História animada em quadrinhos

Por Bruno Porto

Nos últimos tempos, os Deuses das Adaptações de Quadrinhos Para Filmes têm sorrido para os humildes mortais chegados a uma nerdice. As bem sucedidas bilheterias dos longametragens do Homem-Aranha, X-Men, Quarteto Fantástico e outros equilibram os fracassos de micos como Motoqueiro Fantasma, Demolidor, Elektra, Hellblazer e garantem sinal verde para as tão aguardadas versões em carne e osso de Speed Racer, Watchmen, Homem de Ferro e Tintim (em trilogia produzida por Steven Spielberg), assim como para sequências de Hellboy, Batman (em nova franquia), Superman e Hulk (com cenas filmadas no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro). Depois de permitir que Robert Rodriguez realizasse seus 300 de Esparta e Sin City, Frank Miller vem aí dirigindo The Spirit de Will Eisner (para apagar a lembrança de uma produção picareta co-lo-ri-da, onde é que já se viu?!?!? para a televisão nos anos 1980) e duas continuações de Sin City. Na Europa, temos Gérard Depardieu assumindo pela terceira o gaulês Obelix em Astérix nos Jogos Olimpícos e uma surpreendentemente fiel versão para Mortadelo & Salaminho. No Brasil, nosso maldito Lourenço Mutarelli foi adaptado em O cheiro do ralo, e o seu “O dobro de cinco” está em pré-produção.

Em animação, então, nem se fala. Ficando só na seara brasileira, temos a constância das produções de Maurício de Souza, cada vez melhores, e de Otto Guerra que depois de adaptar As Cobras de Luis Fernando Veríssimo, Rock & Hudson de Adão Iturrusgarai e Wood&Stock de Angeli, parte para os Piratas de Laerte. Isso sem falar na produção autoral e comercial da Toscographics de Allan Sieber.

No meio desta animada (com trocadilho) festa, uma recente adaptação me chamou a atenção pelo formato, pelo uso do veículo, pela linguagem enfim, pelo design, no sentido de solução:

A Fundação Roberto Marinho está adaptando para o canal Futura a graphic novel D. João Carioca – A corte portuguesa chega ao Brasil (1808-1821) em uma minisérie de 12 episódios chamada Dom João no Brasil. O àlbum em quadrinhos tem desenhos e roteiro do ilustrador paulista Spacca com base em pesquisas dele e da historiadora Lilia Moritz Schwarcz para a Cia das Letras. Os episódios, com duração média de cinco minutos cada, estão indo ao ar aos sábados, com reapresentações no domingo, desde o início de março.

O livro de 96 páginas foi lançado no início do ano por ocasião das celebrações dos bicentenário da mudança da família Real ao Brasil. A editora já publicara em 2006 a premiada Santô e os pais da aviação, onde Spacca realizava o sonho pessoal de contar a vida de Alberto Santos Dumont. Mais do que uma biografia em quadrinhos do primeiro homem a voar em um aparelho mais pesado que o ar, Santô é um completíssimo relato das diversas tentativas de vôo realizadas paralelamente as do brasileiro. A obra que merecidamente levou três prêmios HQMix (nas categorias Desenhista Nacional, Edição Especial Nacional e Roteirista Nacional) e foi adaptada no ano seguinte para os palcos em Homem voa? pela companhia Catibrum Teatro de Bonecos foi a primeira empreitada de fôlego de Spacca nos quadrinhos. A segunda foi D. João Carioca, que levou um ano para ser produzida. Com a experiência ganha no primeiro livro, Spacca pode se asterixar mais: se Santô era em preto-e-branco, principalmente por uma questão de tempo, D. João ganhou cores em todos os (muitos) detalhes. Ambos os livros de Spacca são um primor de pesquisa, histórica e visual: nos dois projetos o ilustrador visitou museus e locações (Rio de Janeiro, Petrópolis e até Paris) para colher fotos únicas e desenhou aviões, carruagens e galeões baseados em modelos tridimensionais que construía.

Como Spacca tem grande experiência em animação e storyboards, quando Cristiana Bittencourt, coordenadora de programação do Futura, o sondou para uma adaptação animada, sua grande preocupação foi o prazo. Fazer uma versão em animação tradicional (mesmo com muita CGI) daria uma trabalheira enorme que seguramente faria com que o programa perdesse a onda dos festejos reais. Sem falar no custo, é claro.

A solução achada pela equipe o diretor e roteirista André Loureiro, os designers/animadores Stânio Soares, Robledo Guerra e Victor Marcello, sob a supervisão artística de João Alegria foi fazer uma versão não apenas da história de D.João, mas do livro D.João. E foi aí que o projeto (me) ganhou: ao respeitar e abraçar o objeto livro, a adaptação se faz única, mesmo se valendo de recursos não de todo inéditos.

Desde a abertura, a câmera passeia pelas páginas da publicação, que são folheadas a medida que são lidas, e pelos quadrinhos das páginas. Quadros surgem dentro dos quadros originais, trazendo detalhes e guiando o olhar do espectador, que diferente do do leitor, não possui muita autonomia. A trilha sonora complementa a experiência da narrativa com o que de melhor os desenhos animados podem oferecer. Os personagens possuem voz, porém seus lábios não se movem como os dos desenhos animados. Só produzi um material extra que chamamos de kit-boquinhas, conta Spacca, para animar o sincronismo labial dos personagens no final dos capítulos, quando sempre aparece um numa moldura para encerrar. O livro é percebido através das suas páginas, quadrinhos e elementos gráficos (margens brancas e legendas como LISBOA, 1807), que estão visíveis o tempo todo, embora isso não atrapalhe em nada a condução da narrativa.

Dá para assistir o primeiro capítulo da série a partir deste link:
Como mencionei acima, a utilização de elementos das histórias em quadrinhos em outras mídias não é exatamente uma novidade. Nos anos 1960, a Pop Art de Roy Lichenstein se valia das retículas de impressão dos gibis e o seriado televisivo do Batman, das suas onomatopéias. As aberturas dos dois seriados da Mulher Maravilha dos anos 1970 faziam uso das molduras dos quadros (ou espaço brancos) ao apresentar os personagens, e o desenho animado dos Superamigos tornou famosa a frase Enquanto isso, na Sala de Justiça, um texto típico de legendas das hqs. Depois da Mulher Maravilha, o uso de páginas de revistas em quadrinhos pôde ser observado tanto nos créditos iniciais dos filmes trash do Monstro do Pântano dos anos 1980 até a bela vinheta de abertura dos filmes da Marvel (www.youtube.com/watch?v=ZmfiIqzdIbM) criada pelo designer Kyle Cooper, passando pela identidade visual do documentário Crumb (1994) e da semificção American Splendor (2003).

Falando em documentários e Dom João é baseado em fatos reais (sem trocadilho) , o passear da câmera por imagens estáticas é característica do gênero. Até mesmo o desfocar de elementos de fotografias e ilustrações para dar a ilusão de diferentes planos, não é nenhuma novidade: imediatamente me veio a mente o brilhante trabalho de edição e efeitos do documentário The kid stays in the pictures (O Show não pode parar, 2002). O uso de trilha e efeitos sonoros acoplados a estes recursos para narrar quadrinhos já era usado na série de documentários Profissão Cartunista, da produtora carioca Scriptorium, desde o primeiro biografado, Will Eisner, em 1999. O documentário em três partes que ganhou o HQMix 2000 na categoria Melhor adaptação de quadrinhos para outro veículo teve sequências com Jerry Robinson (criador do Coringa e Robin), Henfil (HQMix 2002 na mesma categoria) e Ziraldo.

No entanto, o que diferencia a série do Futura, e a torna única, dos exemplos acima é que geralmente referências gráficas e conceituais de hq são usadas quando a origem do tema do filme, série, documentário ou vinheta provém das histórias em quadrinhos. O que não é realmente o objetivo de Dom João no Brasil: aqui, a trajetória da Família Real é o ponto de origem e de interesse. Mas ao assumir a metalinguagem dos quadrinhos, estes deixam de ser suporte e são elevados a posição de Objeto da série.

Parafraseando Magritte, Dom João do Brasil não é uma série animada sobre a trajetória da Família Real no Brasil: é o primeiro livro de História em quadrinhos sobre a trajetória da Família Real no Brasil animado.

E que venha logo o DVD!