Insight Criativo e a Imaginação

Por Marcelo Alessandro Fernandes

Imagem: Valmir Singh

A inovação entrou definitivamente na agenda do executivo brasileiro. Isso tem acontecido, sobretudo, devido à influência do design thinking, movimento originário da Ideo, que traz princípios do design como base para o desenvolvimento de estratégias inovadoras de negócio.

Acredito que isso por si só foi um grande avanço. Há cerca de 15 anos, a palavra criação não era sequer mencionada nas organizações. As ações corporativas partiam sempre de algum modelo de referência existente.

Exemplos de empresas inovadoras ainda não tinham caído no domínio público. A Apple estava retomando sua atuação inspiradora através do genial Steve Jobs.

Mas como toda prática que acaba sendo rapidamente difundida no mercado, acredito que existam pontos importantes ainda não discutidos, se tivermos em mente que, de lá pra cá, a inovação passou a ser percebida como uma necessidade a ser viabilizada pelas organizações.

Num primeiro momento, as organizações procuraram formas familiares de lidar e interagir com seus problemas de forma inovadora, preferindo a sistematização do processo de desenho de soluções.

Naquele momento, não houve um grande questionamento referente à necessidade de se buscar formas de desenvolvimento de uma mentalidade mais criativa e inovadora nos negócios.

O mercado já começava a reconhecer e buscar talentos criativos. Apresentar-se como porta voz da inovação, gerava percepções positivas. Mas isso nem sempre fazia com que tivéssemos concepções realmente originais de negócio.

Com a prática consultiva, percebi, entretanto, que o resultado e o tipo de ideias geradas por essas práticas possuíam um fundo comum, independente do grupo e do problema em foco.

Algo fazia com que os grupos lançassem ideias que se assemelhassem a modelos de empresas inovadoras bem sucedidas, principalmente quando este modelo era inspirado por empresas de tecnologia. Os grupos se ocupavam mais em parecer inovadores que criar livremente.

Nesse momento sempre me perguntava o que acontecia para obtermos ideias tão pouco expressivas e o que isto de fato significava, já que estávamos atentos a todos os pormenores que as metodologias preconizavam.

Passei a entender que para além da aplicação cuidadosa de metodologias, estava no fundo lidando com a imaginação humana em toda a sua potencialidade realizadora. Na medida em que evoluía nessa direção, passei a compreender que a imaginação podia ser desenvolvida e aprimorada, levando a um alargamento dos horizontes e potenciais das pessoas.

Para tanto, é importante entendermos que o insight criativo não deve ser buscado como resultado da sistematização, ainda que esta sistematização seja amparada por princípios de descoberta. Isso é uma falsa compreensão do fenômeno!

A criação vem de um processo dinâmico e complexo que leva a mente humana a imaginar uma resposta nova. Esse dinamismo criativo deve nos conduzir para além dos caminhos anteriormente trilhados, ainda que estes tenham se mostrado bem sucedidos.

Isso porque, entre a primeira percepção, até chegarmos ao momento de Eureka, temos uma infinidade de pensamentos e padrões de pensamento, que poderão se desenvolver em novas direções, e que, em última análise, não podem ser antecipadas ou previstas.

O campo da criatividade é mais amplo e multiforme do que podemos esperar.

Acredito que pouco espaço se deu para que entendamos que a imaginação no fim das contas é o que realmente importa.

No desdobramento imaginativo, novos dados são criados na mente ativa, permitindo criação de novas sínteses que não se apoiam na experiência precedente. Esse processo dinâmico possui um caráter generativo e positivo. É a fonte primária pelas quais novas formas de pensar venham a surgir.

Nesse sentido, o insight criativo é resultante da imaginação em movimento, que dentro de uma avaliação mais ampla, gera os caminhos possíveis, interage e cria novas realidades.

Se passarmos a aceitar isso, que a resposta criativa é resultado do desenvolvimento da nossa imaginação, deveríamos nos ocupar em entender como levar a imaginação ao seu maior esplendor.

Ao invés disso percebo, sobretudo, uma tentativa de justificar formas inovadoras de pensar, valendo-se de uma pesquisa significativa da realidade de nossos clientes e da experimentação controlada de novos produtos e serviços.

De uma maneira muito fundamental, imaginar novos mundos significa negar a realidade imediata e acessível por todos e apostar na capacidade subjetiva dos indivíduos. E esse tipo de aposta é ainda estranha no mundo corporativo.

Por conta disso, creio que o design thinking ampara a sua perspectiva numa espécie de engenharia reversa da inovação. Partindo da pesquisa de como as soluções vieram a se tornar sucesso de mercado, buscou criar formas para fazer as pessoas enxergarem mais, ao invés de imaginarem mais e diferentemente.

Evidentemente que muitas ideias surgirão, mas creio que muitas delas não suscitarão novas crenças nos grupos e líderes e por causa disso a transformação não vem.

Pense nisso, na próxima vez que aquela dinâmica criativa não funcionar do jeito que você esperava, talvez não tenha faltado empenho na aplicação da metodologia, talvez tenha faltado um despertar genuíno para a imaginação.