Francy Guimarães Teixeira

Por Editor DesignBrasil

“O projeto busca disseminar o conceito de sistema-produto. Implica inovar na forma do objeto e no serviço, na distribuição, na comunicação e no processo produtivo de modo integrado e sinérgico”

Economista e mestre em Gestão Econômica do Meio Ambiente pela Universidade de Brasília (UnB), Francy Guimarães Teixeira trabalha há 10 anos no departamento nacional do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), onde é analista sênior da Unidade de Relações Internacionais. Lá é responsável pela coordenação dos projetos de cooperação recebida, que inclui o SENAI Design Futures. Nesta entrevista, por e-mail, ela explica como vem funcionando esse programa, resultado de uma parceria firmada entre o SENAI e o italiano POLI.design, Consorzio del Politecnico di Milano, com o objetivo de aprimorar o atendimento às demandas atuais e futuras da indústria brasileira.

DesignBrasil O que é o SENAI Design Futures?

Francy Guimarães Teixeira O projeto SENAI Design Futures é resultado de uma parceria firmada entre o SENAI e o POLI.design de Milão que se insere no esforço permanente do SENAI de buscar novos conhecimentos e tecnologias pela cooperação internacional para aprimorar o atendimento às demandas atuais e futuras da indústria brasileira.

O design é tema indispensável para a competitividade das empresas brasileiras. É um modo de abordar a vida, de traduzir anseios, comportamentos e necessidades em produtos e serviços inovadores e de alto valor agregado, crucial para a humanização de tecnologias e para o intercâmbio econômico e cultural.

A atuação do SENAI em design começou em 2001, com o Programa SENAI de Gestão do Design. Coordenado pelo Departamento Nacional, o Programa tem fortalecido o desenvolvimento das competências técnicas no SENAI para capacitação e prestação de serviços técnicos e tecnológicos em design para as empresas brasileiras.

Por meio da parceria com o POLI.design, buscou-se introduzir um novo conceito de design no SENAI: o conceito do Design Estratégico. Esse novo entendimento aproxima design e inovação tecnológica, ao considerar que o design não é apenas um conjunto de técnicas que agregam valor a um produto a partir de novas formas, desenhos e do exercício da criatividade. Em sua concepção estratégica, o design compreende todo o ciclo de desenvolvimento, distribuição e comunicação do produto.

Para o SENAI, disseminar o design estratégico vai ao encontro de sua missão organizacional, que destaca a inovação tecnológica, ao lado da educação profissional, como uma vertente de negócio.

Foto: Reunião de trabalho. Chiara Colombi, do POLI.design, e os designers do SENAI-Paraíba

DesignBrasil Como começaram esses entendimentos entre o SENAI e o POLI.design?

Francy Guimarães Teixeira Começaram em 2006, quando a instituição propôs a implementação de um modelo de escola de design no Centro Tecnológico da Indústria Química e Têxtil (SENAI-CETIQT) com cursos de pós-graduação, pesquisa científica e serviços de consultoria em design. Ao vislumbrar o alcance da iniciativa, o SENAI resolveu estruturar projeto de âmbito nacional.

Como decorrência, foi realizada missão prospectiva ao POLI.design na Itália, buscando estabelecer um diálogo para a construção de uma parceria estratégica, sólida, ampla e de longo prazo. Os entendimentos foram concluídos em junho de 2008, com a assinatura de acordo e projeto entre ambas as instituições. Por meio da parceria, o SENAI está alavancando a atuação dos Departamentos Regionais e do CETIQT no campo do design estratégico.

Essa iniciativa divide-se em dois momentos. Primeiramente, o SENAI busca assimilar a metodologia precursora desenvolvida pelo POLI.design do design estratégico. Em seguida, procura traduzir essa metodologia por meio da aplicação de experiências práticas em empresas brasileiras que atuam nos setores de têxtil e vestuário, couro, calçados e artefatos e mobiliário.

O POLI.design é um centro de pesquisa aplicada sobre design, controlado pelo Politecnico di Milano. É referência em formação e pesquisa universitária sobre design, estando entre as instituições mais prestigiosas e relevantes do mundo. Da mesma forma, seu trabalho possui grande similaridade com o trabalho do SENAI, com forte interação entre a pesquisa e a prática das empresas. Esses foram os atributos considerados pelo SENAI ao escolher o POLI.design como parceiro estratégico.

DesignBrasil Com a parceria, que solução o SENAI se propõe a oferecer na prática e que setores da indústria são beneficiados?

Francy Guimarães Teixeira Apoiado por um parceiro internacional de renome, o SENAI propõe-se a oferecer soluções inovadoras em educação profissional e serviços técnicos e tecnológicos em design para a indústria. Ao ampliar as competências do SENAI, o projeto SENAI Design Futures possibilitará a renovação e a expansão da oferta de serviços para as indústrias que atuam nas áreas de couro, calçados e mobiliário. Da mesma forma, o projeto-piloto desenvolvido no SENAI-CETIQT resultará em novos cursos de graduação e pós-graduação, pesquisa aplicada e novos serviços para as áreas têxtil, do vestuário e de interiores.

Como ação transversal, o projeto tem proporcionado a supervisão científica do Portal SENAI Design (design.senai.br) pelo POLI.design e pela POLI.teca (núcleo de conhecimento científico-técnico-tecnológico do Sistema Design do Politecnico di Milano) e contribuições com conteúdos relevantes na área de comportamento e tendências. As principais ações do projeto são consultorias para reformulações de cursos e serviços, capacitações de docentes e técnicos, palestras e seminários do POLI.design nos Departamentos Regionais do SENAI do Rio Grande do Sul e da Paraíba, na área de couro, calçados e artefatos; nos Departamentos Regionais do Paraná e de Santa Catarina, na área do mobiliário, e no SENAI-CETIQT, no Rio de Janeiro, na área de têxtil, vestuário e design de interiores.

Na foto: Pesquisa sobre o artesanato paraibano em visitas de profissionais do POLI.design ao lado de designers do SENAI-Paraíba

DesignBrasil Com a parceria, o SENAI já vem oferecendo serviços de consultoria para o setor de mobiliário nos departamentos de Santa Catarina e do Paraná, e no setor de couro, calçados e artefatos, no Rio Grande do Sul. Na prática, como são esses serviços?

Francy Guimarães Teixeira O SENAI oferece serviços de consultoria em design para empresas dos setores focalizados no projeto há alguns anos, com apoio de outra ação nacional, o Programa SENAI de Gestão de Design. Por meio da parceria com o POLI.design, o portifólio de serviços dos SENAI nessas áreas está sendo ampliado. Novos produtos e serviços serão lançados até o final do ano em seminários estaduais voltados para empresários do setor de mobiliário, no Paraná e em Santa Catarina, e para empresários do setor de couro, calçados e artefatos, no Rio Grande do Sul e na Paraíba.

DesignBrasil Esse conhecimento já está sendo repassado para as demais unidades? Como?

Francy Guimarães Teixeira Sim. Em março deste ano, os consultores realizaram uma capacitação de 40 horas para os designers de couro, calçados e artefatos e para os designers do mobiliário que atuam na Rede SENAI de Design. Além disso, ao longo do projeto estão previstas 37 palestras sobre design com foco em inovação, transmitidas por meio de videoconferência para todos os 27 Departamentos Regionais do SENAI e para o SENAI-CETIQT.

DesignBrasil Em que fase está o plano de construção de um projeto-piloto no SENAI-CETIQT e de que modo esse projeto vai possibilitar para aperfeiçoar sua atuação no design de moda, têxtil e interiores? E o que já está sendo feito na linha de ação que prevê o desenvolvimento e a revisão de cursos de graduação, pós-graduação e produção de pesquisas em design?

Francy Guimarães Teixeira Na fase atual do projeto estão sendo valorizados os cursos de pós-graduação do SENAI-CETIQT, com o acréscimo de conteúdos e disciplinas. Além disso, estão sendo elaborados novos cursos de especialização e de extensão e um curso de graduação em design de superfície. Paralelamente, estão sendo realizadas atividades de formação de formadores e projeto de publicação de revista científica. Aproveitando as oportunidades locais e as próprias potencialidades, com apoio do POLI.design, o SENAI-CETIQT está ampliando o alcance de seus produtos e serviços, buscando ultrapassar o foco setorial característico do SENAI rumo à transversalidade pertinente ao Sistema da Moda. Dessa forma, o SENAI-CETIQT tem avançado em direção à fertilização cruzada com outras idéias ligadas ao design e com outros setores mercadológicos, tais como fotografia, cinema, comunicação, varejo, território, etc.

DesignBrasil De que modo a transferência desse conhecimento italiano em matéria de design poderá ajudar o Brasil a tornar-se mundialmente mais competitivo?

Francy Guimarães Teixeira O Brasil possui uma demanda interna de mercadorias e serviços em expansão contínua. Além disso, participa cada vez mais ativamente das redes de comércio internacional. Contudo, grande parte das exportações brasileiras ainda é composta por commodities e produtos manufaturados com baixo valor agregado. Ao basear sua estratégia de negócios na venda de grandes volumes a preços baixos, a indústria exportadora brasileira fica refém da variação cambial e do distribuidor internacional que domina o canal de vendas e distribuição.

Essa estratégia, típica de países de nova industrialização, penaliza o Brasil perante a concorrência de países como a China e a Índia, que têm zonas internas de demanda também importantes e crescentes e custos de produção infinitamente menores. A única possibilidade de desenvolvimento contínuo do sistema produtivo brasileiro passa pela consciência de que a produção interna deve-se qualificar, construindo uma identidade forte com ações estratégicas coordenadas e comunicadas a seus mercados e clientes-alvo, por meio de processos inovadores.

O Brasil possui excelentes áreas de sensibilidade criativa, de bom gosto e de abertura à inovação. Além disso, conta com um sistema industrial e financeiro suficientemente maduro para começar a estruturar uma abordagem produtiva pós-industrial. Contudo, essas duas culturas não dialogam e são estruturalmente separadas. A cultura do design é a chave para fazer com que esses dois grupos de vantagens competitivas se encontrem, integrando-se na produção e na redefinição de um eficaz e contemporâneo sistema de produção de mercadorias e de serviços.

Na foto: Visita à COOPNATURAL (Natural Fashion) de profissionais do POLI.design e de designers do SENAI-Paraíba

DesignBrasil Na visão do SENAI, de que modo o design pode fazer essa integração?

Francy Guimarães Teixeira O design representa a ponte cultural entre criatividade, arte, qualidade, sensibilidade, cultura de consumo e, na indústria, a consciência tecnológica, a capacidade organizacional e cultura do processo pós-industrial. No tocante às mercadorias contemporâneas, a inovação é conduzida, principalmente, pela evolução das tecnologias, pela mudança nos comportamentos de consumo e de vida e pela evolução das linguagens de comunicação. O design é capaz de intervir nessas três vertentes, e mais especificamente, é capaz de desenvolver inovação a partir do estudo dos comportamentos de consumo e de vida e da mudança das linguagens. Quando a cultura de projeto identifica ou, até mesmo, antecipa necessidades e desejos e permite ao sistema produtivo desenvolver novas respostas para o mercado, ocorre o processo de inovação orientada pelo design.

Com foco no aumento da competitividade da indústria brasileira, o projeto SENAI Design Futures busca disseminar, entre as empresas, o conceito de sistema-produto, que implica a necessidade de inovar não só a forma do objeto, mas no serviço, na distribuição, na comunicação e no processo produtivo de modo integrado e sinérgico. Todos esses fatores contribuem em conjunto para o sucesso de um produto. Por este motivo, o design intervém em larga escala em quase todos os fatores do comportamento empresarial.

Para o SENAI, assim como o POLI.design, o design é apenas um componente de um processo maior de inovação tecnológica que abrange todos os estágios do desenvolvimento, produção e colocação de um produto no mercado. Por isso, a parceria do SENAI com POLI.design tem como objetivo principal desenvolver as competências necessárias para ajudar a indústria nacional a inovar os seus modelos de negócio, por meio do conceito de design estratégico, preparando-a para os novos desafios do comércio internacional e do mercado interno.

DesignBrasil Algum exemplo de empresa de setor empresarial que venha colhendo benefícios desse programa?

Francy Guimarães Teixeira Após os seminários para o empresariado dos segmentos de couro, calçados e artefatos, em Porto Alegre (RS) e Campina Grande (PB), e do mobiliário, em Curitiba (PR) e São Bento do Sul (SC), serão desenvolvidos projetos-pilotos em parceria com empresas para aplicação prática do conceito sistema-produto. Da mesma forma, a partir do último trimestre de 2009, o SENAI-CETIQT já deverá estar desenvolvendo um projeto de pesquisa aplicada com empresas-pilotos.

DesignBrasil O SENAI Design Futures foi lançado em outubro de 2008. Que análise é possível fazer dos resultados obtidos desde então?

Francy Guimarães Teixeira O projeto encontra-se exatamente na metade de sua execução. A partir do início de 2010, as empresas atendidas pelo SENAI e os profissionais que buscam novas competências em design passarão a ser diretamente impactados pelo projeto. Poderão se beneficiar de um novo portfólio de cursos e serviços em design com enfoque estratégico.

DesignBrasil Quais são as metas do SENAI Design Futures?

Francy Guimarães Teixeira As metas do projeto, até dezembro de 2010, são as seguintes: contar com um Sistema SENAI Design CETIQT implantado, com oferta de novos produtos e serviços em co-branding com o POLI.design, como cursos de graduação, pós-graduação e cursos breves em design, e pesquisas aplicadas e serviços de consultoria empresarial em design; pessoal do SENAI capacitado, por meio de cursos de extensão e pós-graduação no POLI.design em Milão, capacitações para técnicos e docentes que atuam em design, e capacitações gerenciais em design estratégico; cursos de extensão no Brasil, palestras em design com foco em inovação. E ter um fluxo permanente de conteúdos da POLI.teca para o Portal SENAI Design. * Entrevista concedida a Juan Saavedra.

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