Jackson Alves conta como foi o processo de criação da fonte Bispo

Por Centro Brasil Design

Jackson Alves é designer gráfico e professor. Sempre desenhou e um de seus sonhos era trabalhar como ilustador no estúdio do Mauricio de Souza. Aos 17 anos começou a trabalhar com desenho arquitetônico. Por sugestão de um cliente, desistiu de estudar arquitetura e cursou design gráfico. Há dois anos dedica-se à tipografia. A fonte Bispo é resultado de seu interesse por letras e caligrafia. 

A fonte Bispo demorou cerca de dois meses para ficar pronta.

Design Brasil: Bispo é a sua primeira fonte tipográfica. O que te levou a desenvolvê-la?

Jackson Alves: A leitura de alguns livros de tipografia me despertou uma grande paixão por essa área, que me levou a estudar ainda mais o tema, inclusive a estudar caligrafia. Eu já vinha desenhando letras sem compromisso e a união disso tudo me incentivou a criar a Bispo com a ideia de tentar trazer um pouco da beleza da caligrafia para a tipografia, do meu jeito.

Design Brsail: Como foi o processo de criação, quanto tempo levou? Quais os desdobramentos de uma criação como esta? O retorno financeiro é satisfatório?

Jackson Alves: Projetar uma fonte não é uma tarefa nada fácil, é necessário muita dedicação. Desenhar um alfabeto é bem diferente de projetar uma fonte porque no projeto da fonte além de desenhar o alfabeto básico, é necessário dezenas de outros glifos – a Bispo tem 296 glifos ou caracteres – e, ao fim, fazer tudo funcionar sistematicamente para aceitar os comandos do teclado.

A Bispo levou cerca de dois meses, sem contar  tempo que levei para evoluir naquele estilo caligráfico. Existem famílias tipográficas que levam anos projetando. É necessário ter uma ideia inicial sobre como será o desenho da letra, esboçar em papel todas as letras e depois vetorizar uma a uma. É muito comum alterar o desenho das letras depois de vetorizá-las para adaptar uma coisa ou outra.

Eu ainda não sei sobre o retorno financeiro de uma fonte porque a Bispo é gratuita – embora, indiretamente, ela me de retorno, já que tem atraído alguns clientes ao redor do mundo na criação de marcas, cartazes e outras peças tipográficas com desenho de letras exclusivas. Estou desenvolvendo a versão “Pro” dela que será para venda, mas ainda tem muito trabalho pela frente.

O “type design” não é uma coisa muito comum no Brasil, mas conheço algumas pessoas que vivem exclusivamente disto, inclusive um amigo meu de Curitiba, o Eduílson. Pelo mundo, tem bastante gente que consegue viver bem disso.

Design Brasil: Quando e como você percebeu a sua vocação para a tipografia?

Jackson Alves: Eu sempre desenhei, quando criança até sonhava em trabalhar com o Maurício de Souza. Durante a faculdade eu tinha alguns amigos e professores que adoravam tipografia, eu só fui descobrir mesmo essa área há alguns anos, quando um destes amigos me indicou um livro sobre o tema e, depois de ler este livro, eu não consegui mais parar de continuar estudando o tema. Então percebi que poderia agrupar minhas habilidades da ilustração à tipografia e, desde então, venho “desenhando letras”.

Design Brasil: Qual é sua atuação dentro do design gráfico? Alguma preferência na atuação profissional?

Jackson Alves: Atualmente, eu atuo como designer num escritório de design no horário comercial, ministro aulas de computação gráfica algumas noites e aos sábados, e faço meus projetos no tempo que sobra. Na agência fazemos de tudo um pouco, desde marcas, editoriais a ambientação. Meus projetos particulares que faço como freelancer são apenas ligados à tipografia.

A minha área de atuação preferida no design gráfico sempre foi a criação de marcas e o design editorial, não por acaso as áreas que mais necessitam da tipografia – se é que tem alguma área que não necessite.

Design Brasil: Você também é professor. O que você acredita ser importante passar para os futuros profissionais da área?

Jackson Alves: O que eu tento passar aos meus alunos é que o amor pela profissão é fundamental, pois quando você é apaixonado pela profissão, acaba tendo naturalmente o interesse em sempre estar estudando e se aprofundando, em estar sempre produzindo mais e mais. Quando me perguntam qual é a minha profissão eu falo “designer gráfico, com foco em type design” e quando perguntam qual o meu hobby eu falo “desenhar letras”.

Mostro também a importância do portfólio e de não ter vergonha de mostrar o seu trabalho.  Dentro de minha área de atuação no design, tento passar aos meus alunos a importância da tipografia no design, como as criações ganham personalidade por meio da escolha da fonte certa, além da importância de investir nisso.

Design Brasil: Quais projetos você considera como os melhores da sua carreira?

Jackson Alves: A Bispo é um dos projetos nos quais eu investi mais tempo, mas não creio que seja o melhor, eu penso que o melhor projeto sempre será aquele que farei amanhã, estamos sempre aprendendo e melhorando.

Design Brasil: Pretende criar outras fontes tipográficas? Há alguma demanda imediata?

Jackson Alves: Tenho, em primeiro momento, concluir a Bispo Pro – o projeto é dobrar o número de glifos – e continuar fazendo novas fontes. A maior parte de meus projetos hoje são o que chamo de “custom type”, que é o desenho de letras exclusivas para marcas, cartazes, livros ou revistas. A cada novo projeto de custom type tenho uma ideia para uma nova fonte, então tem muita coisa que pode vir por aí.

Para ver mais trabalhos do designer ou entrar em contato, acesse o site: www.jacksonalves.com