Marcelo Bohrer

Por Editor DesignBrasil

Nos últimos tempos, Marcelo Bohrer virou figura fácil na mídia. Concedeu entrevistas a Jô Soares e a Ana Maria Braga, na TV Globo, e apareceu nas páginas da revista IstoÉ e do Jornal da Tarde. Tudo graças a uma ideia que, num primeiro momento, parece absurda num mundo movido cada vez mais a trabalho. Ele é precursor do Clube do Nadismo, que propõe a valorização de parar e fazer absolutamente nada, visando a qualidade de vida. 

Nem todo mundo sabe, mas o autor do livro “Nadismo – Uma Revolução Sem Fazer Nada” (Ed. Megalivro), tem uma trajetória interessante no mundo do design. Formado em Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), MarBoh – como assina – começou a despontar em 1998, quando, segundo ele, lançou o conceito de design cyberorganico. A proposta era uma fusão “harmônica e saudável entre a tecnologia e os organismos” e lhe valeu o prêmio Idéias Vencedoras no Fórum do Sucesso, evento promovido pela Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS) e Associação dos Jovens Empresários do Rio Grande do Sul.

Na época, Bohrer dirigia a Visgo, uma empresa de moda e design, onde foi integrante do projeto para novos talentos da moda Amni HotSpot da São paulo Fashion Week. A mais ousada coleção da marca, diz ele, foi a outono/inverno 2007, lançada em 2003. “Antecipei em quatro anos a tendência da popularização do tema da meditação. A coleção inspirada no zen-budismo foi apresentada em um desfile fora do comum que percorreu ruas mais badaladas de Porto Alegre”, afirma.

Depois, Bohrer trabalhou na Imaginarium, desenhando produtos da rede de presentes. Um deles recebeu o primeiro lugar do prêmio Design Catarina, em 2005.

Mais tarde, foi autor do projeto Evoluomeditando (www.evoluomeditando.org) e voltou à área de moda em maio de 2007 ao criar a coleção de camisetas Atitudes – Solução do Aquecimento Global. Sua ideia era estampar 10 formas positivas de colaborar com o meio ambiente (www.marboh.com.br/atitudes). No final do mesmo ano, em parceria com o consultor de ações socioambientais Jorge Mello, lançou a campanha I’ LV ECO BAG (www.iloveecobag.com.br). A finalidade era estimular a adoção das sacolas ecológicas. A campanha atraiu a parceria de 15 empresas e se propôs a gerar debate sobre o uso das ecobags.

Atualmente, seu projeto de maior repercussão é o Clube de Nadismo (www.clubedenadismo.com.br). Com o livro sobre o assunto, Bohrer recebeu elogios da jornalista e escritora Martha Medeiros e do inglês Carl Honoré, autor do bestseller “Devagar” (Ed. Record). Em 2009, seu livro sobre nadismo ganhou uma versão em inglês do livro pela editora Lulu em Nova York. Seu próximo projeto é desenvolver uma marca e licenciar produtos.

esta entrevista, Bohrer fala sobre nadismo e a relação com o design. Comenta sua carreira no desenvolvimento de produtos e de consultor. E fala sobre suas atividades. Classifica-se como um designer de ideias que tem o papel de “enxergar na frente e criar o novo”. Ele defende ainda que alguns desses conceitos teriam antecipado ideias e tendências mais tarde utilizadas ou apresentadas por outras empresas e pessoas.

Confira.

DesignBrasil – O que é nadismo? E de que modo ser adepto desse movimento/conceito de vida contribui para seu trabalho como designer?

Marcelo Bohrer – O nadismo é um grande agente de transformação cultural. Significa tomar consciência de que o tempo de fazer nada também é valioso. E, aprendendo a aproveitá-lo, se vive melhor literalmente sem fazer nada. Posso também dizer que o nadismo é uma “atividade” especialmente benéfica para o designer. Quem trabalha com criação sabe que as idéias parecem vir de um local desconhecido e misterioso. De repente, plin!, acende a luzinha! Evidentemente, não podemos negar que a bagagem cultural, o conhecimento e a pesquisa colaboram neste processo. Contudo, para que a idéia surja não se trata de esforço ou trabalho e sim de uma sensibilidade que, de um universo de informações, cria a combinação certa e gera o insight! Nesse sentido, a prática do nadismo possibilita a condição adequada de relaxamento e espaço vazio onde as idéias costumam brotar. Por outro lado, quando estamos estressados acabamos bloqueando esse processo.

DesignBrasil – Você dirigiu a Visgo entre 1999 e 2003. O que fez a Visgo para se posicionar como uma empresa de Design de Moda? E que tipo de trabalho ela gerou para obter a repercussão que alcançou?

Marcelo Bohrer – Através da Visgo eu tive a oportunidade de apresentar trabalhos bastante inovadores. Eles representavam conceitos nos quais eu acreditava de verdade e acho que essa força transparecia nas criações que obtiveram destaque. Felizmente, muitas dessas idéias mostraram-se fortes tendências de mercado como a e-generation, o conceito cyberorganico de sustentabilidade e o próprio nadismo como movimento de qualidade de vida. Dessa forma o trabalho ganhou reconhecimento e foi assim percebi que meu maior potencial era gerar idéias que podiam ser transformadas em diversos produtos, serviços ou mesmo modelos de negócio. Por isso agora defino o serviço de minha consultoria criativa como design de idéias.

DesignBrasil – Como foi participar do projeto Amni HotSpot da São Paulo Fashion Week?

Marcelo Bohrer – Foi um desafio incrivelmente estimulante, dentre os seis integrantes eu era o único que não tinha formação em moda. Nessa situação tive que me valer mais da criatividade do que da técnica para criar coleções com um diferencial que fosse marcante. Isto porque antes eu havia apresentado minhas criações em moda somente através dos desfiles virtuais, um formato que fui o precursor. O HotSpot também abriu muitas portas, o que permitiu expandir meu trabalho como designer na criação de roupas, acessórios, jóias, calçados, óculos, trilha sonora, cenografia, etc. Concretizar tudo isso foi uma grande satisfação. 

DesignBrasil – Você trabalhou dois anos como designer da rede Imaginarium? Como foi essa experiência?Marcelo Bohrer – O período na Imaginarium foi muito gratificante, não só pelo privilégio de trabalhar num local maravilhoso na Lagoa da Conceição em Florianópolis, mas também pelas amizades e pelo aprendizado que só o trabalho em equipe pode proporcionar. Tínhamos uma demanda grande de novos produtos, cada qual com briefing, materiais e fornecedores diferentes. Era um verdadeiro laboratório de criação do qual saía de tudo: cabideiros, aventais, relógios, louças, pufes, espelhos, castiçais, estojos, chaveiros, porta-retratos, etc. Para se ter uma ideia, são mais de 800 produtos em linha!

 

foto: Produto para a Imaginarium.

 

 

DesignBrasil – A Mochila Caracol, criada para a Imaginarium, lhe valeu a premiação Design Catarina em 2005? Conte-nos como foi esse case?Marcelo Bohrer – Um dos grandes diferenciais da Imaginarium sempre foi o de vender ideias novas e irreverentes. Queríamos fugir do conceito tradicional das mochilas que são como uma mala com alças. Então criei um conjunto de nécessaires de diferentes tamanhos que se enrolavam formando uma mochila. Alguns dos módulos eram destacáveis, o que permitia uma nova gama de utilizações. E claro, além da praticidade, o visual também chamava a atenção!

Foto: Mochila Caracol.

 

  

 

DesignBrasil – Que trabalho lhe rendeu o Prêmio Idéias vencedoras da Associação dos Jovens Empresários?
Marcelo Bohrer – Na verdade não ganhei por um trabalho específico. O prêmio foi dado pelo conceito cyberorganico de design que criei e que aplicava nas minhas criações.

DesignBrasil – E o que é o conceito cyber-orgânico de design?

Marcelo Bohrer – É interessante observar o amadurecimento de uma idéia no mercado até o ponto dela se popularizar e se transformar em commodities. O conceito cyberorganico propunha uma união harmônica entre a tecnologia e os organismos. Isso se traduz numa postura que alia ecodesign sustentável com os recursos tecnológicos mais modernos, significa juntar o melhor dos dois universos. Isso era uma idéia que não estava na pauta em 2001 e que agora vemos aplicada em quase tudo, dos monitores de led com economia de energia de até 60% até os papéis higiênicos com fibras naturais e produzidos de forma a zerar as emissões de carbono.  Veja como exemplo a descrição de um monitor da Dell que poderíamos chamar de cyberorganico [Recursos de economia de energia — sensor de luz ambiente, PowerNap e Dynamic Dimming. (Escurecimento dinâmico) . Hardware eficiente — inclui uma fonte de alimentação ultra-eficiente com consumo de energia inferior a 0,15 W, em modo de espera, usando uma entrada VGA. Materiais ecologicamente corretos — isento de arsênio, mercúrio, cloreto de polivinil, BFR e CFR. Embalagem reciclável — papelão corrugado em vez de espuma]. No que tange ao aspecto estético minha tradução do conceito buscava as linhas curvas, orgânicas, integradas e fluidas. Com freqüência vejo exemplos atuais dessa tendência, como no Toyota IQ, apresentado esse ano em Genebra. Seu desenho é chamado de tecno-orgânico e sua tecnologia, que proporciona um dos menores índices de emissões de CO2, aliada os materiais ecologicamente corretos, com certeza o inclui na categoria cyberorganica.

DesignBrasil – Você é um designer graduado em Publicidade. Qual é a vantagem de ser um profissional multidisciplinar, que domina conhecimentos diversos como marketing e tecnologia?

Marcelo Bohrer – Acredito que a publicidade seja conhecimento complementar muito valioso para o designer porque amplia a capacidade de comunicar através da criação. Quando projetamos algo precisamos considerar que o bom design vai comunicar qual a finalidade do produto, como usá-lo, qual sua vantagem, seu diferencial. E que ao mesmo tempo essa mensagem deve seduzir através de sua forma, sua cor, toque, cheiro, etc. É o mesmo processo de vender uma idéia através da propaganda. Entretanto, não deixo de considerar a formação em design essencial, seja gráfico ou de produto, pois cria a base técnica para desenvolver os projetos. O que, por ter a formação em comunicação, tive que buscar de forma autodidata.

DesignBrasil – Em 2006, você apareceu numa feira da Movelsul e começou a montar a estrutura tubular de alumínio onde pratica nadismo. Como foi a reação do público?

Marcelo Bohrer – Foi uma das tantas coisas doidas que fiz para apresentar novas ideias ou produtos. Planejei toda a apresentação sem o conhecimento da organização da feira e cheguei lá com a intenção de fazer uma espécie de invasão. Felizmente, a diretora do evento gostou da proposta e acabou concordando em me ceder o espaço na entrada do Salão do Design, onde montei o estande do nadismo como o Cubo vazio, a estrutura de alumínio e lycra branca, e outros produtos como o zaffu (almofada de meditação) com recheio de eva reciclado e o cd de silêncio. Tudo com o objetivo de apresentar a proposta do nadismo associada ao design, o que significa observar a criação como forma de abrir espaço na cultura da aceleração e do stress em prol do tempo vago, do relaxamento e da contemplação.

DesignBrasil – A fama com repercussão com o Clube de Nadismo, que tem levado você a atender convites para diversos programas de TV, tem sido positiva ou negativa para a sua carreira de designer?
Marcelo Bohrer – A repercussão na mídia é sempre positiva no sentido ampliar minha exposição como profissional de criação. Contudo, creio que muita gente enxerga meu trabalho com o movimento do nadismo como algo separado do design, quando, na verdade, existe uma ligação bem forte entre os dois.

DesignBrasil – No momento, a que tipo de trabalho você tem se dedicado?

Marcelo Bohrer – Estive agora em setembro em Nova York para o lançamento do livro do nadismo em inglês e para realizar o primeiro evento do Clube, que aconteceu dia 19, no Central Park. Como o Clube de Nadismo já tem sócios em sete países, a ideia é continuar expandindo o movimento pelo mundo e em especial no Brasil. Espero em breve começar a licenciar alguns produtos relacionados à prática do nadismo. Estou trabalhando nisso, além de alguns projetos de idéias/produtos para outras empresas e da criação de marcas.

DesignBrasil – Muitos trabalhos atribuídos a você são considerados inovadores. Para você, quais são as condições básicas que levam a desenvolver inovação?
Marcelo Bohrer – A meu ver, o conceito de inovação já ficou batido e perdeu sua alma inovadora. Hoje em dia, todos enxergam na inovação a salvação para a paridade do mix de marketing que a competitividade da globalização gerou. De fato, a competição hoje em dia é muito mais acirrada do que há 10 anos e a busca por fazer algo novo, que gere diferencial competitivo e agregue valor, é mais importante do que nunca. Mas veja bem, essa sempre foi a função dos designers, criar coisas melhores, diferentes, mais bonitas, práticas, eficientes, úteis e certamente novas, só não tinham um nome trendy: inovação, que, segundo definição do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) para o registro de Modelo de Utilidade (MU), é basicamente uma variação com melhoria [“modelos de utilidade – objetos que já existiam antes, mas apresentam novas formas ou disposições que geram melhorias funcionais”]. Então, passo do conceito de inovação para a invenção que é criar algo inédito. Esse é o campo onde gosto de focar a minha criatividade. O desafio que me motiva é tentar enxergar na frente, idealizar o que virá depois, como um visionário. Creio que esse é o motivo de muitos dos meus trabalhos serem considerados inovadores, não porque são diferentes, mas porque trouxeram algo que ainda não tinha sido proposto, algo que ainda não tinha sido feito, e que depois de algum tempo mostrou-se a antecipação de alguma tendência. Esse é o foco da consultoria criativa que presto: enxergar na frente e criar o novo. Posso dar alguns exemplos: os óculos de armação de silicone lançados em 1999 no Japão. Em 2001 a marca Oakley lança na feira óptica de Tókio um modelo incrivelmente semelhante. O formato de desfiles virtuais apresentados no ano 2000 que ano passado foram usados pela marca Diesel. O conceito cyberorganico de 1998, que agora vemos como a união da tecnologia com a sustentabilidade aplicada em diversas áreas e produtos. O desfile que fiz em 2003 de uma coleção 2007 antecipando em quatro anos a tendência da meditação como referência comportamental de consumo. Ver anúncios de diferentes segmentos usando imagens de meditação. A campanha das atitudes contra o aquecimento global que foi lançada antes do fenômeno do documentário “Uma Verdade Inconveniente” do Al Gore. Entre outros.