Fomos Descobertos. E agora?

Por Editor DesignBrasil

Distintamente do artista, o designer, caso existisse já naquele tempo, teria sido recebido de braços abertos por Platão, em parte por seu perfeito enquadramento numa lógica produtiva, em parte também por serem os objetos por ele criados necessários à manutenção dos papéis sociais, mas, sobretudo, por sua cordata submissão à racionalidade. Sim, nós os designers, sobretudo os que tivemos nossa formação sob a norma irrefutável da “forma que segue a função”, somos quase que incapazes de questionar a lógica. Somos criaturas da revolução industrial e não concebemos nossa própria utilidade em outro universo. Nada de mais, considerando que há muito tempo outros profissionais se ocupam deste tipo de questionamento, a saber, os artistas e os filósofos. O problema surge quando a técnica passa a ser assunto de relevância filosófica, trazendo a reboque o profissional do design para uma arena de discussão na qual ele não se sente muito à vontade, e na qual argumentos técnicos não são de grande valia. Como atores do mundo tecnológico, agora somos chamados a expor nossas motivações, nossa ética, nossos valores.  Os pensadores da atualidade nos descobriram e querem nos conhecer. Fomos pegos de surpresa? O que sabemos nós sobre os fundamentos do nosso criar? Que responsabilidade temos sobre nossa criação? Temos verdadeira noção do impacto de nossa criação no mundo?

Mas como falar em valores neste mundo regido pelo consumo, onde tudo se torna cada vez mais descartável, e o sempre novo é exigido? Nosso cérebro máquina foi educado a criar mais e mais coisas, cada vez que assim o requisitassem, e nisso nos tornamos muito eficientes. Nunca coube a nós questionarmos o porquê de tanto consumo, a origem de tantos desejos insatisfeitos. Se o ser humano, frustrado em sua existência, buscava nos objetos uma satisfação, nossa função sempre foi fornecer novos objetos, e não nos atermos ao seu caráter frustrante.

Neste novo quadro, penso que não há como fugir. Na época da pós-metafísica 1 onde nada mais transcende, temos de nos haver entre nós mesmos, com nossos problemas e nosso mundo. Temos que, forçosamente, desenvolver uma filosofia da existência. Como design que resolveu estudar filosofia, também fui pega de surpresa ao descobrir em Heidegger a relevância do mundo da técnica na atualidade.  Uma relevância de caráter ontológico, e não qualitativo ou quantitativo, como habitualmente nosso ofício é classificado. Isto porque, para Heidegger, a metafísica ocidental provocou um “esquecimento do ser” e a técnica é parte ativa deste esquecimento. Com sua filosofia, Heidegger devolve ao homem a responsabilidade pelo cuidado do homem, afirmando que “o homem é o pastor do ser”. Em suas palavras, o mundo da técnica hoje se impõe de tal maneira que parece uma extensão natural dos sentidos humanos. É nessa perspectiva que ele coloca nossos objetos. E essa fusão homem objeto, torna o viver inautêntico2, pois nega a finitude humana, suas limitações e angústias naturais:

 […] Se pensarmos a técnica a partir da palavra grega techné e de seu contexto, técnica significa: ter conhecimento na produção, techné designa uma modalidade de saber. Produzir quer dizer: conduzir à sua manifestação, tornar acessível e disponível algo que, antes disso, ainda não estava aí como presente. Este produzir vale dizer o elemento próprio da técnica, realiza-se de maneira singular, em meio ao Ocidente europeu, através do desenvolvimento das modernas ciências matemáticas da natureza. Seu traço básico é o elemento técnico, que pela primeira vez apareceu em sua forma nova e própria, através da física. Pela técnica moderna é descerrada a energia oculta da natureza, o que se descerra é transformado, o que se transforma é reforçado, o que se reforça é armazenado, o que se armazena é destruído. As maneiras pelas quais a energia da natureza é assegurada são controladas. O controle, por sua vez, também deve ser assegurado.3

Como eu disse, a técnica é algo de relevância filosófica na visão de Heidegger e, portanto, há muito de nós, designers, em sua argumentação. Isso porque em Heidegger, o que distingue o homem dos demais entes é o seu existir, e não sua razão: somente o homem existe. Deus é, mas não existe, a pedra é, mas não existe4. E este existir tem íntimas relações com os objetos e seu caráter instrumental. O filósofo coloca em questão estes objetos, as coisas que o homem tem à mão e com as quais se distrai, esquecendo-se do próprio ser.  Ora, como podemos nós, os que abastecemos este mundo de objetos cada vez mais interessantes, mais acessíveis, não fazermos parte desta discussão? Somos, no mais das vezes sem o saber, fornecedores do viver inautêntico a que se refere Heidegger.  Antecipamos ao homem seus desejos, pretendemos dar-lhe todas as respostas colocando-lhe às mãos instrumentos diversos, e assim contribuímos para a diminuição de suas forças. Em termos filosóficos, essa antecipação da verdade, propicia, ao mesmo tempo, um aniquilamento do empenho de busca, tornando-o uma procura incessante por aquilo que não se pode apreender em sua autenticidade.5 O homem contemporâneo é dominado pelo processo técnico, no sentido de enxergar nele o único meio de sobrevivência e conseqüentemente de se adequar no mundo moderno, se diluindo em meio aos outros entes, se deixando arrastar pela vida inautêntica em meio aos objetos que manipula.

Fiz uso aqui de alguns conceitos heideggerianos, com os quais espero ter contribuído para uma aproximação entre estes dois saberes, que são o design e a filosofia. Insisto em dizer que, a despeito de nós designers não estarmos habituados a isso, o mundo de agora, sem o consolo metafísico, voltou-se para si próprio e descobriu o quanto depende da técnica. É natural que procure apreendê-la. Cabe a nós designers participarmos desta nova discussão que se apresenta e, portanto, urge aprendermos também a filosofar.

Notas e Bibliografia
1) Heidegger (1889-1976) tornou-se célebre por defender a radicalização da metafísica. A tradicional interrupção entre o ente e o ser, com o advento da técnica, perdeu o sentido. Segundo o filósofo, é isto que caracteriza o esquecimento do ser. (Váttimo, As Aventuras da Diferença. Edições 70, 1988)

2) Heidegger, M. Ser e Tempo. Parte I, 7ª Ed., Petropólis,RJ: Vozes, 1998.

3) Apud CRITELLI, Dulce. Martin Heidegger e a essência da técnica. In: Margem, São Paulo, nº16, p. 83-89, dez. 2002.

4) Heidegger, M. Que é metafísica? Tradução de Ernildo Stein. São Paulo: Abril Cultural, 1989b. (Os Pensadores).

5) COSTA, Poliana E. Inautenticidade e finitude em heidegger, SABERES, Natal – RN, v. 3, número especial, dez. 2010

4 Comentários

  1. [email protected] disse:

    Adorei perceber que na relação entre o design e nosso criar está este grande filosofo Martin Heidegger, que foi e é meu guia filosófico no pensar o design, aliás minha escola está fundamentada na própria poética de Heidegger. Acrescento neste ótimo artigo que a existência do Ser não só está relacionada ao ente humano, as coisas passam a existir, fundamentadas por Heidegger no momento do ato poético – a cadeira só existe no ato do sentar.
    Os designers deveriam ler Heidegger para fundamentar seu pensamento.
    Parabéns!

  2. neto paiva disse:

    Até quero continuar lendo seu artigo para ver aonde chega, mas não consigo ir além sem antes reagir à sua provocação inicial, se é que foi uma provocação.
    “Distintamente do artista, o designer, caso existisse já naquele tempo, teria sido recebido de braços abertos por Platão…”
    De fato, você realmente não acredita nesta afirmação, não é?
    “caso existisse já naquele tempo”???? Como assim?
    A capacidade humana de transformar coisas acessíveis para criar um mundo artificial capaz de garantir sua sobrevivência e transmitir suas idéias é muito anterior ao mundo de Platão. Arrisco até em afirmar que não existiria o mundo de Platão se não houvesse ocorrido muito antes todo o desenvolvimento paleolítico.
    O ser humano é, por natureza, um designer: um criador de mundos artificiais que lhe asseguram a sobrevivência em tamanha adversidade natural. E, talvez por exigência desta característica, também seja um ser tecnológico, que sempre aplicou a técnica necessária à tarefa e sempre desenvolveu tecnologia para solucionar seus problemas.
    É preciso afastar-se do industrial design, criado pela sociedade moderna ocidental, para compreender a essência do design. Sociedades com origens muito antigas, índios e aborígenes por exemplos, possuem importante produção de design para criar sua identidade, expressar suas idéias e realizar tarefas que não tem nada a ver com questões mercadológicas ou outros pontos consumistas.
    Acredito que está (ainda) em tempo de olharmos para nossos umbigos e nos percebermos em meio a tudo isso para saber até onde se quer entrar na toca do coelho.
    Gostei da indicação de leitura deste filósofo, vou procurar conhecê-lo melhor.
    Gostaria também de indicar dois teóricos que podem ampliar um pouco mais o autoconhecimento do designer. Pode parecer clichê ou até piegas, mas acho muito pertinente conhecer Victor Papanek e Vilém Flusser para entender melhor o que é design. É como na letra de “um índio”, do Caetano: surpreenderá não por ser exótico, mas por estar oculto e ser óbvio.
    Agradeço à Claudia Fazzolari por me ensinar o óbvio. Obrigado!

  3. suziedesigner disse:

    obrigada pelo comentário, Carlos, e desculpe não ter retornado antes. Sim, a provocação existe, mas não no sentido que vc propõe, mas entendo o seu ponto de vista. Admito que uma melhor delimitação minha, teria evitado sua questão. Fica então aqui registrado que quando me refiro à designer, estou me referindo a este profissional da modernidade, cuja existência tangencia o advento industrial, e cuja relação com a efemeridade moderna é controversa. Quando faço esta referência à Heidegger, é justamente no sentido de que este filósofo, ao se ocupar da modernidade, deu importância à relação que o homem moderno tem com seus objetos, e não entrar nesta questão da existência ou não do design, ou melhor o designer, antes da modernidade. Nao, eu não ignoro a potencialidade humana em criar, que, tal qual vc frisou, é obvia, mas me restrinjo à questões voltadas à modernidade. Agradeço também a indicação do Flusser, e confesso que não li. No momento me ocupo com modas e modernidades, embora já tenha visto várias citações dele com os garotos do Filosofia do design, aqui em curitiba, mas, novamente, estou tentando manter o foco. Reafirmo meu agradecimento.

  4. suziedesigner disse:

    Obrigada pelo comentário. Espero estar cada vez mais apta a fazer esta aproximação do designer com a fisolofia. Fico feliz em reforçar a fileira dos que entendem a necessidade de reflexão em nosso país.