Madeira de demolição: porque não usar

Por Editor DesignBrasil

 

O design ecológico, também chamado de ecodesign, é na verdade uma forma de pensar o produto, prevendo todo o seu ciclo de vida e finalmente o descarte. Eu venho acompanhando a evolução (ou involução) da aplicação da ecologia no design, principalmente nas coisas inevitáveis onde a tecnologia está barata e disponível. É o caso do livro de papel, que está passando, erraticamente e sem o devido planejamento, para os meios eletrônicos e digitais – do mesmo modo eu poderia citar como exemplos de paradigmas o carro a hidrogênio quando comparado ao carro elétrico, os sistemas obsoletos de geração de energia como as hidrelétricas, termoelétricas, eólicas ou nuclear quando comparadas com a OTEC, o mito da falta de água e reutilização, etc. Eu pretendo analisar estes temas no futuro. Este artigo se limita a apresentar alguns pontos, em que o uso da madeira de demolição é falha.

O material que um designer define para fabricar um produto é parte essencial do projeto – a escolha entre fabricar uma cadeira em acrílico, resina, alumínio, titânio, aço ou madeira, todas igualmente funcionais, não é só moda ou beleza. O material correto também é uma questão fundamental na ecológica, que depende de uma visão ampla, por parte do designer, sobre a matéria prima, os processos de fabricação, vida do produto e descarte.

Em minha opinião, pelo ponto de vista do design ecológico, o uso da madeira é algo que deveria ser questionado, colocados na balança os prejuízos para o meio ambiente, e reavaliada a real necessidade de utilizarmos este material com a atual tecnologia nos processos de fabricação do século XXI.

No entanto, o cliente está ‘acostumado’ (poderia até dizer viciado) com determinadas coisas, e o mercado criou uma série de barreiras contra a aplicação do novo design associado à ecologia. Alguns clientes têm grande facilidade e desejo de mudar seus produtos, e querem um projeto ecológico e sólido – já outros reagem com grande espanto, equivocados, paralisados em barreiras culturais, em paradigmas da sociedade de consumo de massa, e ignoram o que realmente é ecodesign e como isso pode ser benéfico para seu produto, para o meio ambiente e para todas as outras pessoas.

A escolha da maioria das pessoas ainda é a escolha equivocada. Para uma cadeira para a sala, ou para a mesa de jantar, normalmente o cliente escolhe as fabricadas em madeira. Ainda há muitos consumidores que acham que a madeira é mais “bonita”, durável, resistente, e até acreditam que madeira é totalmente renovável e que a madeira é a escolha mais ecológica para um produto, pois a árvore que morreu para que fosse feita a cadeira, “alguém” já plantou, e já cresceu outra igualzinha no lugar…  Isso é um MITO.

A madeira “de lei” demora mais de cinquenta anos para crescer em um solo pobre da floresta, que depende de um equilíbrio delicado das grandes e pequenas árvores. Mesmo assim, retira-se a madeira secular e vende-se nos grandes centros urbanos. E isso já foi mostrado na televisão! Uma denúncia foi apresentada pelo Greenpeace no programa ‘Fantástico’, da TV Globo (19/08/2007), e no jornal inglês The Independent (21/08/2007), mostrando que a madeira vendida como certificada e ecologicamente correta nas lojas de São Paulo vem, na verdade, da Amazônia e de outros locais que deveriam ser preservados a todo custo pela questão da água, solo pobre, diversidade de fauna ameaçada e muitos outros motivos.

No entanto, as pessoas em sua maioria acreditam piamente que madeira é um bom material e não o pior de todos os materiais para se fabricar uma cadeira, hoje, no século XXI, em que possuímos novos materiais e tecnologias.

O leigo não pensa no ciclo de vida do produto, e quando a cadeira quebra, não imagina o que vai ser feito com ela. Se for de alumínio, joga-se no lixo e o processo de reciclagem vai transformar em uma lata de cerveja, um avião ou uma cadeira novamente, e se for de plástico pode-se transformar em matéria-prima novamente. Já uma cadeira de MADEIRA nunca vai voltar a ser ÁRVORE nem mesmo adubo para árvores. Normalmente se transformam em cinzas ou, na melhor das hipóteses, em serragem para aglomerado, MDF.

Madeira não é ecológica, não é mais sustentável em nossa velocidade de extração, e para uma população mundial de quase sete bilhões de habitantes. Na sociedade atual, não dá tempo! O ritmo de extração é tão rápido que a floresta e o ecossistema não têm tempo de se refazer da perda de centenas de árvores por dia. Mesmo em “florestas” plantadas artificialmente, que recebem o selo de madeira certificada, o impacto no meio ambiente é muito grande.

Tanto nas pequenas produções artesanais quanto nas grandes produções, os conceitos são os mesmos. Não podemos basear todo o processo apenas na simples escolha de uma matéria prima, uma única peça de madeira, para um único produto exclusivo, ou poucas e limitadas unidades.  Fazer design dito ecológico apenas se apoiando em um único ponto, como o da madeira de demolição. Como se madeira de demolição fosse a solução mágica de todos os problemas em ecologia… E fim do problema…

Na sociedade de consumo atual, a necessidade de vender, e vender qualquer coisa, em grande quantidade, mesmo que essa coisa possa ser nociva ao meio ambiente, acabou por criar mecanismos para a insustentabilidade. A mudança não vem como deveria e a ecologia não se agrega aos produtos com um real “novo design”. A indústria perde muitas oportunidades de evoluir e de se manter sustentável aplicando a ecologia em seus produtos. Há medo de se perder dinheiro em pesquisa e, por ignorância do que seja o design ecológico, não se enxerga o real benefício a longo e médio prazo do design bem feito e sólido! Mas quase nada mudou.

Indiretamente, isso veio a gerar as crises de mercado, justamente por não ter sido seguido o caminho da sustentabilidade. De um modo bem maior do que só a preocupação com o meio ambiente, a sustentabilidade, deveria englobar a distribuição de renda e aplicação de novas tecnologias do bom design, aplicar os conceitos de produto durável, nas novas e nas “velhas” coisas, essenciais do dia-a-dia – não importa qual seja o produto, sempre é possível melhorar o design e fazer uma nova problematização em todo o contexto. No entanto, o que mais se vê são produtos disfarçados em ecodesign, e as coisas continuam a serem feitas do mesmo modo. Quase nada mudou.

A madeira de demolição é um entre outros paradigmas da moda do eco sem fundamento, e é difícil quebrar ideias populares. Mas o que eu pude verificar é que neste país um grupo de pessoas, não importando sua formação, tem a possibilidade de se apropriar do título de designer, sem correr o risco de serem presas como os médicos charlatões, etc. Qualquer um pode ir até uma madeireira e comprar algumas peças de madeira velha, fraca, carcomida e surrada, apenas se baseando na questão da reutilização e no mito da madeira de demolição, fabricar com elas uma ou duas peças de mobiliário muito feias, com dezenas de problemas de ergonomia, transporte, durabilidade, segurança e raramente podem ser fabricadas em série, saindo totalmente do contexto do design para todos e para uma vida melhor.

Assim, acabam por prejudicar a aplicação de reais e sólidos conceitos de ecologia, com materiais e design corretos aplicados ao produto. Pior: muitos designers de produto formados seguem esta tendência fundamentalmente errada da madeira de demolição, por simples modismo, sem consciência ecológica!

Mas o problema é maior do que a qualidade do produto. De onde vem esta madeira de demolição? Sem nenhuma regulamentação, as toras de madeira que são encontradas nas lojas são, na maioria, oriundas de antigas construções… É claro que reutilizar madeira é um principio básico de ecologia! No entanto, o que escapa ao consumidor que acredita que comprando esses produtos ditos ecológicos estão contribuindo para preservar árvores, só porque são a reutilização de demolições, são os cálculos do prejuízo para o meio ambiente com o seu uso. Nem poderiam perceber, como consumidores. O invisível para o leigo é na verdade o real problema da lógica do design e da sustentabilidade!

Quando se fabrica um produto com a madeira de demolição, indiretamente se estimulam mecanismos para o mercado disponibilizar e adquirir mais e mais madeira de demolição a qualquer custo. As consequências invisíveis são o aumento da derrubada de árvores nobres que deveriam ser preservadas, pois as antigas construções que estavam funcionando bem e que continuariam de pé por muitos anos ainda, são trocadas por novas construções bonitinhas mas ordinárias, que não são feitas para durar, nem aplicam novos materiais como o aço, alumínio, superconcreto, etc.

Para ilustrar, vou contar uma história que eu vi acontecer e que uso para mostrar a magnitude do problema para meus clientes: imagine um sólido e antigo estábulo no campo, na fazenda do ‘seu’ José, onde não faltava nada e o estábulo já estava ali com sua madeira centenária sustentando um telhado com telhas fabricadas nas coxas das escravas… Um dia, um homem de “fora” vem e pergunta ao ‘seu’ José: “o senhor quer um estábulo novo? Maior, melhor, mais bonito, tábuas novas e todo pintado e envernizado, com telhado moderno? Eu pago para o senhor, construo e coloco no lugar do velho! Se o senhor preferir, posso fazer um novo em outro lugar!” Depois de um pouco de insistência, e sem pagar nada, o ‘seu’ José concorda em dar a madeira do velho estábulo em troca de um novo totalmente de graça!

E sem necessidade real, o velho estábulo é desmanchado, cortadas aos pedaços suas toras de madeira resistente e colocada em seu lugar a beleza aparente. Com tintas, vernizes e resinas extremamente poluentes, pior, as telhas de valor histórico fabricadas nas coxas dos escravos, se perdem… Assim como outras partes de valor histórico não lucrativas. Em pouco tempo, o novo estábulo vai envelhecer, mesmo tendo sido usada a madeira nova. Não se encontra mais a madeira em tamanho nem resistência das antigas, e em pouco tempo será necessária uma reforma (do bolso do ‘seu’ José) e mais madeira será gasta, criando um grande impacto e um ciclo de mais extração de arvores, sem fim.

madeira

SoluçõesImpedir o uso de madeiras protegidas é fundamental, portanto dever-se-ia marcar a madeira, talvez com a pulverização bem diluída de um isótopo radioativo sobre reservas, catalogando e monitorando a absorção do material dentro das árvores em seus anéis de crescimento. Assim, poderia se provar que uma determinada tábua veio de uma floresta que não poderia ser tocada, gerando, sem discussão, pesadas multas aos vendedores destas madeiras.

Os prédios, estábulos, casas e outras construções antigas, poderiam ser tombados ou marcados diretamente, de modo a impedir sua destruição sem motivo real, apenas visando a revenda da madeira antiga (de demolição). Ainda é necessária a conscientização do consumidor de que os móveis, joias ou bijuterias, vestuários, mobiliários, e os produtos feitos com sementes, cascas de árvores, folhas de maconha, ditos exclusivos e únicos, não são, de forma alguma, nem nunca serão produtos ecológicos ou exemplos de ecodesign só por utilizar estes materiais. Também deveríamos aplicar um sistema de coleta seletiva de madeira do lixo, e continuar a popularizar as fábricas comunitárias para reformar, reutilizar e reciclar a madeira.

Os verdadeiros designers ecológicos podem fazer mais e melhor. Conscientizar a não seguir essa tendência de mercado que um determinado material sozinho soluciona o problema e reafirmar as vantagens do BOM design para a qualidade de vida do cidadão! Design para todos! Enfim, unir a mente ao desejo de um mundo melhor de uma forma concreta e não especulativa, remover as amarras, a cegueira e barreiras impostas pela sociedade de consumo, agora, já, não daqui a cem anos!

Eu sei que é muito difícil deixar de fazer algo de um modo para fazer de outro, mas eu sempre me assusto, ao apresentar uma solução em design e falar que poderia ser usado para um determinado projeto materiais como alumínio, fibra de carbono ou madeireira plástica, aço, superconcreto, plástico, etc., e aplicado o conceito de “Pirâmide”, de produto duradouro, da troca de partes do todo, refil, etc – quase me ‘matam’ e tenho que contar historinhas como do estábulo do ‘seu’ José.

Escolher um material ecológico para um produto, sem bater de frente com barreiras culturais, não é nada fácil. Ainda hoje no Brasil é muito raro ver novos materiais no dia-a-dia, portanto falar simplesmente para não se comprar produtos de madeira de demolição seria complicado demais para a maioria dos consumidores finais. Quando se pensa em construir uma casa, a grande maioria ainda pensa em portas de madeira, e telhado com toda a estrutura no chamado madeiramento, e até piso de tábuas de madeira corrida. Quando se fala em fazer telhado com estrutura de metal, esbarra-se novamente em antigas ideias e lendas. Aplicar estes novos materiais é nobre e na verdade fácil – ‘aqui e ali’ eu vejo um ou outro arquiteto conseguindo vencer paradigmas. Mas é raro.

O ecodesigner tem que pensar no produto como um todo para ser fabricado em série, aplicando conceitos e tecnologias, na escolha da matéria prima para a fabricação, uso, manutenção, uso da energia, descarte e ainda como será reutilizado ou reciclado o produto. Enfim, pensar todo o ciclo de vida do produto em harmonia com a ecologia.

E lembre-se, mesmo que todos os livros digam que “está escrito”, nem sempre é esta a verdade. Mesmo que a totalidade ou a grande maioria das pessoas afirme algo, nem sempre é a verdade. Lembre-se de Galileu Galilei que, contra todos, estava certo em afirmar, sobre a Terra: “No entanto, ela se move”!

3 Comentários

  1. paulodiasdesign disse:

    Concordando em parte com o senhor Daniel Marques, não podemos esquecer que a madeira é o único material que resgata carbono do ambiente e que cada processo de reciclagem de plástico e/ou metais incorre em gastos energéticos (transporte de retrofit, re-fundição, re-fabricação), ou seja economiza-se a necessidade de material virgem, mas não se economiza significativamente energia… A questão básica da ecoeficiência é diminuir o uso de energia e, por sua vez, a emissão de carbono. Portanto, a noção de durabilidade extrema de um produto é crucial, pois só o produto utilizado por longo tempo é que diminui a quantidade de processos/reprocessos.
    Tenho me dedicado a projetar mobiliários com retalhos VIRGENS de madeira gerados na fabricação de outros produtos e de forma a serem, os meus móveis, extremamente duráveis, com peças que tenham poucos processos fabris, sejam fáceis de desmontar e sejam intercambíáveis entre os produtos para facilitar a serialização. Infelizmente eu percebo que projeto um móvel que pode durar 70 anos, mas ele pode ser substituído em 5 anos por OBSOLESCÊNCIA ESTÉTICA, ou seja, a moda é um estorvo, força uma prematura obsolescência, mas não vamos culpá-la de imediato, ela age conforme a sociedade pensa. Assim, Daniel, a questão é diminuir a quantidade de processos, de trocas, de transportes de cada produto. Sua visão de popularizar as fábricas comunitárias para reformar, reutilizar e reciclar a madeira é extremamente interessante, pois há um benefício social nas populações das grandes cidades. Tenho uma fábrica para o qual trabalho e nela produzimos 2 m cúbicos de retalhos de MDF e MDP que não encontramos quem possa aproveitá-los porque não sabem como projetar móveis com pedaços pequenos de madeira. Daí que eu como designer tenho que pensar: como fazer produtos interessantes com pedaços pequenos, e duráveis e amodistas….
    Tudo de bom. Agradeço o texto. Ass.: paulodisdesign

  2. paulodiasdesign disse:

    Concordando em parte com o senhor Daniel Marques, não podemos esquecer que a madeira é o único material que resgata carbono do ambiente e que cada processo de reciclagem de plástico e/ou metais incorre em gastos energéticos (transporte de retrofit, re-fundição, re-fabricação), ou seja economiza-se a necessidade de material virgem, mas não se economiza significativamente energia… A questão básica da ecoeficiência é diminuir o uso de energia e, por sua vez, a emissão de carbono. Portanto, a noção de durabilidade extrema de um produto é crucial, pois só o produto utilizado por longo tempo é que diminui a quantidade de processos/reprocessos.
    Tenho me dedicado a projetar mobiliários com retalhos VIRGENS de madeira gerados na fabricação de outros produtos e de forma a serem, os meus móveis, extremamente duráveis, com peças que tenham poucos processos fabris, sejam fáceis de desmontar e sejam intercambíáveis entre os produtos para facilitar a serialização. Infelizmente eu percebo que projeto um móvel que pode durar 70 anos, mas ele pode ser substituído em 5 anos por OBSOLESCÊNCIA ESTÉTICA, ou seja, a moda é um estorvo, força uma prematura obsolescência, mas não vamos culpá-la de imediato, ela age conforme a sociedade pensa. Assim, Daniel, a questão é diminuir a quantidade de processos, de trocas, de transportes de cada produto. Sua visão de popularizar as fábricas comunitárias para reformar, reutilizar e reciclar a madeira é extremamente interessante, pois há um benefício social nas populações das grandes cidades. Tenho uma fábrica para o qual trabalho e nela produzimos 2 m cúbicos de retalhos de MDF e MDP que não encontramos quem possa aproveitá-los porque não sabem como projetar móveis com pedaços pequenos de madeira. Daí que eu como designer tenho que pensar: como fazer produtos interessantes com pedaços pequenos, e duráveis e amodistas….
    Tudo de bom. Agradeço o texto. Ass.: paulodiasdesign

  3. Ricardo Mayer disse:

    pARABENS A MARQUESDESIGN.COM.BR POR ESSE ARTIGO CORAJOSO !