marca é uma fonte modificada. Quando a gente começou a criar, desenvolver a marca, a gente pensou em traduzir nessa marca a questão da conexão, de ser tudo ligado, tudo unido. A gente fez vários desenvolvimentos, a gente criou realmente uma fonte, mas ela estava um pouco dura, diferente da proposta do produto, uma forma orgânica. Fazendo pesquisa de fonte, a gente achou uma fonte que era orgânica. Modificando ela, a gente conseguiu fazer a ligação dos caracteres para dar essa idéia de ligação.

Renato Bertão: O concurso era bem interessante em termos de concurso de design, porque tinha um briefing extenso. Eles tinham que desenvolver o naming, a marca, a embalagem, a parte de design de produto, plano de negócios, produção tecnológica em termos de engenharia, a distribuição. Então, o que diferencia de muitos concursos de design, era que ele alocava uma verba para que os alunos pudessem prototipar. Essa é a grande sacada, porque eles aprenderam muito.

 

DesignBrasil: Durante a fase de prototipagem, vocês tiveram que fazer alguma correção de rumo?

Iuri Alencar: Se a gente for contar, esse é o nosso terceiro. Fizemos um mock-uo que é muito diferente desse, depois fizemos um protótipo não funcional, que foi enviado, e esse aí é uma terceira versão corrigida.

Gabriela Oliveira: O maior erro foi a falta de tecla do Enter. A solução do último segundo foi tirar a tecla apagar. O erro se transformou numa coisa boa.

Renato Bertão: Eles viveram na prática a experiência de uma incubadora.

Da esqueda para a direita, a equipe do Unicenp: Dr. William T. “Billy” Edwards, Romi Trombini Teixeira, Ricardo Ross, Profª. Carolina Calomeno, Michele Jourdan, André Pepino, Gabriela Oliveira, Melissa Fontenette-Mitchell, Camila Martins, Carolina Alcantara, Profª. Dulce Albach, Paulo Pires, Ana Paula Alves, Ronaldo Ineu Guedes, Prof. Jorge Tamura, Vinicius delCura. Embaixo: Iuri Alencar, Prof. Re-nato Bertão e Diogo Faust.

Billy” Edwards é Vice-presidente Sênior e Diretor de Inovação da AMD. Michele Jourdan e Melissa Fontenette-Mitchell são organizadoras do concurso e evento AMD Connect the World Design Contest.