Gabriel Patrocínio fala sobre políticas públicas de design no Brasil

Por Centro Brasil Design

 

Julliana Bauer

 

 

Há seis doutores em políticas públicas de design no mundo. Dois deles estão no Brasil: Gabriel Patrocínio e Gisele Raulik-Murphy. Entende-se por políticas públicas de design os princípios estabelecidos pelo governo para fazer uso do design como ferramenta estratégica de desenvolvimento social, econômico, industrial e regional.

Você conhece as políticas públicas de design em vigor no Brasil atualmente? O designer Gabriel Patrocínio fala sobre o contexto dessas ações no Brasil e ideias para que este cenário melhore.

 

Qual o papel e importância de se ter políticas públicas de design no Brasil?

Tem duas questões que reforçam o papel das políticas publicas de design. O primeiro é crescimento do setor da indústria criativa. O segundo é o reconhecimento do design como uma ferramenta que impulsiona a inovação. O design é reconhecido como um fator de importância para gerar desenvolvimento desde o século XIX. No Brasil, pra você ter ideia, em 1882, Rui Barbosa falou sobre a importância do design – lógico que não com esse termo, e sim, com a linguagem da época. No mundo, o design passou a ser reconhecido como ferramenta de política pública com a experiência que o Reino Unido implementou em 1944, ainda durante a Segunda Guerra Mundial, que teve o objetivo de estimular o crescimento do país quando terminasse a guerra. Pra mim, esse é um lance político genial.

 

Qual o contexto dessas políticas públicas no Brasil?

No Brasil, nos anos 70, existia uma visão macroeconômica que pregava determinadas formas de lidar com a economia para lidar com o desenvolvimento. Na época, as Nações Unidas encomendaram um estudo sobre qual seria uma política publica para países em desenvolvimento. Houve então uma recomendação com uma fórmula pra esses países adotarem o design para desenvolver a economia, a indústria. Nessa época, o Brasil também identificou o potencial do design no primeiro programa nacional de desenvolvimento científico e tecnológico, em 1973. Em 1995, se teve a boa intenção de criar um programa brasileiro de design. Só que já dentro de uma filosofia neoliberal, deixou-se esse programa entregue ao mercado, sem que se fizesse o que todos os países competitivos fizeram, que foi criar um conselho de design competitivo e atuante. O Brasil continuou com uma estrutura inexistente, com um programa que existiu praticamente só no papel. O que o SEBRAE fez nesse sentido de políticas públicas na maioria das vezes foi feito com uma preocupação muito grande de uma distribuição de recursos pelo país. É uma preocupação nobre, mas quando se tem poucos recursos e eles são pulverizados demais, o retorno não é de qualidade. Em vez de um investimento em qualidade, escolheu-se em investir em quantidade. Nos anos 90 foram criados vários Centros de Design regionais, dos quais hoje existem o Centro Brasil Design e o Centro de Design do Recife. O que acontece com o Brasil que as boas ideias surgem, mas de repente morrem? Em minha opinião é isso: falta de investimentos ou investimentos pulverizados. Em 2004, eu e o Freddy Van Camp organizamos um seminário de políticas públicas para o BNDES, a pedido do então presidente Carlos Lessa, porque ele tinha uma curiosidade de saber por que o design não dava certo no Brasil. Mostramos a ele uma série de programas e ficou muito evidente esse erro da pulverização. Os palestrantes internacionais questionaram então o SEBRAE sobre a inexperiência dos designers que eram contratados, sobre o volume de trabalho dado a esses jovens profissionais. Não se pode fazer investimento em todos os estados brasileiros ao mesmo tempo sem uma infraestrutura local. Existe a necessidade de investimentos concentrados. Não é uma questão de reinventar a roda.

 

Os cursos de graduação em design deixam os alunos cientes da importância das políticas públicas de design?

Não. Mas apesar de ser uma ferramenta que vem sendo usada há setenta anos, há apenas seis especialistas na área no mundo, o que mostra que o panorama no mundo não é muito diferente. Tem pontos muito mais preocupantes do que a falta de consciência das políticas públicas nos cursos de graduação de design. Uma delas é não ter a consciência do assunto nos cursos de Economia. Outra é a importância de designers pararem de falar só para designers e falarem pra economistas, políticos e industriais. Há também ao menos dois campos do design que não têm sido abordados adequadamente nas universidades: o design de serviços e do design estratégico. Talvez a solução imediata para isso seja abordar isso tudo nos cursos de especialização.

Há modelos de sucesso em outros países que possam ser adaptados ao Brasil?

Isso é difícil. Acho que temos um aprendizado grande com modelos de vários outros países, mas temos que gerar nosso próprio modelo. Não é o caso pegar um modelo de sucesso e trazer pra cá. É ter uma visão geral dos modelos existentes e ver o que podemos pegar de cada um para usar aqui. Temos conhecimento o suficiente aqui e temos que fazer uso disso.

 

O que se destaca no Brasil atualmente em relação a políticas públicas de design?

Quando fiz minha pesquisa em 2011, procurei conversar com alguns players importantes, pessoas que se destacavam na área pra poder escolher programas. Os programas indicados na época foram o do Centro de Design do Paraná (atual Centro Brasil Design); o do Centro de Design do Rio, que fechou; o da prefeitura do Rio, que está investindo cada vez mais em design e do Recife, que tinha dois centros de design – um mais focado em artesanato e outro em design. Durante essas entrevistas com 13 stakeholders, o programa Criação Paraná se mostrou muito evoluído. Peguei também o início do programa Paraná Inovador pelo Design e posso dizer sem dúvidas que se trata do melhor programa de apoio a pequenas e médias empresas do mundo. Digo isso pelo histórico, pelo amadurecimento, pela especialização dos profissionais, pela aprendizagem com o erro. Algo que me preocupa é a visão que temos hoje de economia criativa como algo associado à cultura. Design é um elemento da cultura nacional, mas design enquanto uma das áreas da economia criativa não é uma questão de cultura. Parafraseando a campanha de Bill Clinton, “it’s the economy, stupid”.