Favor não retirar esta informação visual em narrativa seqüencial do avião

Por Bruno Porto

Vejo o desenvolvimento deste tipo de material como um baita desafio para qualquer bom designer.

Sempre gostei de quadrinhos. Desde criança leio o que passar pelas minhas mãos, qualquer coisa mesmo. Tive a sorte de ter um pai que me presenteava com àlbuns de Tintim e Asterix, e uma mãe que se rendia sem muito esforço a qualquer solicitação por Cebolinhas, Super-Homens, Pato Donalds e o que mais fosse. Tive a sorte de crescer no Rio de Janeiro dos anos 1970, quando a EBAL de Adolfo Aizen e a RGE (com Sonia Hirsch a frente do departamento de quadrinhos) eram responsáveis por dezenas de títulos que abarrotavam as pequenas, para os padrões atuais, bancas de jornais. Sei que não estou sozinho quando considero as histórias em quadrinhos um elemento importante não só na minha formação cultural, como indivíduo, mas particularmente na constituição do meu vocabulário de artes visuais, como profissional.

Isso talvez explique ou apenas justifique, já que sei que estou forçando um pouco a barra minha coleção de folhetos de instruções de segurança de aviões. Senta-se um moleque de seis anos àvido por leitura (não apenas de gibis) por mais de meia hora em qualquer lugar, ele mete a mão na primeira coisa que se assemelha a uma revista em quadrinhos. Nem liga para o roteiro péssimo. Obviamente meus pais não me deixavam levar os impressos para casa mas assim que assumi alguma autonomia (ou discrição) passei a ignorar o pedido de “por favor não retire este folheto do avião]” como as demais pessoas ignoram a ordem de “permaneçam sentados e com os cintos apertados até a parada completa da aeronave”.

Como viagens de férias e a trabalho e atenciosos amigos de mãos leves continuam incrementando minha coleção, volta e meia me pego vistoriando este pequeno museu particular que não só permite a comparação entre diversas formas de comunicação visual por culturas diferentes, como também através dos tempos. O aperfeiçoamento da produção gráfica no que se refere a qualidade de impressão, acabamentos e formatos se une a um panorama da evolução do design de pictogramas e sistemas de identidade visual deste segmento: é o design como ferramenta do registro dos hábitos e costumes (como a proibição do cigarro, por exemplo) da sociedade e da própria vida moderna. Isso inclui também, é claro, o design dos próprios aviões, de seus equipamentos de segurança e objetos dos passageiros. Folhetos de três décadas atrás mostram obsoletos tipo de walkmans e rádios, substituídos gradualmente por pagers e celulares do tamanho de fornos de microondas, até os laptops e ipods de hoje. Roupas, acessórios (como bolsas, óculos e guarda-chuvas) e cortes de cabelo de outrora ou não também são motivos de risadas, sobretudo quando representados com fotografias.

Aliás, vê-se de tudo: fotos, ilustrações realistas, cartuns, pictogramas suíços, composições amadoras. Em muitos casos, um mesmo folheto faz uso de uma diversidade desnecessárias de linguagens e estilos. Justamente por isso, vejo o desenvolvimento deste tipo de material como um baita desafio para qualquer bom designer. A escolha da linguagem visual a ser adotada é mais difícil do que se pode imaginar, pois deve transmitir e gerar assimilação de instruções e informações com clareza, credibilidade, funcionalidade e objetividade, além de ser desejável que exale tranquilidade, seja universal e que esteja em consonância com o resto da identidade corporativa da companhia aérea. Um dos mais eficientes exemplo que tenho é o desenvolvido em 2002 pela Cia. de Design www.ciadedesign.com.br para a Varig, e premiado no ano seguinte com o norteamericano Diamond Awards. Com base em imagens capturadas digitalmente (quando isto não se fazia todo dia), a direção de arte encontra o tom certo de realismo necessário sem se tornar enfadonha, caricata ou falsa. E, talvez o mais impressionante, capaz de ser traduzida em termos de linguagem visual para sua versão em vídeo, garantindo assim uma inédita homogeneidade de linguagens. Pois se o folheto impresso vem sofrendo todas estas modificações, o que dizer dos vídeos que há menos de duas décadas vêm substituindo a constrangedora coreografia dos comissários de bordo para transmitir estas mesmas instruções?

Tudo isso me veio a mente semana passada quando encarei um total de 48 horas de viagem do Rio de Janeiro até Xangai, China, com trocas de avião e longas esperas em aeroportos de São Paulo, Johannesburgo e Hong Kong. O vôo da South African Airlines conta atualmente com um filme de instruções ( www.youtube.com/watch?v=BDikeHd6oI0 ) que integra de maneira surpreendentemente agradável animação digital, para os objetos tridimensionais e cenários, e convencional, para os passageiros, retratados de forma não-pejorativa como cartuns, que representavam equilibrada e naturalmente a diversidade ética contemporânea. Um verdadeiro desenho animado (para usar uma expressão abolida do vocabulário atual) a la Disney.

Que obviamente não tinha nada a ver com a versão impressa. Mas que, de qualquer maneira, foi devidamente catalogada.