Gerson Barone

Por Editor DesignBrasil

“O maior desafio é o gerenciamento de todas as informações, para que o desenvolvimento resulte em um veículo bonito e com o menor custo possível para a viabilização do projeto”

Única empresa homenageada durante a premiação do 19º prêmio de design Museu da Casa Brasileira, a Volkswagen do Brasil é hoje apontada como uma empresa-referência na aplicação do design como ferramenta de mercado. Parte desse prestígio veio através do sucesso do Fox, veículo inteiramente desenvolvido no Brasil.

O lançamento do carro marcou a recuperação de uma postura que destacara a Volkswagen nos primeiros anos de sua atuação no Brasil, privilegiando a criação de automóveis por designers e engenheiros brasileiros.

O DesignBrasil conversou com um dos responsáveis por esse sucesso, o designer Gerson Barone. Ele é gerente do Design & Package da Volkswagen do Brasil. Na entrevista, feita com apoio da assessoria de imprensa da empresa por meio de um questionário, Barone comenta sobre as variáveis que precisa administrar durante os anos de desenvolvimento de um novo projeto de carro.

Confira:

 

DesignBrasil: Numa entrevista recente o senhor disse ser um “arquiteto frustrado”. O que o motivou a estudar design na FAAP e quando o senhor se graduou?

Gerson Barone: Minhas duas paixões desde a infância eram desenhar automóvel, casas e interiores. Prestei vestibular para arquitetura em três universidades, cujo objetivo principal era o curso na USP e a frustração se deve em não ter ficado na lista principal. Por este motivo, e dado a minha paixão por automóveis, optei pela FAAP, onde cursei desenho industrial.

 

DesignBrasil: É verdade que senhor ingressou na Volkswagen do Brasil logo que senhor se formou? Da sua contratação até assumir a gerência de Design & Package, como foi a sua trajetória profissional na empresa?

Gerson Barone: Não. Quando me formei em desenho industrial já trabalhava na Volkswagen. Meu primeiro emprego foi como desenhista mecânico para Massey Ferguson na área da engenharia do produto. Depois fui para a Ford do Brasil estagiar também na engenharia do produto. Em 1976, me transferi para a Volkswagen do Brasil como analista do produto na área de engenharia de chassi. Após minha formatura consegui uma vaga de designer no studio de design da Volkswagen. Participei no desenvolvimento desde o Gol Geração I (estamos no G4) e na família Santana, Logus, Pointer, o Fox e seus derivados.

 

DesignBrasil: Em todo esse tempo, o senhor deve ter acompanhado a evolução no departamento de design na Volkswagen do Brasil. O que mudou desde então? O design sempre foi visto como elemento chave na estratégia da empresa ou essa importância aumentou de grau com o tempo? Por quê? O que isso representou em termos de estrutura e de recursos humanos e que responsabilidades o Design & Package da VW Brasil incorporou? Qual foi a sua contribuição pessoal nessa evolução?

Gerson Barone: O avanço tecnológico e o alto grau de exigência e sofisticação do mercado fizeram com que os automóveis ficassem muito parecidos mecanicamente, fazendo com que o grande diferencial entre estes produtos estivessem sob a responsabilidade do design propriamente dito. Cada marca procurou definir suas características filosóficas através das formas e proporções. Quando comecei minha carreira os veículos eram feitos como no início do século; isto é, papel, lápis, fitas, gesso e barro. As limitações de manufatura e de materiais limitavam, muito, as possibilidades sonhadas pelos designers.

Nos dias de hoje os veículos são concebidos e desenvolvidos quase que totalmente no sistema virtual com o auxílio de softwares específicos que permitem simulações rápidas e de baixo custo de um hipotético produto, aumentando sobremaneira a influência e responsabilidade do design no produto final. Como todo gestor procuro sempre contribuir no desenvolvimento do grupo, modernizando a estrutura funcional e adaptando os novos processos de desenvolvimento.

 

DesignBrasil: Hoje, qual é a missão e principais metas do Design & Package da Volkswagen do Brasil? Qual é a composição e perfil da equipe e as atribuições?

Gerson Barone: A nossa missão é desenvolver produtos que encantem o cliente, pois apenas satisfazê-lo não é o suficiente. Somos um estúdio mundial da marca Volkswagen; isto é, desenvolvemos veículos para mercados emergentes e também para paises com outras legislações. O nosso grande desafio é satisfazer os anseios destes mercados com o desenvolvimento de um produto único. Nossa equipe é composta por designers especialistas generalistas (conhecedores de todas as atividades do departamento, porém com algumas habilidades predominantes), polivalentes, flexíveis, “antenados” em tudo o que há de novo na moda, decoração, indústria automotiva e acima de tudo possuem a percepção dos desejos dos consumidores, traduzindo estes desejos nos automóveis/produtos VW.

Fox: case de sucesso

 

DesignBrasil: Quantos outros centros de desenvolvimento de design a Volkswagen mantém no mundo e como é a interação do Design & Package da Volkswagen do Brasil com eles? Ele está subordinado à matriz em Wolfsburg ou tem autonomia? Como é relação com os departamentos de marketing e de engenharia da empresa?

Gerson Barone: Existem cinco centros de desenvolvimento da marca Volkswagen e cinco das empresas que compõem o grupo VW. Quanto à interação, somos muito ligados principalmente nos conceitos de design e desenvolvimento em conjunto da imagem corporativa da marca. Freqüentes job rotations fazem com que os profissionais da área de design sintam na “pele” o dia-a-dia de outros estúdios. Este convívio faz com que todos os centros de desenvolvimento estejam sempre caminhando na mesma direção, afinal um produto VW deve ser reconhecido como tal em qualquer lugar do mundo, independente do país onde foi desenvolvido.

Para exemplificar esta interação entre as marcas do grupo, uma das atividades é o encontro dos designers (o Brasil foi sede deste evento em 2000) para elaboração de conceitos e/ou definição sobre o mercado e perfil do consumidor de cada marca do grupo (Seat, Audi, Skoda, VW, etc.), evitando assim que desenvolvam produtos concorrentes entre si. Possuímos liberdade nos nossos desenvolvimentos, porém a aprovação final é sempre feita em Wolfsburg que são os responsáveis pela imagem corporativa. A nossa relação com Marketing e Engenharia é muito estreita. A interação; ou melhor, a parceria do Design com essas áreas faz com que tenhamos produtos de altíssima qualidade.

Centro de Realidade Virtual VW

 

DesignBrasil: A VW acaba de lançar o Gol geração 4 (foto abaixo). De modo resumido, como foi o processo de desenvolvimento desse veículo, etapa a etapa, dentro do Design & Package?

Gerson Barone: Desenvolver um Gol novo não é tarefa fácil, afinal de contas nunca sabemos qual será a reação do público com relação a uma forma nova que esta alinhada com as tendências estéticas (tendência esta que o consumidor não conhece), principalmente por se tratar de um veículo campeão de vendas. Um erro na definição da forma poderia trazer prejuízos incalculáveis para a marca, porém aceitamos o desafio. Após incansáveis reuniões com o Marketing, iniciamos os primeiros sketches na busca de ícones que pudessem compor o veículo. Logo, uma linha de caráter negativa que se iniciava no capô e se estendia até o pára-choque formou um enorme “V” que encantou a todos.

Uma divisão de pintura mais elevada nos pára-choques também deram um efeito visual interessante fazendo com que o veículo pareça mais alto (que hoje é uma tendência). Para finalizar a parte externa, os elementos arredondados na traseira forneceram o charme final ao Gol. A mesma preocupação tivemos no interior, focando a funcionalidade e a fácil percepção/interpretação, por parte do condutor, dos instrumentos, botões e todos os fictures internos que o veículo oferece, não esquecendo – é claro – do acabamento e tecidos com ícones minimalistas.

Voltando agora para o step by step após a definição da forma em 2D, iniciamos a construção de um veículo em Clay (argila especial para modelos). Neste momento, o designer traduz a idéia 2D em 3D. Para a construção deste modelo a Engenharia nos passa os hard points e nesta etapa trabalhamos em conjunto (Design e Engenharia) para obtermos a melhor aparência juntamente com as melhores soluções técnicas.

 

DesignBrasil: Em sua opinião, quais são os principais fatores críticos que podem determinar o sucesso ou fracasso de um novo projeto durante seu desenvolvimento? Quais são as armadilhas a serem evitadas? Qual é grande desafio na função de um gerente de design?

Gerson Barone: Iniciamos um projeto quatro anos antes do lançamento do veículo. Neste período muita coisa pode acontecer, as tendências podem mudar, problemas políticos locais ou internacionais podem ocorrer, a economia pode ser abalada, novas legislações surgem; enfim, desenvolver um veículo é uma constante incerteza. Para amenizar estes efeitos nunca atacamos apenas uma frente, sempre temos duas ou três propostas que caminham paralelamente ao projeto principal e a todo o momento juntamente com as demais áreas, o qual avaliamos se estamos na direção certa ou não.

Com todo este cenário, o maior desafio de um gerente de design é o próprio gerenciamento de todas essas informações, para o que o desenvolvimento resulte em um veículo bonito e com o menor custo possível para viabilização do projeto. Também tenho que administrar os desejos dos clientes com as limitações técnicas/tecnológicas e não permitir que o conservadorismo iniba a criação. Deve-se também colocar “freio” nos desejos dos designers que vislumbram inovações que estão muito além da compreensão dos consumidores. Enfim: é uma tarefa árdua.

 

DesignBrasil: De que forma o Design & Package incentiva a inovação? Como conciliar criatividade e a pressão por prazos, controle orçamentário e resultados?

Gerson Barone: Uma parte desta pergunta já foi respondida na questão anterior, porém complementarei com a resposta abaixo: o brasileiro é muito criativo quando inserido em um ambiente estimulante com uma estrutura que permita a ele uma pesquisa de qualidade e a possibilidade de trocar experiências e idéias com outros profissionais (outros designers). As idéias inovadoras brotam com muita facilidade. É assim que trabalhamos. A inovação vem do capital intelectual da nossa área.

Acredito que quanto maior for a criatividade e as soluções resultantes deste processo, menores serão os prazos e a redução dos custos e é claro um lucro maior, pois a idéia criativa é aquela que é simples, barata, rápida e que soluciona o problema. E esta é uma habilidade que temos e desenvolvemos dia-a-dia.

 

DesignBrasil: A empresa realizou em 2005 mais uma edição do Talento Volkswagen de Design. Que resultados concretos esse programa de estágios trouxe para a empresa?

Gerson Barone: Poderia responder esta pergunta com vários detalhes, mas os indicadores abaixo falam com maior propriedade. a) O Concurso VW existe desde 1998. A cada concurso são escolhidos três candidatos para estagiar na área de Design & Package por um período de um ano, remunerado; b) 6 foram contratados aqui na VW Design; c) atualmente cinco estão trabalhado em algum dos estúdios da VW na Europa sendo três como estagio e dois efetivos; d) Cinco estão trabalhando em estúdios de design de nossos concorrentes. Estes números mostram a qualidade e a importância do concurso, principalmente para o Brasil, pois não existem escolas que graduam profissionais na área de Design Automobilístico, portanto a linguagem acadêmica trabalhando junto com profissionais industrializados.

 

DesignBrasil: Que tipo de competências, habilidades e de perfil o senhor busca num novo talento? Até que ponto sua decisão tem peso em relação ao departamento de Recursos Humanos?

Gerson Barone: Primeiramente, os requisitos básicos para iniciar a carreira na área de design automobilístico são: o candidato deve ser graduado em universidade de desenho industrial ou transportation design, ter domínio na língua inglesa e/ou alemã e bom nível de conhecimento em softwares específicos para área de design de automóveis. Este profissional deve ser criativo, acabativo e detalhista, pró-ativo e bom vendedor de idéias. Habilidade em identificar as necessidades subjetivas do cliente. Identificar oportunidades, engenhar e rotular.

A minha decisão tem sim um grande peso, pois a área de recursos humanos tem como responsabilidade realizar a triagem dos candidatos mediante os quesitos mínimos que o cargo exige e negociar salário e eu como gestor analiso o potencial/habilidades desses talentos onde a decisão/contratação final é de minha responsabilidade.

 

DesignBrasil: O Fox é um conhecido case de sucesso em design. Se o senhor tivesse que citar apenas uma contribuição decisiva do Design & Package da VW Brasil para esse êxito, qual ela seria e por quê?

Gerson Barone: Escolher apenas uma é tarefa difícil, pois existem várias contribuições de peso do nosso departamento para o sucesso deste veículo. Vamos dizer que o Fox foi criado e desenvolvido levando-se em conta principalmente as necessidades da família brasileira. Seu poder aquisitivo, necessidades ergonômicas, clima, cultura e os contrastes do ambiente do país. E esta filosofia teve origem no departamento de Design.

 

DesignBrasil: A quantos projetos o Design & Package se dedica durante um ano, entre novos modelos e acessórios?

Gerson Barone: Para se ter uma idéia em 2005 trabalhamos em cinco grandes projetos.

 

DesignBrasil: A simples observação do dia-a-dia dos usuários dos automóveis contribui para que o senhor e sua equipe tenham novas idéias e solucionem problemas? Poderia citar alguns exemplos?

Gerson Barone: Sim. O design de certa forma é um oportunista. Ele tem a capacidade de identificar as necessidades subjetivas do cliente e agrupá-las num produto de boa relação custo-benefício. O Fox é um veículo que uniu a boa posição de dirigir das MPVs modernas, espaço interno dos cinco ocupantes com 1,90 cm cada, versatilidade do porta malas devido ao banco traseiro deslizante, grande número de “porta trecos”, uso de materiais que facilitam a limpeza e externamente é um veículo compacto para os grandes centros (grande por dentro e pequeno por fora).

Fox – Design até nos botões do ar-condicionado, garantindo maior racionalização das funções

Fox – Amplo porta-malas comporta de 260 litros até 353 litros, dependendo do ajuste do banco