Janaína Ferreira

Por Editor DesignBrasil

“O que mais me chamou atenção na relação designer/indústria na Itália foi a intensa produção, a busca da inovação e o constante investimento em novas soluções e tecnologias”

A mostra itinerante Milano Made in Design corre o mundo. Depois de passar por Nova York, nos meses de maio e junho, a exposição chega no dia 21 de setembro a Toronto, no Canadá, onde permanece até novembro, para depois seguir para países como Índia e China. Um dos 120 projetos expostos na Milano made in Design, o Flex Viewer, tem co-autoria de uma brasileira. Ela é Janaína Ferreira.

Formada em Desenho Industrial pela UnB, a designer de 33 anos desenvolveu o projeto Flex Viewer em parceria com a israelense Michal Gherman, e com a colaboração da venezuelana Fernanda Valenzuela, durante o workshop Scuola Politecnica di Design di Milano & Microsoft Itália, entre 2001 e 2002.

Janaína fez pós-graduação na instituição de ensino milanesa. Permaneceu na Itália e desenvolveu diversos trabalhos de produto e gráfico para empresas e escritórios locais. Hoje, de volta ao Brasil, trabalha no Rio de Janeiro.

Confira a entrevista:

 

DesignBrasil: Qual o conceito e como foi o processo de desenvolvimento do projeto Flex Viewer, que integra a mostra itinerante Milano Made In Design?

Janaína Ferreira: Do papiro ao computador, a nossa capacidade de produzir e transmitir informação se ampliou de modo extraordinário. Mas onde o suporte de papel era flexível e facilmente enrolado, a visualização oferecida dos atuais monitores a tubo catódico permanece rígida e reduzida. Se os monitores a cristais líquidos são cada vez mais sutis, a produção industrial de displays flexíveis é ainda uma meta para muitos colossos do ICT.

Flexviewer segue uma estrada de um futuro próximo. É constituído de um monitor flexível (corrigindo através de um software específico capaz de reconhecer as curvas do monitor) e um touch pad que pode se tornar um teclado virtual. Estes elementos flexíveis são encaixados à unidade principal, o hardware, a única parte rígida. Os dois componentes flexíveis são modulares: podem ser unidas entre elas através de um sistema linear de encaixe. FlexViewer é dotado de uma caneta a infravermelho, adaptada a todas as superfícies, permitindo assim que seja usado somente o monitor e o módulo hardware, eliminando o teclado para uma maior compactação.

Flex Viewer

Flexviewer possui uma superfície fina e siliconica no seu revestimento resultando particularmente agradável tanto visivelmente quanto ao tato, além de garantir uma eficaz ação aderente (anti-deslize) durante o transporte. Unindo estes elementos, a flexibilidade física é associada a uma notável flexibilidade de uso. O projeto foi desenvolvido por mim e pela designer Michal Gherman (Israel) durante o Master Industrial Design, na Scuola Politecnica di Design, no workshop de projetação promovido pela escola em parceria com a Microsoft.

 

DesignBrasil: O sucesso desse projeto conceitual selecionado entre os cinco melhores projetos pelos docentes da Scuola Politecnica di Design e pela Microsoft teve que reflexo na sua carreira?

Janaína Ferreira: Após ter sido selecionado entre os cinco melhores do ano acadêmico, flexviewer participou do concurso Targa Boneto, durante o Smau, conceituada feira de design e tecnologia em Milão, onde foi exposto em 2002. Foi publicado em diversas revistas de design e tecnologia na Itália e outros países, inclusive na Rússia. Na época fui convidada a colaborar com o Studio Paolo Villa e posteriormente com certeza a sua repercussão, juntamente com a de outros meus projetos, favoreceu o meu ingresso nos demais studios como também no grupo de designers do Studio Sigla. No ano seguinte Flex Viewer também foi exposto no Salão do móvel 2003.

Mais recentemente, foi selecionado dentre os 120 objetos de design, selecionados pelo comitê curado por Gillo Dorfles, que compõem a mostra itinerante Milano:Made in Design. A mostra esteve em maio-junho/2006 na Milk Gallery em Nova Iorque e em Setembro estará em Toronto, partindo depois para Ásia.

Janaina Ferreira junto ao Flex Viewer, em uma exposição. O projeto foi exposto no Salone del Mobile de Milão, em 2003

 

DesignBrasil: Você fez um master em desenho industrial na Scuola Politecnica di Design. Em termos de aprendizado, que aspectos foram mais importantes no ensino da instituição que lhe são úteis no deu dia-a-dia?

Janaína Ferreira:

A experiência adquirida através do contato com ótimos professores, profissionais de design, que atuam na Europa e o exercício prático durante os workshops de projeto realizados juntamente com grandes empresas (no nosso ano acadêmico: a Microsoft, a Artemide- iluminação – e a Mascagni – móveis-) com a orientação dos professores/designers destas empresas me fizeram conhecer a atuação destes profissionais de design e várias realidades de empresas/industriais européias.

Esta aproximação me deu instrumentos que me orientam hoje na hora de propor e desenvolver novos projetos. Posso citar ainda o convívio com os colegas de master, designers vindos de diversos paises e de experiências diferentes, juntos, pensando os mesmos temas de projeto enriqueceram muito o meu modo de pensar as soluções. Eram trocas muito ricas desde o início na solução dos problemas até as apresentações finais dos projetos.

 

DesignBrasil: Após concluir o curso, você permaneceu na Itália. Como surgiu a oportunidade para trabalhar lá e em que escritórios você trabalhou?

Janaína Ferreira: Através de contatos a partir da escola e da exposição no Smau, recebi o convite para colaborar com o studio de product design: Paolo Villa, studio que desenvolve projetos de aparelhos eletrônicos para LG, McPerson, Promelit, Eutron entre outras. Paolo Villa é vencedor de algumas edições do prêmio SMAU.

Nos três anos seguintes trabalhei para outros dois studios. O Studio Marco Piva, estúdio de arquitetura e design que tem com principal demanda, projetos de hotéis de luxo, na Europa e Ásia, e design de mobiliário para empresas Italianas. Em seguida surgiu a oportunidade para trabalhar para o Studio & Partners, antigo studio DeLucchi, importante studio de design e arquitetura onde são desenvolvidos entre outros projetos, mobiliário para escritório, para a empresa Haworth (EUA), Iluminação técnica, para iGuzzini (Itália), Zumtobel (Alemanha) e ainda projetos de arquitetura. Lá segui projetos de mobiliário e sistemas para escritório para a Haworth e assumi os projetos de luminárias para a iGuzzini. Colaborei também como freelancer com o Studio Sigla de Milão, e com o Studio Rosa. Com o Studio Sigla participei de workshops para empresas italianas, inclusive após o meu retorno ao Brasil.

 

DesignBrasil: Quais foram os trabalhos mais interessantes que você desenvolveu na Itália?

Janaína Ferreira: O próprio FlexViewer, o projeto de mobiliário para escritório Mio, (também publicado em revistas do setor). Durante a colaboração com o Studio & Partners o projeto de luminárias para iGuzzini, uma das maiores empresas Iluminação da Itália. Projeto de video-animação KonoPizza, para o evento Street Dining Design, realizado na Triennale di Milano, durante o Salão do Móvel de 2004. O projeto de decoração de objetos de mesa em vidro (foto) para a Bormioli Rocco a convite do Studio Sigla de Milão e o projeto de taças de café para L´espresso. O projeto de mobiliário pára a empresa Fratelli Broffi realizado em parceria com o Studio Rosa, Milão.

 

DesignBrasil: O que chamou mais a sua atenção na relação designer/indústria na Itália?

Janaína Ferreira: James Irvine, designer inglês residente na Itália, em uma entrevista onde opina sobre o assunto, disse: “…Na verdade muitas indústrias italianas convidam designers estrangeiros porque são os melhores produtores do mundo”.

A Itália é o primeiro país exportador e segundo maior produtor de móveis do mundo. Existe uma preocupação na busca da qualidade de mão de obra, inovação tecnológica constante, e uma forte atitude criativa voltada para o mercado. É um país que exporta design e know how, o maior evento do design, o salão do móvel realizado em Milão reúne cerca 2.200 expositores, outros 500 jovens designers e 22 escolas de design, num total de 2700 presenças destas 711 estrangeiras de 49 paises e cerca de 220.000 visitantes.

Num cenário assim o que mais me chamou a atenção na relação designer/Industria foi esta intensa produção, a busca da inovação e este constante investimento em novas soluções e tecnologias. Mesmo que, alguns experientes designers lamentem, que hoje a Industria não experimenta tanto como 30-40 anos atrás.Foto acima: Janaína no Salão do Móvel de Milão em 2004, no stand e ao lado de produtos projetados pelo Studio Marco Piva (empresa onde trabalhou duante um ano) para Rapsel, empresa de objetos para banheiro.

 

DesignBrasil: Você voltou ao Brasil. Tendo em vista sua experiência na Itália, quais são as principais dificuldades para o designer de produto exercer a sua profissão aqui?

Janaína Ferreira: A maior dificuldade encontrada na minha opinião se dá na relação indústria design. Existe esta resistência de muitos setores da indústria investirem em design, novas tecnologias e entenderem a sua importância. Mesmo assim, a realidade do design no Brasil, hoje, em relação há 15 anos, é muito mais favorável a iniciativas individuais, à abertura de novos escritórios e isso é muito importante.

Estes estúdios têm encontrado um certo espaço dentro de algumas empresas e da indústria e, desta forma, tem aberto caminhos para o design de produtos em diferentes setores. É uma relação a ser muito trabalhada ainda por nós, profissionais da área. Vemos empresas de grande porte que, às vezes, possuem uma equipe de desenho interna, mas muitas vezes sem contar com nenhum profissional formado em desenho industrial. Em contrapartida, vemos empresas se destacando por serem empresas com sua imagem ligada ao design, a novas idéias, empresas que decidiram investir em design.

Nós temos ótimos profissionais trabalhando dentro e fora do pais mas quando se fala em design brasileiro lá fora são lembrados uns poucos nomes. Podemos conquistar nosso espaço, experimentar mais, inovar produzir coisas novas sem ficarmos presos ao que é produzido na Europa. E, para isso, a relação entre as empresas/industria e o designer deve crescer, abrindo mais canais de comunicação.

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