Lina Roos

Por Editor DesignBrasil

“Minha função é aperfeiçoar a produção tanto dos produtos que já estão sendo comercializados quanto daqueles por serem produzidos no futuro”

Ela nasceu em Divinópolis, Minas Gerais. Aos 17 anos seguiu para a Alemanha, onde acabaria estudando numa escola que é ícone do design e da arquitetura, a Bauhaus. Anos depois faria um aperfeiçoamento em Nova York. Agora, ela mora na Holanda e colabora para um escritório europeu de renome, o droog design – www.droog.com. O nome dela é Lina Roos.

Aos 27 anos, a designer de dupla nacionalidade está desde outubro em Amsterdã, sede do droog. Criado em 1993, o estúdio tem em seu portfolio marcas globais como Levi Strauss e British Airways e já apresentou seus trabalhos em uma exposição de 1600m2 no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, nos anos de 2005/06, em mostra itinerante com passagem por países como Alemanha, Suiça, Estados Unidos e Bélgica. “Sempre admirei o trabalho deles e está sendo interessante ver como as coisas funcionam aqui na Holanda. Sem dúvida, é um país que aprendeu a lidar com design de forma bem natural. Aqui é possível ver coisas mais simples como, por exemplo, a forma das lixeiras de rua ou dos bancos na praça”, observa.

Filha de mãe brasileira e de um artista plástico alemão, Lina teve uma infância marcada pela mistura de culturas – um de seus irmãos, por exemplo, nasceu na África. Seu pai tinha uma pequena oficina de madeira para uso próprio e sempre a incentivou a montar seus brinquedos. Não demorou muito para notar que queria envolver-se com o processo criativo. Ao terminar o ensino secundário, nem quis tentar o vestibular no Brasil. Preferiu seguir para a Alemanha e concretizar o sonho de estudar arquitetura. Ao chegar lá, a opção pelo design lhe parecia mais interessante. Depois de algumas tentativas frustradas, enfim ingressaria na Universidade Bauhaus, em Weimar. “Fiquei fascinada pela ideia de estudar na mesma Universidade que há 90 anos foi o berço da arquitetura e do design industrial moderno”, conta. Entretanto foi preciso um tempo para que ela percebesse diferenças entre a Bauhaus de hoje e a dos primórdios. “O que ainda prevalece é o ensino interdisciplinar entre as diferentes faculdades e a educação prática nas oficinas de madeira, metal, plástico etc. Vale a pena falar que o ensino de design na Bauhaus hoje é característico por design mais conceitual, menos técnico. O processo é tão valorizado quanto a ideia em si”, explica ao DesignBrasil, em entrevista por e-mail.

Ao longo da graduação teve a oportunidade de fazer um intercâmbio de um ano no Pratt Institute, em Nova York. “Uma das coisas que gosto em Nova York é a energia dinâmica que a cidade possui, o que permite que as ideias aconteçam e desapareçam numa velocidade incrí­vel”, assinala.

Ao voltar para Alemanha, em 2006, juntou-se a uma colega designer para fundar um negócio, a Casca, um estúdio de cenografia e, principalmente, design gráfico e de produto (www.casca-design.de/). “Nosso primeiro projeto foi a criação de uma embalagem de chocolate para uma empresa do segmento. Com ela recebemos o terceiro lugar num concurso”.

No último trabalho, o projeto final da Universidade em Weimar, seu desafio era desenvolver uma cozinha para crianças de escola. A ideia surgiu junto com uma campanha feita pelo governo alemão para promover a educação alimentar nas escolas. “Entramos em contato com o departamento responsável, propondo uma trabalho em cooperação e eles, por fim, nos indicaram a uma equipe que estava iniciando um projeto nesta área no norte da Alemanha. Basicamente se tratava de uma cozinha móvel, que funcionaria independente da infraestrutura da escola”, explica.
“Esta cozinha”, prossegue Lina, “poderia ser reservada ou alugada para atuar num determinado tempo numa determinada escola atendendo um grupo de crianças entre 7 e 11 anos. Haveria um educador especialista em nutrição que cozinharia junto com as crianças. É importante mencionar que neste caso a intenção não era alimentar as crianças, mas sim fazer com que elas, ao preparar uma refeição saudável, se conscientizem da importância de uma boa alimentação. Durante este trabalho percebemos o quanto é importante incluir design nos problemas do dia-a-dia e assim desmistificar a ideia que design só diz respeito ao luxo. Na minha opinião, designers deveriam ser incluídos não só na concepção de produtos, mas também na concepção de serviços. Como foi o caso neste projeto da cozinha móvel, aqui pensar em como esta cozinha funcionaria era no mínimo tão importante quanto pensar na cozinha em si!”, conclui.

No futuro, ela espera poder trabalhar mais em projetos relacionados ao Brasil.
Confira o restante da entrevista com Lina.
DesignBrasil Como surgiu a oportunidade de trabalhar em Amsterdã, na empresa droog design? E como é o trabalho que você desenvolve nesse famoso escritório?

Lina Roos Durante meus estudos em Weimar tive a oportunidade de participar de diversos projetos coordenados por um professor holandês chamado Gerrit Babtist. Foi por admirar seu trabalho que comecei a me interessar pelo design deste pequeno país europeu. As ideias da droog me fascinaram desde o princípio, pois cada um dos seus produtos contam uma estória baseada na forma em que nós (usuários) vivemos e interagimos com eles no dia-a-dia. Nesta época, ainda mal sabia que estaria trabalhando durante um tempo neste tão conhecido escritório em Amsterdã. Meu trabalho aqui é na área de desenvolvimento de produto, onde minha função é aperfeiçoar a produção tanto dos produtos que já estão sendo comercializados quanto daqueles por serem produzidos no futuro. Para chegar aqui, bastou eu me candidatar a este cargo e fazer uma entrevista com um dos coordenadores da droog, Gijs Bakker.

DesignBrasil Depois de passar alguns anos estudando na Europa, o ano de intercâmbio nos Estados Unidos acrescentou uma nova forma de ver o design?Lina Roos Sim, sem dúvida minha estadia no Pratt Institute em Nova York abriu minha mente para novas possibilidades no design. Em primeiro lugar, pelo fato do Pratt e da Bauhaus terem um sistema de ensino completamente diferente um do outro. O Pratt é bem mais tradicional, os estudos nas áreas de cor, forma e desenho são extremamente importantes e tomam grande parte da grade curricular. Em Weimar, no entanto, o ensino baseia-se em projetos práticos, muitas vezes em cooperação com firmas de outras regiões da Alemanha. No caso de Weimar a teoria é transmitida através da prática e o aluno está muito mais fora da sala de aula, trabalhando nas diferentes oficinas. O ensino é mais informal, exigindo uma postura mais independente do estudante. Ambos os métodos têm seus prós e contras. Por isso, não é possível dizer qual é o melhor. Para mim foi extremamente valioso passar por estas duas instituições para compreender um pouco mais do processo criativo. O segundo aspecto que marcou meu tempo no Pratt foi o novo contexto de vida, na cidade que nunca dorme. Nova York oferece muitas oportunidades de exposições, teatro, cinema e música. Em lugar nenhum se encontra tantas culturas diferentes dividindo um espaço tão pequeno.

DesignBrasil Você diz que na Bauhaus, hoje, o processo é tão importante quanto a ideia em si. Pode citar um exemplo? E de que modo você incorporou essa visão no seu exercício profissional?

Lina Roos Pense no exemplo da cozinha e imagine a cozinha daqui alguns anos. Como ela é? Que tamanho? Qual cor? Logicamente pensamos de acordo com nossas experiências e neste caso, grande parte das pessoas provavelmente imaginaria a cozinha do futuro com basicamente as mesmas funções da cozinha de hoje; porém, com um certo toque futurístico. Na Bauhaus o importante é o processo. O aluno é motivado a pensar sobre raiz do problema: qual é a essência da cozinha? Cozinhar? Lavar? Quem trabalha na cozinha e de que maneira este trabalho é efetuado? A empregada, a mulher ou o homem? Se trabalha em pé ou sentado? Além do preparo de alimentos, quais funções exercem a cozinha? Comunicação? Informação? E assim por diante. Na Bauhaus, procura-se através de perguntas como essas chegar à definição mais precisa do que é uma cozinha e, a partir de então, chegar a uma solução. No meu ponto de vista, o interessante neste método é a possibilidade de chegar a ideias inusitadas sobre as quais ninguém havia pensado até então.
 

Lina nas aulas de desenho em Nova York.
DesignBrasil Você foi para a Alemanha ainda muito cedo, aos 17 anos. Quais as ligações que você mantém com o país onde nasceu e foi criada, e o que há de brasileiro no seu trabalho e no seu modo de criar e pensar design?

Lina Roos O processo de design está sempre relacionado com o ambiente em que ele surge, com as necessidades, desejos e tradições; sejam estas pessoais, culturais ou é claro, comerciais. No meu trabalho também procuro pensar baseando-me no contexto em que me encontro e, naturalmente, os problemas e necessidades na Alemanha são diferentes dos do Brasil. Sem dúvida, a minha experiência de vida no Brasil influencia meu trabalho. Acho que isso se faz visível principalmente no humor por trás das minhas ideias. No entanto, prefiro não fazer disso uma regra, não limitando assim meu modo de pensar e sobretudo evitando cair em clichês culturais. Pois, afinal de contas, qual é a definição de Brasil ou de ser brasileiro? Difícil encontrar uma única resposta para uma cultura composta por tantas nações diferentes.Edição e entrevista: Juan SaavedraLina, em uma aula de estudos da estética, com o professor Leonard Bacich.A rua onde se encontra a loja e o escritório do droog (segunda casa da direita). Campus da universidade Bauhaus, em Weimar. “O prédio que aparece na foto é o do famoso arquiteto Gropius”, diz Lina.
 

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