Limitando o ilimitado

Por Ellen Kiss

Em uma época onde as escolhas são ilimitadas, designers têm que ter uma conhecimento mais amplo.

Atualmente a vida e a maneira como reagimos às tarefas diárias estão se tornando extremamente complexas. Isso ocorre principalmente devido à oferta de produtos, serviços e informação oferecidas pelas empresas na nossa sociedade. Em busca de atenção, market share e vendas, elas inventam e apresentam soluções como sendo fundamentais. Antigamente, procurar uma informação significava ir à uma biblioteca. Tínhamos que ir à uma agência de viagens para comprar passagens aéreas. As opções de compras se resumiam à shoppings ou lojas do bairro. Possuíamos uma conta bancária por toda a vida e quando aprovado, tínhamos um único cartão de crédito. Estes exemplos ilustram a ampla variedade de opções que o consumidor é exposto atualmente para cada uma das suas atividades cotidianas.

Temos a percepção de um mundo mais estressado embora, cientificamente esta afirmação não tenha fundamento. Vivemos melhor, no alimentamos de maneira mais saudável, trabalhamos durante menos horas e dormimos mais quando comparado com gerações anteriores. No entanto, a necessidade da privação a partir das múltiplas possibilidades causa ao ser humano a sensação de que o mundo está caminhando rápido demais e ele não tem possibilidade de acompanhar.

Novas tecnologias e novos modelos de negócio são os dois principais responsáveis por esta variedade de oferta. Tecnologia flexível leva a uma grande variedade de produtos na linha de produção. Como exemplo posso citar o chocolate, que passou de ser simplesmente ao leite, para com passas, crocante, com avelãs, com castanha do pará, meio amargo, etc. Os modelos de negócio, variando entre as alianças globais e a união entre produtos e serviços como principal fator de competitividade também ampliaram as possibilidades de escolha para o consumidor.

A compreensão sobre novas tecnologias e modelos de gestão possibilitam às empresas e seus líderes desenvolverem qualquer tipo de inovação que eles possam imaginar, seja ela radical ou incremental. No entanto, a ampla variedade de produtos e serviços disponíveis para o consumidor, torna a sua escolha cada vez menos previsível. Isto coloca a empresa na difícil posição de ter a capacidade de produzir quase tudo, mas uma certeza cada vez menor sobre o quê produzir.

Como conseqüência a este cenário, uma forte tendência vêm sendo identificada principalmente nos mercados americanos e europeus. Empresas têm se voltado a designers para auxiliá-los a criar inovações que realmente influenciem a maneira como as pessoas vivem. Design passou a ocupar um lugar central no desenvolvimento de produtos e serviços, influenciando não somente na estética visual, mas na criação de uma estratégia visando quais produtos ou serviços oferecer e como fazê-lo. Este processo é oposto aos dominantes modelos de trabalho do passado, quando designers eram chamados após a definição estratégica ter sido criada pelo marketing e pelo departamento de novos produtos.

Esta mudança significa que estes designers, agora envolvidos no início do processo devem aprender uma série de novas disciplinas que não fazem parte do currículo educacional tradicional. Em uma época de escolhas limitadas, o design era restrito a uma disciplina de artes. Agora, em uma época onde as escolhas são ilimitadas, designers têm que ter uma conhecimento mais amplo: entendendo a intersecção entre business e design, identificando experiências, analisando interação usuário x produto, tendo uma preocupação com o meio ambiente, conhecendo aspectos sociais e psicológicos da atual sociedade, visualizando oportunidades e criando soluções que foquem no valor ao usuário e à economia.

Diversas iniciativas neste sentido surgiram nos últimos anos em mercados mais desenvolvidos, como o surgimento dos cursos de Design Management, Sustentabilidade ou mesmo de Metodologia do Design. Várias conferências relacionadas a estes assuntos também vêm sendo organizadas mundialmente. Recentemente a publicação americana I.D criou um suplemento chamado Design and Business. Este encarte mensal busca apresentar alguns exemplos de como o design auxilia empresas a resolver problemas ou criar ferramentas e processos que possibilitem pessoas de diversas áreas a trabalharem juntas na criação de inovações desejáveis, tecnologicamente possíveis e viáveis economicamente.

* A autora disponibiliza um e-mail para contato, comentários, críticas e sugestões: [email protected]

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