Ligia Mefano

Por Editor DesignBrasil

“Apesar da resistência por parte das empresas em realizar investimentos em design, o mercado de brinquedos está sujeito à permanente mudança de gostos, e isso leva à valorização do desenho industrial”

O designer de brinquedos é prioritariamente aquele criador que se propõe a ser um tradutor das necessidades, da curiosidade, dos interesses da criança, do adolescente, e mesmo do adulto que gosta de brincar. A frase é de Ligia Mefano, mestre em Design pelo Departamento de Artes & Design da PUC-Rio, ela própria uma designer, professora, pesquisadora e fabricante desse nicho de mercado.

Nesta entrevista ao DesignBrasil, Ligia fala sobre o tema, pesquisado exaustivamente em sua dissertação de mestrado, intitulada “O Design de Brinquedos no Brasil: Uma Arqueologia do Projeto e suas Origens”. A designer, que ministra cursos sobre o assunto na própria PUC-Rio e no Centro de Tecnologia e Design do Senac do Rio de Janeiro, também comenta as características de alguns dos produtos que desenvolveu em sua empresa, a Fofitos, e conta um pouco de seu trabalho e de sua experiência profissional com as comunidades populares do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho.

DesignBrasil Como a senhora se interessou pelo design de brinquedos?

Ligia Mefano Meu interesse começou como mãe e como designer e fabricante de brinquedos há 19 anos. Eu e minha irmã Vania tivemos filhos na mesma época e queríamos dar a eles brinquedos que estimulassem o seu desenvolvimento sensório motor. Havia uma carência muito grande de brinquedos voltados para crianças nos seus primeiros anos de vida. Geralmente os brinquedos para bebês serviam só para decorar o quarto. Nessa época vigorava a concepção de que o bebê não era ainda portador de inteligência e, portanto não precisava ser estimulado. Acreditavam que a criança nessa fase só precisava dormir e mamar. Vania, que é terapeuta educacional e psicomotricista e eu, arte-educadora e professora de artes da rede pública e artista plástica, resolvemos juntar nossas experiências e criar os primeiros brinquedos de uma linha artesanal que atualmente chega a setenta tipos diferentes. Surgiram assim os Fofitos, brinquedos sensoriais e artesanais. Atualmente a produção dos brinquedos é conduzida com extrema competência pelo nosso pai, Sr Alberto Mefano. Toda essa longa trajetória me levou a sistematicamente pesquisar e arquivar as informações sobre esse tema. Também comecei a adquirir livros e revistas sobre brinquedos em seus múltiplos aspectos. Após durante quase 20 anos, considero ter hoje um acervo de qualidade sobre esse assunto.

DesignBrasil A senhora é designer e uma das sócias da Fofitos Brinquedos Educativos? Como é a experiência de ser empresária dos próprios trabalhos, do ponto de vista do processo produtivo e comercial?

Ligia Mefano Eu me sinto muito mais designer de brinquedos e artesã do que empresária. Tenho uma estrutura de produção bem minimizada, quase um atelier de criação. Sou uma artesã e faço questão de preservar assim, pois o tipo de brinquedo que projeto é muito detalhado, demandando uma forma de produção lenta, contrária a uma produção industrial em larga escala. A experiência de ter uma linha de brinquedos é bastante estimulante, pois envolve estudos em diversas áreas de conhecimento, desde as teorias pedagógicas, a evolução cultural da infância passando por aspectos voltados para a produção, segurança do brinquedo, viabilização comercial e etc… Temos que estar sempre procurando novos materiais para incorporá-los às novas idéias. O processo de criação de um brinquedo é muito prazeroso e se complementa com a resposta positiva do público. Atualmente busco construir novos brinquedos que sejam voltados para a valorização da nossa cultura popular. Vejo que há bastante receptividade, principalmente por parte dos educadores.

DesignBrasil A sua dissertação de mestrado traz informações sobre o projeto de brinquedos no Brasil nas suas mais diversas manifestações, inclusive na cultura popular. Quais foram as principais descobertas nesse trabalho de pesquisa?

Ligia Mefano A indústria de brinquedos no Brasil é bem recente se comparada àquelas dos países que deflagraram o processo industrial, mas se tornou um importante parque industrial na América Latina. O mercado nacional enfrenta inúmeras dificuldades, como a pirataria, o contrabando, a alta carga tributária, as altas taxas de juros praticadas pelos bancos. Porém o mais grave de todos os problemas reside no fato de que as crianças brasileiras não possuem poder aquisitivo para comprar brinquedos industrializados, o que impede a expansão das indústrias no mercado interno. As crianças brasileiras trabalham em atividades agrícolas, trabalhos domésticos ou em subempregos. Como o direito à infância muitas vezes é negado, os aspectos relacionados ao brinquedo são muito desvalorizados, pois a brincadeira nem sempre é reconhecida como uma necessidade humana. Nos segmentos da população que estão inteiramente excluídos do mercado de consumo dos brinquedos industrializados, predomina a tradição de confeccionar brinquedos artesanais. A oficina de construção de brinquedos e as entrevistas que realizei com adultos do ensino supletivo de uma escola pública estadual, Colégio Cócio Barcellos, para a dissertação, elucidaram inúmeras questões relacionadas com o brinquedo artesanal popular e a situação da criança pobre brasileira. Isso possibilitou o melhor conhecimento da realidade da atividade artesanal de brinquedos em diversos cantos e contextos do Brasil, por meio do trabalho de recuperação das lembranças de migrantes brasileiros moradores do Rio de Janeiro. O estudo registrou que o artesão herda de seus familiares a sabedoria de fazer brinquedos que são, em grande parte, portadores de inquestionável riqueza, seja por sua forma estética, seja pelo contexto sociocultural em que são produzidos. O design do brinquedo artesanal popular está sempre passando por constantes renovações, incorporando às técnicas e saberes herdados de gerações passadas, novos materiais, estratégias e temáticas. A industrialização do brinquedo exerce influência sobre esse artesanato. Esse tipo de atividade artesanal geralmente não é valorizada pela sociedade brasileira, e são poucas as iniciativas institucionais ou particulares que lutam para preservar essa memória popular. Nesse sentido, torna-se importante a realização de projetos que incluam aspectos da cultura popular no desenvolvimento do design de brinquedos além de dirigir esforços para a criação de brinquedos voltados especialmente para o atendimento desse segmento da população que não tem acesso ao brinquedo. Isso também acarreta o aumento do índice de nacionalização dos projetos de brinquedos brasileiros, possibilitando a consolidação do design nacional. Projetar novos brinquedos e aprimorar o design de brinquedos no Brasil tem o objetivo não só de concorrer com a importação no mercado interno, como também de abrir espaços para a exportação. No Brasil, historicamente, predomina uma cultura que valoriza o brinquedo importado em detrimento do nacional. Daí serem poucos os brinquedos industrializados totalmente desenvolvidos no Brasil. É importante que sejam implementados, pelo setor de produção de brinquedos brasileiros, procedimentos visando à redução da dependência externa. É importante ressaltar a necessidade de um maior incentivo às pesquisas sobre o brinquedo para que ele tenha sua problemática abordada separadamente. E é nesse sentido que a presente dissertação sugere o estudo de novos temas para futuras pesquisas sobre o design do brinquedo e suas implicações nos tempos atuais. Espera-se que o incremento de pesquisa sobre esse tema possa contribuir para que não se concretizem as previsões que anunciam o desaparecimento da infância e do brinquedo.

DesignBrasil Um dos objetos do seu estudo foi a história da Manufatura de Brinquedos Estrela, uma empresa fundada em 1937. De que modo os produtos dessa empresa também contam a evolução do design brasileiro?

Ligia Mefano A Fábrica de Brinquedos Estrela, além de ser uma das pioneiras nesse setor, é uma das maiores indústrias de brinquedos na América Latina. A sua história acompanhou a evolução industrial do país, pois passou a ser pioneira na indústria automatizada ao produzir brinquedos de plástico. Desde a sua primeira boneca, a Estrela já produziu mais de 25 mil brinquedos diferentes, num total de mais de 1,2 bilhão de unidades que foram distribuídas em todo país. Ao longo dos anos, a Estrela, com a força de sua marca, combinou qualidade, pioneirismo e inovação no mercado brasileiro de brinquedos. Na minha dissertação sobre design de brinquedos tive a felicidade de  obter informações diretas do senhor Mario Adler, filho do fundador Sigfried Adler, que me concedeu uma longa entrevista. O fundador da Estrela, Siegfried Adler deixou, ao falecer, consolidada a empresa de grande porte, com escritórios de representação em diversos países das três Américas, na Europa e em todos os Estados brasileiros, com seu capital aberto e dividido em ações bem cotadas na Bolsa de Valores. Toda a administração da empresa, desde o controle de material e estoque, faturamento, vendas, contas a pagar, era processada por uma espécie de computador, o Univac, na época inquestionável avanço tecnológico. O advento do crediário ampliou as possibilidades do comércio. Houve o surgimento de novas fábricas de brinquedos no parque industrial brasileiro, além do crescimento de outras já existentes, como a Trol e a Atma. Com a morte de seu pai, Mario Arthur Adler, assumiu a direção da Estrela e promoveu a modernização da empresa enfatizando a divulgação dos seus produtos através de feiras internacionais, eventos, programas de TV, chegando a ser o 14o anunciante do País. Era atribuição de Mario visitar as feiras internacionais de brinquedos para trazer novidades para o mercado brasileiro. Foi assim que a boneca e toda a sua linha de produtos foi negociada nos Estados Unidos com a fábrica Mattel. Do Japão, nos anos 1970, trouxeram toda a série de bonecos para meninos. Da Itália, vieram as mais belas bonecas do mundo, para as meninas brasileiras. Brinquedos muitas vezes aperfeiçoados no Brasil e melhor aperfeiçoados por nossas crianças. O Falcon, por exemplo, era inspirado num boneco americano. Era sucesso no mundo, e Senhor Mario achou que podia ser aqui também. Curioso é que poucos sabem por que o boneco Falcon tem esse nome. Segundo informações de Senhor Mario, foi em homenagem ao nosso jogador Falcão um dos craques do futebol. O nome do jogador também foi associado à magia que acompanha a ave que tem o mesmo nome. Foi difícil achar a tonalidade de sua pele e o realismo de seus cabelos. Desde então, no Brasil, nenhum menino estranhou ou recusou brincar com boneco. Essa história do Falcon e outras servem para exemplificar a importância dessa indústria no desenvolvimento do design no Brasil.

DesignBrasil Na pesquisa, a senhora fez uma série de entrevistas com designers e outros profissionais desse nicho de mercado. Pelo que a senhora apurou, em que condições em que se dá o processo de criação de brinquedos no Brasil? E como está o mercado de trabalho para os designers que desejam atuar nesse nicho?

Ligia Mefano O designer de brinquedos é prioritariamente aquele criador que se propõe a ser um tradutor das necessidades, da curiosidade, dos interesses da criança, do adolescente, e mesmo do adulto que gosta de brincar. Imaginação, perspicácia, motivação e, principalmente, perseverança são características bem próprias de quem se decide pelo design de brinquedos. Segundo Raquel Altman, que foi fabricante de brinquedos da extinta fábrica QI e consultora da Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos): A crescente necessidade de multiplicação e inovação constante da linha de brinquedos já não se satisfaz apenas em ir buscar lá fora os inventos que deram certo. Mesmo porque nem sempre as expectativas regionais se cumprem. O que significava potencial em termos de criação transforma-se pouco a pouco em evidência, com o surgimento de especialistas nacionais. As universidades brasileiras, com suas faculdades de Arquitetura, Belas Artes, Engenharia, Educação, Desenho Industrial, estão, cada vez mais, procurando dar condições a seus alunos de criarem objetos de bom desenho, de tecnologia avançada e de qualidade, incluindo em suas cadeiras o processo de criação e desenvolvimento de jogos e brinquedos. (Altman, 1991). O designer de brinquedos, ao criar seus projetos, combina as atividades de projetar o produto, design e engenharia de produção, tudo isso com muita criatividade, para que possa desenvolver conceitos inovadores. Para suprir a falta de cursos específicos nessa área, juntamente com outros profissionais que também atuam no setor de design de brinquedos e educação, montamos os cursos que são ministrados tanto no Senac como na PUC-RJ. Embora portando estruturas de ensino bem diferentes ambos os cursos tem como objetivo preliminar de apresentar e discutir os principais aspectos envolvidos no design de brinquedos e jogos (sejam educativos ou de lazer), orientando os alunos em um projeto-piloto de sua escolha onde as idéias discutidas se concretizem. Com relação ao mercado de trabalho, do design de brinquedos no Brasil, a realidade mostra que há uma forte inclinação por parte da indústria do setor por negociar a concessão de licenciamentos com companhias estrangeiras em vez de investir em novos projetos criados por designers brasileiros. Isso porque, entre outras razões, as fábricas de brinquedos estão acostumadas a estratégias reativas no campo do desenvolvimento de produtos. Já existe, porém, o reconhecimento de que um bom design melhora o desempenho do brinquedo no mercado, e que a qualidade dos projetos de brinquedos nacionais já foi reconhecida por meio de premiações nacionais e internacionais. No entanto, os empresários do setor sabem que é o impacto na produtividade e o custo do produto que realmente determinam as vendas. Apesar da resistência por parte das empresas em realizar investimentos em design, o mercado de brinquedos está sujeito à permanente mudança de gostos, e isso leva à valorização do desenho industrial. Faz-se necessário que profissionais apresentem soluções para a constante demanda das empresas nacionais de acompanharem essas mudanças por meio de lançamentos de novos brinquedos e de modificações nos brinquedos já existentes.

DesignBrasil Como em todo processo de design, é importante conhecer o público-alvo antes de começar um novo projeto. Qual a diferença de se criar brinquedos para um público tão específico, com distintas necessidades lúdicas e de aprendizado, principalmente conforme a idade? E qual o desafio para fisgar a atenção de crianças dessa geração, que têm na TV, na internet e nos games, bem como em outros produtos de tecnologia, motivos que desviam sua capacidade de se concentrar em uma só atividade (o brinquedo)?

Ligia Mefano Há um verdadeiro exército, em nossa sociedade, trabalhando para convencer as crianças a comprar toda sorte de produtos, em especial durante o Natal. Com fotos bem produzidas e indicações de artistas renomados, a propaganda adentra suas defesas psíquicas ainda frágeis e promove ilusões. No Brasil e no mundo, a problemática relação infância-consumo encobre muitas vezes a questão da importância da real brinquedo no desenvolvimento cognitivo e sensorial da criança. A crescente preferência pelos jogos eletrônicos, aliada ao baixo custo dos brinquedos importados de certa forma abalou o mercado de brinquedos, sendo responsável pela retração deste segmento. Porém, por conta do implemento de políticas públicas recentes houve um aumento do poder aquisitivo da população brasileira que passou a comprar mais brinquedos. Outro fator importante que favorece foi o crescente reconhecimento por parte das instituições de ensino públicas e privadas de que o brinquedo e o brincar são poderosos instrumentos de aprendizagem.

DesignBrasil De que maneira sua experiência profissional com as comunidades populares do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho inspira seu trabalho de designer de brinquedos?

Ligia Mefano Sou professora de artes na rede pública estadual e municipal, sendo que minha carga horária é dividida em três escolas, duas leciono para adultos à noite e uma para crianças durante o dia. O Ciep de Ipanema, escola que trabalho há 23 anos, atende à crianças basicamente em situação de risco , moradoras das comunidades do Pavão Pavãozinho e Cantagalo O prédio dessa escola era originalmente um hotel que após falir foi encampado pelo Estado. Hoje, já estou na terceira geração, ou seja, tenho alunos que são netos de ex alunos. Nas oficinas de criação de brinquedos que organizei ao longo dos anos em parceria com outros colegas da escola, pude ter contato com inúmeros brinquedos criados na favela. O convívio com as crianças daquela comunidade sempre me ensinou muito a respeito da ludicidade infantil. Nas escolas da noite, em particular da Escola Estadual Dr. Cócio Barcellos, onde a maioria dos alunos mora nas comunidades do Pavão Pavãozinho e Cantagalo, desenvolvo a Oficina de Brinquedos Popular, que dei inicio em 2004, e cujo objetivo é atender a alunos adultos, em sua grande maioria migrantes de zonas rurais do interior do Brasil. Por meio desse projeto, alunos do ensino fundamental de quinta a oitava séries rememoram a sua infância através da confecção e da redação dos brinquedos e brincadeiras que eles (a sua grande maioria jovens e adultos trabalhadores assalariados) brincaram na sua infância. Considero esse trabalho nas escolas, fundamental para que eu possa ter uma real noção de é a realidade da criança brasileira, do seu universo lúdico, das suas tradições artesanais de fazer brinquedo etc… Em minha opinião, esse é um quesito muito importante na formação do designer de brinquedos no Brasil.

DesignBrasil Fale sobre alguns dos seus produtos no mercado, como o Cubo Táctil, Boneco Geométrico e Boliche.

Ligia Mefano O boneco geométrico foi criado a partir da fusão da boneca com o robot, imagem que tanto fascina as crianças. Para criar seu rosto me inspirei no design tradicional japonês, com poucas linhas e ao mesmo tempo o rosto tão expressivo. É um boneco muito divertido feito com formas geométricas de espuma unidas por velcro e revestidas com tecido colorido e lavável. A criança pode brincar de desmontar e montar, inventando diferentes bonecos e até bichos… As brincadeiras com o boneco geométrico favorecem o desenvolvimento da imaginação e da coordenação motora, amplia seu raciocínio espacial e o conhecimento corporal. O cubo tátil é um dado feito de espuma moldada revestido de pano, tem um furo no meio contendo figuras geométricas em EVA. A criança também pode brincar de esconder objetos dentro dela e ao mesmo tempo em cada um dos seus lados tem uma atividade do seu cotidiano como amarrar, fechar e abrir o zíper, abrir velcro e abotoar. O boliche de pano foi idealizado para crianças bem pequenas. Além da clássica brincadeira de jogar a bola para derrubar as garrafinhas, possibilita também uma infinidade de brincadeiras no manuseio das garrafas feitas em pano com enchimento leve, lavável. A bola tem três furinhos onde a criança pode colocar os dedinhos e tirar pontas que saem dos furos. Esse é um excelente brinquedo para desenvolvimento da motricidade fina.

DesignBrasil A segurança do usuário é uma preocupação dos designers e engenheiros em muitos produtos. Nos brinquedos, esse elemento é ainda mais crucial. De que modo o cuidado com a segurança faz parte do processo de desenvolvimento de um novo brinquedo? Em sua opinião, os brinquedos de parques públicos são satisfatórios? Por quê?

Ligia Mefano Conhecer as condições de segurança do brinquedo que será fabricado e comercializado é um aspecto que sinaliza muito o designer na escolha dos materiais que vai utilizar. Cada brinquedo é analisado de maneira diferente, quer seja para ser montado por uma criança ou por um adulto. A Norma não testa o desempenho nem a qualidade do brinquedo, exceto quando se refere à sua segurança. Isso só vem contribuir para que a confiança no brinquedo seja cada vez maior por parte do consumidor. Ressalto, porém, que alguns ajustes deveriam ser feitos em relação ao processo de obtenção do selo. Por exemplo, não é justo que uma bem pequena fábrica tenha os mesmos encargos financeiros para obtenção do selo de um brinquedo que uma grande indústria. Isso não estimula os novos designers a obter o selo por constituir um processo muito oneroso. Outro aspecto que eu gostaria de também fazer uma ressalva diz respeito aos brinquedos populares, defendo um selo de qualidade específico para eles, como ocorre na maioria dos países que tem como política preservar sua cultura, caso contrário o brinquedo popular ficará cada vez mais marginalizado das vias de comercialização. Em relação à pergunta referente aos parques públicos, considero que em termos de design de parques temos bons projetos e uma trajetória reconhecida internacionalmente. O problema não está aí e sim no fato de que nos grandes centros urbanos em todo mundo constata-se o crescimento da uma cruzada pela segurança da cidade provocando a destruição do espaço público acessível. A reincorporarão urbana modificou as ruas de pedestres, em canais de tráfego e transformou parques públicos voltados para o lazer e ludicidade em moradias temporárias para os sem teto e as pessoas que vivem em extrema miséria. Nos valorizados shopping centers, a atividade pública é classificada em compartimentos estritamente funcionais, e a circulação é comprimida em corredores sob vigilância constante da polícia privada. O declínio do espaço urbano aberto acarretou no confinamento da criança, que perde o direito de usufruir do espaço público. Além disso, os parques públicos perdem sua propriedade de servirem como válvulas de escape sociais, misturando classes sociais em recreação e diversão comum.

DesignBrasil Cite casos em que as cores têm um caráter informativo, mais que decorativo, nos brinquedos? E de que modo a tipografia deve ser adequada a esse público-alvo?

Ligia Mefano No curso de design de brinquedos que ministramos fazemos essa abordagem nos seguintes tópicos: As cores e os brinquedos: o espaço cromático e seus conceitos e as cores e o design de informação. O professor Celso Wilmer pesquisador desse tema e responsável por essas aulas no programa define assim: As cores têm um caráter informativo, transmitem informação, quando servem de meio intermediário entre dois campos de estudo envolvidos/ relacionados ao brinquedos/ Exemplo 1: O brinquedo Poliflox, desenvolvido em um projeto de parceria do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio com o INES (Instituto Nacional Educação de Surdos – RJ), projeto coordenado pela Professora Rita Couto. Consiste de polígonos em emborrachado EVA fazendo esta associação entre formas e cores: triângulos/vermelhos; quadrados/azuis; pentágonos/roxos etc. Tais cores, por sua vez, estão associadas às notas musicais: DÓ/azul; RÉ/laranja; MI/roxo etc. Assim, construída uma trilha com os polígonos encaixados, pode-se “tocá-la” no teclado (indicado no rótulo), trocando-se polígonos por notas; da mesma forma, figuras tridimensionais feitas serão os acordes dessa música geométrica. . Quanto à questão da tipografia, ela, da mesma forma que as cores, deve ser escolhida visando sua capacidade de comunicar com fidelidade as informações suscitadas pelo jogo/brinquedo/passatempo para o público em mente. Deve-se ter em conta também o suporte sobre o qual tanto cores como tipografia serão aplicadas, procurando evitar distorções e ruídos nessa comunicação de idéias. Observar se o suporte é papel, madeira, emborrachado etc.; se a técnica de impressão de tipos e cor é silk-screen, off-set etc. Um brinquedo/jogo/passatempo informativo não é pensado levando em conta o desenvolvimento cognitivo, intelectual de quem joga, mas especialmente os aspectos emocionais ligados à criatividade e envolvimento com o que se faz.

DesignBrasil Cada vez mais os jogos eletrônicos ganham espaço nos quartos das crianças. Quais sãos as diretrizes que devem marcar o design dos games?

Ligia Mefano Esse tema também faz parte da nossa programação e Leandro Costa, ex-aluno e professor convidado no curso de design de brinquedos, tem a seguinte abordagem: Os jogos complexos, violentos, solitários, com grande duração e que exigem grande comprometimento do jogador (muitas horas jogando) não vão desaparecer, pois há grande público para eles. Entretanto, pelos motivos mencionados na pergunta e pela busca de novos públicos, o game design tem considerado outras diretrizes que são forte tendência: sociabilidade (jogos não solitários, que estimulem a interação presencial entre as pessoas), casualidade (pouco comprometimento, jogos rápidos para quem não tem muito tempo pra ficar brincando: adultos), simplicidade (para poder ser jogado por todos, e não apenas pela geração que já nasceu com um joystick nas mãos), acessibilidade (para alcançar portadores de necessidades especiais), educação (abordando temas atuais como sustentabilidade), educação física (jogos que estimulam a atividade física de outras partes do corpo além dos dedos) e feminilidade (em jogos criados para o público feminino, que vem crescendo e é um grande nicho a ser explorado).

Entrevista: Juan Saavedra

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