Lucilia Alencastro dá dicas para quem quer construir uma carreira na Ilustração

Por Centro Brasil Design

Texto: Julliana Bauer

 

Ilustração: Lis Del Barco

 

Cursar artes ou design gráfico?  Como desenvolver um estilo próprio? Quanto cobrar pelos freelas? Quem já se aventurou pelo mundo da ilustração certamente já teve muitas dúvidas sobre como entrar de vez nesse mercado. Afinal, a área de atuação é ampla e um ilustrador pode trabalhar em projetos editoriais para livros e publicações diversas, utilizando técnicas e estilos variados.

A designer curitibana Lis Del Barco, de 27 anos, já é formada há alguns anos, mas só recentemente descobriu o desejo de trabalhar com ilustração. “Sempre desenhei de forma despretensiosa, como um hobby”. Para Lis, a maior dificuldade para um profissional em início de carreira é encontrar uma linguagem marcante e um estilo próprio. Para aperfeiçoar seu desenho, ela optou por um curso livre sobre o assunto, já que já tinha tido aulas de desenho e técnicas de pintura na faculdade. “Gosto de desenhar com lápis de cor, giz, tinta guache, aquarela…tudo no papel”, conta.

 

Arte: André Tachibana

Já o ilustrador André Tachibana, de 30 anos, conta que começou a ilustrar ainda na adolescência, quando criava roteiros que envolviam os amigos em histórias de ficção e fantasia. “Eu me surpreendi com a repercussão que essa brincadeira gerou e percebi que poderia vender cópias das revistinhas e ganhar algum dinheiro”. Embora seja autodidata, André cursou então Desenho na Escola de Belas Artes, Artes na Faculdade de Artes do Paraná e agora faz Design Gráfico no Unicuritiba. Assim como Lis, ele concorda que a questão do estilo é a que mais pesa para quem está em início de carreira. “Conseguir uma marca pessoal nos traços é determinante para que o trabalho seja reconhecido como único. No entanto, são raras as vezes que podemos ser autorais em uma agência ou escritório de design, pois o mercado exige versatilidade”, explica.

André  hoje trabalha como ilustrador no grupo NZN, empresa que administra os sites como os baixaki e tecmundo. Na hora de cobrar pelos trabalhos como freelancer, que acontecem com frequência, ele considera a complexidade do trabalho e o tempo que investirá nele. “A negociação com o cliente determina quantas horas me dedicarei ao projeto”, ensina.

 

 Como chegar lá?

Lucilia Alencastro já atua há 15 anos como ilustradora, trabalhando principalmente com livros infantis e lecionando em cursos universitários. Em seus trabalhos, ela já experimentou várias técnicas: lápis de cor, ilustração digital e colagens, tendo um interesse especial pelo universo das histórias infantis. Na entrevista abaixo, ela dá algumas dicas a quem está começando uma carreira na ilustração.

 

Quais qualidades um ilustrador deve ter? E quais ele deve desenvolver, caso não tenha?

É bom ser curioso em relação às mais diversas áreas e gostar de estudar e de ler. Tem que ter interesse por artes visuais, mas não é imprescindível “saber desenhar”, embora ajude muito. Quando falamos de ilustração, falamos principalmente de expressividade, que pode se dar tanto pelo desenho, como por qualquer outra técnica como colagem, massinha plástica, fotografia, etc. O que se deve desenvolver além da aprendizagem de técnicas, é também o estudo de comunicação e linguagens que traduzam, resumam ou mesmo adicionem significados aos textos que serão acompanhados das ilustrações.

 

O curso de design é um bom caminho para quem quer seguir a carreira de ilustrador?

Sem dúvida, é um bom caminho. O design vai além,  dando outras possibilidades e ferramentas para que se possa pensar a ilustração em conjunto com o projeto da página e a identidade da peça, seja um livro, uma propaganda impressa, ou até mesmo quando se trata de sites, vídeos, videogames, aplicações para tablets, celulares, etc. Não que o ilustrador vá fazer tudo sozinho, mas os conhecimentos de design, no mínimo o ajudarão a conversar com outros profissionais. No curso de design o estudante enfrenta frequentemente a busca de adequação ao público alvo de cada projeto e aprende a estabelecer a linguagem correta para cada situação. Este exercício facilitará seu trabalho como ilustrador. Já os profissionais de artes visuais (não querendo desmerecer ninguém) estão mais acostumados com a liberdade de expressão e nem sempre lidam bem com as demandas dos clientes.

 

 

Ilustração de Lucilia para o livro infantil Brincando na Chuva

 

Em que ramos um ilustrador pode atuar?

Em projetos editoriais, para livros e publicações diversas, que abrangem diversos tipos de ilustração, desde infantis até as ilustrações técnicas, como manuais de utilização de produtos, infográficos, mapas humanizados, livros didáticos, etc.

Ilustração para a moda, quadrinhos, desenho para animação, enfim, são muitas possibilidades.

 

Existem, no Brasil, cursos para aperfeiçoamento de técnicas na ilustração?

Existem muitos cursos livres além das faculdades de artes visuais e de design.

Já existem algumas tentativas em formatar cursos de graduação tecnológica em ilustração, mas as dificuldades ainda são grandes, pois, se pensarmos no longo caminho que o design vem percorrendo para conseguir regulamentação e valorização profissional, dá para compreender também que a ilustração como campo específico de estudos, ainda terá muito trabalho na definição de currículos e regulamentação própria.

 

Após terminada a faculdade, o que um ilustrador pode fazer para conseguir um emprego na área?

Tanto para o emprego, como para o trabalho freelancer, é necessário ter um portfólio de trabalhos  e um cartão de visitas. Definir quais as áreas em que deseja atuar e buscar o perfil das empresas que tem afinidades com seu trabalho. Feito isso é bater de porta em porta, mesmo. Fazer contato por e_mail ou telefone e pedir para enviar um curriculum e portfolio. E tem que ser persistente. Não dá pra desistir diante da primeira negativa.

 

Para quem trabalha como ilustrador freelancer e não sabe bem quais valores cobrar pelos trabalhos, você tem alguma dica?

O primeiro passo é nunca aceitar convites para trabalhar de graça ou por preços irrisórios, o que desqualifica o profissional e a profissão.  Alguns livros como “Viver de Design”, do Gilberto Strunck e “Manual do Freela: Quanto custa o meu design” de André Beltrão, dão orientações interessantes para designers e que podem ser utilizadas também por ilustradores. A  ABIPRO (Associação Brasileira de Ilustradores Profissionais) disponibiliza o “Guia do ilustrador”, do Ricardo Antunes, que dá orientações sobre a profissão. Aos que querem trabalhar com literatura infanto-juvenil recomendo também a AEILIJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infanto-Juvenil). Recentemente a ADEGRAF (Associação de Designers Gráficos do Distrito Federal) incluiu na sua tabela, sugestão de valores para trabalhos de ilustração.  Mesmo que nem sempre seja possível praticar os preços sugeridos, já é uma referencia a ser apresentada numa negociação com o cliente.

 

Quais ilustradores brasileiros você admira?

Antes de falar dos atuais, vou citar o nome de J.Carlos, que atuou na imprensa carioca entre 1908 e 1950. Eu o escolhi como objeto de estudo para o mestrado e pude me encantar com toda a beleza do seu trabalho, feita numa época “sem computador, nem Photoshop”. Da atualidade, e daqui bem de perto, cito o trabalho da Márcia Széliga, pois além da técnica refinadíssima de lápis de cor (que eu adoro), conta com uma poesia própria e uma delicadeza que é até difícil de explicar. Gosto muito também dos trabalhos do Rogério Coelho e da Ana Anjos, pois eles têm uma personalidade, um estilo reconhecível, sem ser repetitivos.  

 

 

 

 

Matéria postada também no Design&Chimarrão.