Jair de Souza

Por Editor DesignBrasil

Jair de Souza, diretor de uma empresa de design que leva seu nome, tem uma relevante atuação na cena cultural do país. Já trabalhou em projetos especiais de comunicação, multimidia, internet, criação de programas para televisão, cenografia, criação de aberturas para filmes/TV, projetos de sinalização e editoriais. Um dos seus trabalhos mais visíveis está no Pacaembu, em São Paulo, no Museu do Futebol, onde ele assina a direção de arte multimídia, a identidade visual, a sinalização e a direção de vídeos. 

Formado em Comunicação visual pela École Nationalle Superiéure des Arts Decoratifs, a ENSAD de Paris, com certificado em Cinema e Vídeo pelo Musèe de L’homme/Sorbonne Paris, Jair de Souza trabalhou na França como diretor de arte em várias revistas e jornais, criou cartazes para grandes concertos e foi o responsável pelo projeto gráfico da inauguração da Biblioteca de multimídia do Centro Georges Pompidou – Beaubourg – Paris.No Brasil atuou como diretor de arte em agências como a Artplan, Esquire, Lintas e J.W.Thompson.

Mais recentemente, desenvolveu projetos como o NAVE, o Núcleo Avançado em Educação, onde fez a ambientação e a identidade visual geral dos quatro andares do prédio. Rio de Janeiro 2008. Também é curador. Fez esse trabalho para a mostra “Isso é bossa nova”, exposição comemorativa dos 50 anos da bossa nova no Sesc Flamengo, no Rio de Janeiro, em 2008, assinando ainda a cenografia e o design visual.

Um de seus trabalhos mais vistos foi a instalação multimídia/sensorial Auto-Retrato, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio, em 2007, com cerca de 300.000 visitantes.

O DesignBrasil conversou por e-mail com Jair de Souza. Confira a entrevista.

DesignBrasil – Ao se formar, como foi seu período como diretor de arte na França? Em que meios o senhor trabalhou?Jair de Souza – Não esperei me formar para começar a trabalhar. É importante dizer que ainda no Brasil, na metade do primeiro ano da Escola de Belas Artes aqui no Rio, eu e mais dois amigos ganhamos um importante concurso de marca. Com isso saí de casa, montamos um estúdio de criação e partimos direto para a profissionalização antes de completar o primeiro ano de escola. Assumimos o mercado, fizemos exposições, marcas, cartazes etc… Além disso encarava minha vida na Escola como um álibi: qualquer trabalho proposto por qualquer disciplina, até mesmo desenho de anatomia, eu revertia para uma solução de meu próprio interesse estético e profissional. Criava peças gráficas bem acabadas como se fossem pra valer e não como exercício escolar. Eu precisava viver, com enorme urgência, do meu trabalho! Quando tranquei matrícula no 1o semestre do 2o ano, eu tinha alguns trabalhos que me orgulhavam muito. Portanto, cheguei na França com um portfolio que me dava segurança e uma grande cara de pau para me apresentar em qualquer situação interessante que se apresentasse. Vivi 10 anos em Paris. Fora os primeiros dez meses iniciais, nos quais fiz N bicos de emigrante recém chegado, trabalhei como designer, cenógrafo e diretor de arte o tempo todo. Fiz capas de livros, cartazes para grandes shows e concertos de música pop, direção de arte para revistas, projetos para exposições…batalhei muito, tive sorte e reconhecimento. 

DesignBrasil – O que levou o senhor a estudar Comunicação Visual pela ENSAD – École Nationalle Superiéure des Arts Decoratifs, em Paris?Jair de Souza – Morava e trabalhava, como diretor de arte e designer, em Paris há 6 anos quando, depois de ter estudado cinema, cromatologia e antropologia, resolvi concluir meu curso de design – tinha trancado matrícula na UFRJ no 2o ano do curso de comunicação visual. A ENSAD era a melhor escola da França e uma das cinco melhores da Europa. Passei por uma junta de cinco professores e, unicamente através do meu portfolio (artístico e profissional), obtive o direito de entrar no 3o ano.  Fato inédito, pois esse tipo de admissão só é permitido para alunos formados em Arquitetura e Belas Artes, na França.

Jair de Souza

DesignBrasil – Como surgiu o convite para assinar o projeto gráfico da inauguração da Biblioteca de multimídia do Centro Georges Pompidou – Beaubourg, em Paris?Jair de Souza – Tinha uma amiga designer brasileira, a Deda, que trabalhava em um escritório de arquitetura e projetos especiais que me indicou para esse trabalho. Através do meu portfolio fui selecionado e com isso pude conceber e realizar o design visual dessa grande exposição. Gosto tanto desse trabalho que o mantenho até hoje em nossa apresentação. Foi um presente que marcou minha vida. Antes disso tinha assinado o design gráfico de duas grandes exposições da indústria francesa em Pequim e Moscou.  Um  professor de um curso de artes gráficas, tipo Senai, que fiz enquanto não me decidia o que fazer da minha vida logo que cheguei, me indicou e a empresa de arquitetura responsável por grandes exposições internacionais, me contratou.

DesignBrasil – Em sua volta ao Brasil, por que trabalhou no mercado publicitário? E que trabalhos o senhor destacaria nas agências por que passou? (Artplan, Esquire, Lintas, J.W.Thompson).Jair de Souza – Retornei ao Brasil com a missão de realizar, com um coletivo de cinema que montamos em Paris, através de uma produção alemã, 3 filmes na Baixada Fluminense com foco nas questões sociais e políticas da população local. Chegando direto de Paris, foi uma imersão total num outro mundo. Experiência essencial. Morei um ano e meio num lugar chamado Shangrilá-Rosa perto de Nova Iguaçu. Realizamos 3 fimes e ficamos totalmente duros. Uma amiga, dona de uma importante galeria de arte em São Paulo, ao ver meus trabalhos e sabendo da minha dureza, me disse, “por que você não vai numa agência”? Eu não conhecia ninguém e nunca tinha pensado em trabalhar em propaganda. Me apresentou ao Francesc Petit da DPZ, que na época era a melhor agência do Brasil. Ele quis me contratar na hora e me ofereceu um salário alucinante. Fiquei tonto, tive medo… e pedi um tempo, pois era uma 5a e na 2a eu estaria no Rio me apresentando à MPM que era a maior agência do Brasil. Na 2a me apresentei e fui contratado na hora. Liguei para o Petit e agradeci a o convite…Nunca vou saber se foi certa ou errada  essa decisão, mas foi mais ou menos assim que aconteceu. Permaneci 14 anos como diretor de arte e de criação em grandes agências. Tive o prazer de trabalhar com equipes fantásticas. Fiz dupla com redatores fora de série; Líber Matteucci, Pedro Feyer, João Bosco, Nizan Guanaes, Cássio Faraco, Alexandre Machado. Realizamos campanhas para Pepsi, Skol, Esso, Bacardi, Rio Gráfica, Fleschman Royal, De Beers…Fui responsável pela direção de arte do histórico e primeiro Rock in Rio. A propaganda dá uma consistência conceitual e criativa que a formação do design, infelizmente, não aborda.

DesignBrasil – Ao receber o convite para desenvolver a direção de arte multimídia, identidade visual, sinalização e direção de vídeos para o Museu do Futebol, qual foi o conceito que norteou seu trabalho?Jair de Souza – O Design visual e a sinalização seguem o conceito expográfico e arquitetônico do Museu, que é de fazê-lo uma extensão da rua, através do discurso das sinalizações e códigos urbanos, industriais, dos materiais e dos elementos construtivos brutos, básicos e funcionais mas com uma certa ironia e bom humor na solução conceitual e estética dos ambientes assim como nos acabamentos depurados das chapas e telas metálicas, da arquitetura, do mobiliário, das cores, tipologia e soluções visuais através do desenho gráfico vetorial. Embora a pegada do Museu seja o Brasil, sua história e cultura, sempre fugimos de uma visão brasileirinha dos clichês tradicionais. Assim como fugimos das soluções texto legenda. Já a questão da direção de arte multimídia e dos vídeos é mais complexa, pois tínhamos pela frente o trabalho de realizar um museu com exatamente, ou praticamente, as mesmas imagens vistas e revistas mil vezes. Os grandes gols, as grandes jogadas, já estavam feitas…Apesar disso tínhamos a obrigação de encontrar as formas de surpreender e emocionar o público, até mesmo os apáticos ou os tarados por futebol. O Godard fala que “o que realmente conta é a maneira” é a forma que cada um tem de contar as suas histórias. Todo o tempo buscamos essa diferenciação na busca da nossa maneira, única. Tem um ambiente, por exemplo, a sala dos gols, no qual personalidades contam de forma afetiva o gol mais importante nas suas vidas. Pois bem, são gols super conhecidos. Como editá-los de forma diferente? Me lembrei das seqüências do genial Blowup do Michelangelo Antonioni, no qual um fotógrafo (David Hemmings) descobre ou imagina ter descoberto um assassinato através de uma série de ampliações de fotos tiradas a esmo num parque. Suas  idas e vindas nas imagens, praticamente as mesmas, nos retém boa parte do filme. Esse vai e vem, essa investigação visual, como um detetive da imagem foram meu ponto de partida, a pegada estética, que originou a formalização das 20 edições tão bem realizadas pelo Belisário França. A seqüência do Rui Castro relatando o gol do Rondinelli é fantástica, um gol com história, com revelações, voltas ao passado presente, como na reconstituição de um crime, a anatomia de um gol cheia de suspense visual. Só vendo. O museu tem ao todo seis horas de produção áudio visual, o equivalente a três longas metragens. Em todos os momentos o público se depara com as maneiras inéditas de narrarmos nossas histórias do futebol e do Brasil. 

 Museu do Futebol, em São Paulo.DesignBrasil – O senhor trabalhou em projetos de comunicação, multimídia, internet, criação de programas para televisão, cenografia, criação de aberturas para filmes/TV, projetos de sinalização e editoriais. O que essas experiências multidisplinares agregam para seus trabalhos como designer? E o que fato de ser designer agrega para os projetos em que lhe são exigidas outras competências?Jair de Souza – Vou responder ao contrário da sua pergunta, pois não são as realizações que agregam ao design. O design é que é fruto de uma série de vivências e conhecimentos pessoais. Daí resultam as experiências multidisciplinares. O designer deveria ser formado como um pensador multimídia, um pensador da humanidade. Acredito que o determinante é a história de cada um e o que cada um faz com essa história. Minha formação que começou com meu pai (vendo-o trabalhar, fabricando carrinhos de madeira, desenhando letras, fazendo n coisas com as mãos, sempre animado e de bom humor), passou pelo design, direção de arte em revistas, antropologia, cinema, e direção de arte em propaganda, me coloca numa situação que me dispõe a querer resolver qualquer assunto estético ou de comunicação. Tenho profundo envolvimento pela música, pela sonoridade dos espaços, pela arquitetura e pela questão da volumetria. Isso tudo, e muito mais, é design? Acho que sim. Sou um pensador de comunicação, um artista multimídia, sou um designer. Para mim design é um forte pensamento estético que traduz emoção e que comunica.

DesignBrasil – Em 2007, o senhor criou e projetou a instalação multimídia/sensorial da mostra Auto-retrato falado, exibida no Centro Cultural Banco do Brasil, e que atraiu 300.000 visitantes. O senhor atribui tamanho interesse a sua proposta, que instiga o espectador a fazer parte da obra? Como se dá essa interface com o público no seu trabalho?Jair de Souza – Meu projeto Auto Retrato-Falado (www.autoretratofalado.com.br) convida cada pessoa a entrar numa cabine e, diante de um monitor, realizar seu auto-retrato através de um software utilizado pelos orgãos de segurança, de reconhecimento de criminosos, o “retrato falado”.Cada pessoa tem 20 minutos para se construir através de milhares de elementos faciais- um grande banco de imagens com cabeças, bocas, narizes, olhos, cabelos etc, que construimos fotografando mais de 1000 pessoas aqui no Rio. É uma questão instigante: como serei capaz de me imaginar de me ver sem o espelho? Apenas através de minhas múltiplas e impalpáveis lembranças, fantasias e sublimações? Além disso, quem hoje em dia oferece a você 20 minutos, na proteção de uma cabine, para pensar apenas em si? Até mesmo o psicanalista muitas vezes não te dá esse tempo… Tudo o que faço é pensando no outro. O outro é um, são milhares ou milhões. Tanto numa instalação artística como numa exposição temática o principal objetivo é o envolvimento emocional de cada indivíduo exposto a uma experência inédita. Uma experiência cultural intensa e surpreendente.

DesignBrasil – Em um de seus trabalhos mais recentes, no NAVE (Núcleo avançado em educação), como foi o processo de desenvolvimento para chegar à solução para o espaço da Oi Futuro, cuja fachada agora conta com um sistema especial de iluminação e é envolvida por uma tela microperfurada que ganha uma nova arte a cada três meses? E por que o Nave demonstra que o ambiente também tem o poder de estimular e educar?Jair de Souza – As soluções nascem das necessidades e dos diferenciais contidos em cada situação. O NAVE – Núcleo Avançado em Educação – é uma escola estadual de ensino médio e um centro digital de convergência tecnológica onde os alunos, de baixa renda, experimentam e aprendem as mais avançadas tecnologias de comunicação envolvendo todas as mídias. Nosso desafio foi tornar esse ambiente externa e internamente tão inovador e dinâmico quanto sua proposta pedagógica. O objetivo do projeto é criar um espaço ousado e estimulante para os alunos, motivando-os a estudar, conviver e descobrir novas formas de comunicação. Minha intenção desde a primeira vez que conversei com a idealizadora do projeto, a Samara Werner – diretora do Oi Futuro, foi a de criar soluções dinâmicas, mutáveis e que fossem estimuladoras através do espaço e da estética. A solução da fachada corresponde ao desejo de passar essa dinâmica interior do NAVE, em que tudo muda o tempo todo obedecendo ao desenvolvimento das tecnologias. A cada três meses uma nova “pele” envolve a frente do prédio sem por isso eliminá-lo. A tela tem uma transparência, como uma camada onde a arquitetura art-decô permanece visível. Todas as  noites esse painel de quase 400m2, através um sistema de iluminação especial, se transforma na sensação de uma grande caixa de luz. O interior é ocupado por imensos murais plotados, com desenhos e grafismos, em ambientes de relacionamento onde o humano e o digital convivem numa atmosfera de bom humor. O resultado disso é uma ambiente estimulante, alegre e pacífico, onde os alunos se sentem orgulhosos, donos e recebedores de um espaço único no mundo.

 NAVE (Núcleo avançado em educação

DesignBrasil – O senhor já fez trabalhos diversos para exposições como “Isso é bossa nova”,”mycity.com.br”,  “Porto do Rio”, “Hiper”, entre outras. Comente sua participação nesses trabalhos. A cada um deles, qual era o maior desafio para ‘traduzir’ visualmente e cenograficamente o propósito do curador?Jair de Souza – Em vários desses projetos citados eu fui o curador, diretor de arte e designer. Nesse caso, que é o  ideal, o projeto visual/espacial, nasce e se transforma com o amadurecimento do propósito conceitual. No caso de haver um curador, não significa que o conceito chegue e permaneça fechado. Não trabalho para executar e sim para construir pensamento. Portanto a relação com o curador é sempre a melhor possível, pois com a minha participação, o projeto ganha outro olhar, uma nova vida e isso é bom pra todo mundo.

* Entrevista – Juan Saavedra