Levi Girardi fala sobre a nova Questto|Nó

Por Centro Brasil Design

Depois de anunciar oficialmente sua fusão em outubro deste ano, a Questto Design e a Nódesign se tornaram a Questto|Nó, em uma iniciativa corajosa e incomum no mercado de design brasileiro. Os dois grandes escritórios perceberam uma complementaridade natural, conforme conta Levi Girardi, um dos sócios da nova empresa, nesta entrevista exclusiva ao DesignBrasil.  

O processo durou mais de um ano, entre planejamento e prática, a fim de criar um escritório de design com abrangência mais ampla no escopo de clientes e trabalhos. “Sem dúvida alguma, o mais complexo é a unificação da forma de se ver o design”, afirma Levi sobre a fusão.

O designer e empresário ainda destaca que o momento atual mostra uma concorrência internacional em terras brasileiras, e que isto foi uma motivação para o surgimento da Questto|Nó. “Alguns clientes dão importância para um trabalho mais amplo, ligado a toda a estratégia de design e marca das empresas, e que nossas empresas, na média, não estavam preparadas para atender”, conta ele sobre os fatores que motivaram e impulsionaram o desafio de criar um novo escritório de design, a partir de dois já existentes e estabelecidos no mercado.

Confira abaixo a íntegra da entrevista sobre o processo de fusão e o surgimento da Questto|Nó.

 

DesignBrasil: Você conta que a Questto e a Nó naturalmente se complementam para se fortalecer em relação ao mercado. Como foi percebido este potencial de parceria? Em que pontos as duas empresas agregam uma à outra?Levi Girardi: Apesar de as duas empresas se colocarem como escritórios de design de produtos, a Questto sempre teve um perfil mais técnico, acostumado a projetar produtos complexos para mercados bastante distintos, como automotivo, eletrônicos e área médica. Já a Nó Design vinha de projetos mais conceituais, atuando mais fortemente na parte de pesquisa de design, além de ter um bom portfólio tanto em embalagens como em mobiliário, duas áreas típicas do design em que a Questto não atuava. Havia então uma complementaridade, tanto em mercado como em escopo. 

DB: Como surgiu a ideia de realizar uma fusão de fato?Levi: Já há algum tempo havia uma admiração mútua, como, aliás, temos por vários outros escritórios concorrentes. O fato é que no caso da Nó e da Questto havia uma predisposição dos sócios das duas empresas em buscar um crescimento de participação no mercado. Este crescimento pode ser dar de várias formas, desde uma ampliação interna de capacidade produtiva e um esforço de vendas, passando pela aquisição de outras empresas ou, como foi feito, por uma fusão com um concorrente. Como há um consenso que o mercado de design no Brasil está num ótimo momento e escritórios internacionais estão chegando por aqui, a questão ‘tempo’ foi um fator importante: ampliar mercado internamente e principalmente ampliar o escopo de trabalho são tarefas que exigem uma curva de implantação e aprendizagem. Uma fusão complementar, como foi o caso, em tese é mais rápida, mesmo com todos os desafios que cercam uma ação como esta. 

DB: E como foi este processo todo? Quais desafios tiveram de ser solucionados ao unir duas empresas independentes?Levi: Foi um processo longo e bem planejado. Vários pontos precisavam ser discutidos, desde participações de cada empresa no novo negócio, contratos com clientes existentes, área física etc. Mas sem dúvida alguma o mais complexo é a unificação da forma de se ver o design. Unir culturas diferentes de trabalho, de um lado uma visão mais pragmática do assunto, que é o caso da Questto, a uma visão mais humana no caso da Nó, e continuar representando uma verdade como discurso para o mercado e para nós mesmos. Como vantagem, não precisamos deixar de atender nenhum cliente, pois não havia empresas concorrentes nas carteiras das duas empresas. 

DB: Você mencionou a contratação de empresas de fora do país como um alerta para a necessidade de melhorar o porte e estrutura das empresas de design nacionais.Levi: Já há algum tempo estávamos percebendo que empresas internacionais estavam prospectando nosso mercado. Depois projetos destas empresas começaram a aparecer, como os casos da Embraer, PADO e Havaianas, entre outras. Chegou um momento em que estávamos concorrendo diretamente com estas empresas para projetos no Brasil. Isto é um ótimo sinal, pois mostra o amadurecimento no nosso mercado para o design, mas também deixou claro que alguns clientes davam importância para um trabalho mais amplo, ligado a toda a estratégia de design e marca das empresas, e que nossas empresas, na média, não estavam preparadas para atender. Percebemos então o desafio: como chegar neste nível num tempo relativamente curto. 

DB: Inovação é definitivamente uma das ‘palavras do momento’. E você conta que, ao buscar inovação para um cliente, não se sabe ao certo qual será a estratégia final – um produto, um serviço, etc. Como este processo muda/melhora com a fusão das empresas?Levi: Acho que este processo melhora sensivelmente, pois no caso da Questto não estávamos preparados para indicar a um cliente que o que ele precisava eventualmente não era um produto, mas outra coisa. Vivíamos de projetar produtos e ainda temos nesta atividade um dos nossos diferenciais. Nossa engenharia é capaz de projetar um veículo completo, como já fizemos duas vezes. Mas assuntos mais novos, como Design de Serviços, por exemplo, ainda era um mistério para nós. Temos a humildade de assumir isto. É neste caso que a visão da Nó faz toda a diferença. Hoje temos a segurança de propor caminhos que não necessariamente passem por um novo produto, mas resultem em outras ações que podemos internamente também ajudar a implantar. 

DB: Em julho, a Questto e a Nó saíram de seus espaços para se mudar para um novo espaço: o da Questto Nó. Como foi esta mudança estrutural na prática?Levi: Houve no processo a busca por um novo espaço físico, pois tanto a Questto como a Nó deixaram seus antigos escritórios. Isto foi um grande motivador, pois construímos um espaço totalmente voltado para a criatividade, preparado para uma equipe maior e com recursos que não tínhamos antes, como acesso independente das pessoas de fora do escritório sem interferir no estúdio em si por conta da confidencialidade, salas de reunião preparadas para conferências, áreas de convivência e inclusive uma oficina de mockups e protótipos que está sendo finalizada.  

DB: Como foi este processo em relação às equipes?Levi: Também precisamos cuidar disso com muita atenção. Tínhamos (e temos) formas diferentes de atuar como designers. O que procuramos foi preservar as qualidades das equipes e fazer com que eventuais deficiências fossem supridas pela outra. É um grande desafio, pois lidamos com profissionais muito experientes e competentes, que em dado momento precisam entender que há outras formas de fazer a mesma coisa, e assim eventualmente mudar para construir um resultado ainda melhor. Isto vale para os sócios também, o que tem sido uma experiência muito rica. 

Levi Girardi (à esq.) e a equipe de designers da Questto|Nó

DB: Um dos grandes desafios é unir culturas, estruturas e visão de design, como você contou. Como foi alinhar estes pensamentos e identidades para criar uma nova empresa?Levi: A unificação passa desde definições complexas, como a percepção do valor do design para o mundo, até coisas bem mais simples, como o jeito de se referir a alguma etapa do processo de design. Assim, acredito que há uma negociação constante, altamente saudável, para se buscar a melhor forma de fazer algo. Sempre precisamos tentar convencer, buscar argumentos e eventualmente ceder em certos pontos em nome da melhor prática possível do design. É muito gratificante participar deste processo, apesar de às vezes isso ser doloroso. 

DB: O processo de fusão teve início há mais de um ano. E os aprendizados neste tempo todo?Levi: Sempre que estamos aprendendo, está valendo. Neste caso, estamos buscando algo que é realmente significativo para todos: queremos construir juntos um grande escritório de design, no mais amplo sentido da palavra. É isso que nos motiva e que nos dá humildade para às vezes questionar verdades absolutas em nome de uma solução melhor. Há um desafio para passar este pensamento para nossa equipe, mas os resultados têm sido ótimos. 

DB: Depois de comunicar oficialmente a fusão em outubro deste ano, você diz ter uma resposta positiva da comunidade do design brasileiro. Como você vê a fusão de outras empresas da área de design, caso isso aconteça?Levi: A concorrência saudável nos faz agir. É ela que nos obriga a questionar a qualidade das nossas respostas, o timing dos nossos projetos, a excelência no que fazemos. Temos um excelente relacionamento com nossos concorrentes e foi este, aliás, um dos fatores que motivou a nossa fusão. Sempre que possível buscamos compartilhar com nossos pares experiências de mercado, tecnologias inovadoras e outras informações que não interfiram nas nossas estratégias e nos contratos de confidencialidade. Assim, estarmos em um mercado com uma concorrência cada vez mais estruturada é um motor para o crescimento do design como um todo. Quando comunicamos a fusão, vários profissionais de design, dentre eles vários de nossos concorrentes, repetiam que fazia todo o sentido o que estávamos fazendo: isso nos deu ainda mais segurança e certeza de que a decisão tinha sido acertada.