Mares calmos não fazem bons marinheiros

Por Gustavo Greco

Se há uma coisa que podemos dizer sobre momentos de crise é que eles configuram o exaustão de algo para o nascimento de algo novo. “Crise” pode ser definida como “período de desordem acompanhado de busca penosa de uma solução”. Por isso, uma crise nada mais é que um momento em que nos colocamos frente a frente com problemas altamente complexos, exigindo novos pensamentos. O frio inventou o fogo, a distância inventou a roda; é o problema que cria a grande solução.

crise-2015-oportunidadeSegundo o filósofo Abraham Moles, o momento que nos encontramos é de aceleração em um ciclo contínuo de ideias – teoria – tecnologia – novo modo de vida – novas possibilidades – novas ideias. Um ciclo fundamental para dar margem às soluções necessárias para emergirmos o novo, as novas soluções que ocuparão o lugar do velho que não faz mais sentido. Na crise, cresce quem tem saídas, e não só queixas.

Para exemplificar a capacidade do Design em problematizar, quer dizer, oferecer respostas que levem a novas perguntas, relembro um trabalho desenvolvido pelo arquiteto chileno Alejandro Aravena na reconstrução da região de Constitución na parte sul do Chile, que foi atingida por um terremoto e tsunami de 8,8 na escala Richter. Na reconstrução eles se viram diante do desafio de proteger a cidade contra tsunamis e, para isso, havia no ar duas alternativas: proibir a construção no marco zero, o que significava desapropriação de terras e contar com a disciplina do povo chileno para não ocuparem as terras ilegalmente, ou construir uma grande infraestrutura para resistir a energia das ondas, o que já havia se mostrado ineficiente em experiências anteriores no Japão. Com um problema nas mãos e duas soluções insuficientes, os designers resolveram incluir a comunidade para construir uma solução por meio de um processo de Design participativo.

Gosto da máxima de que a solução de um problema está no próprio problema. Utilizar o Design no processo significou antes de tudo identificar a pergunta certa: o que mais incomodava aquela população? Foi preciso aprofundar no problema para entender que o tsunami era sim, claro, um problema, mas muito mais esporádico que as inundações na região ligadas às chuvas. Além disso, foi percebida também a falta de identificação da população com os espaços públicos e a indignação de não poderem acessar o que consideravam o maior bem da cidade: o seu rio. Por meio do entendimento das reais necessidades daquela comunidade, Alejandro criou uma terceira solução: desenvolver uma floresta capaz de dissipar o atrito dos tsunamis e laminar a água, evitando a inundação das chuvas e fornecer acesso democrático ao rio.

Quando se fala de design, julgo fundamental, antes de tudo, falar de indagação, do questionável. O seu valor não está, efetivamente, apenas na qualidade de suas respostas, ou como chamamos no nosso ofício, da solução, mas na fecundidade de suas perguntas.

O Design cria por meio da interação de todos os artefatos da nossa cultura. É uma disciplina capaz de reconfigurar a vida cotidiana intervendo diretamente na produção do capital cultural humano e melhorando a vida da população. Para os governantes o maior problema da região de Constituicíon no Chile era o tsunami, mas para a população o problema estava muito mais ligado à falta de identidade da população com aquilo que estava sendo criado na região.

As grandes empresas brasileiras não foram criadas na bonança, até porque momentos de bonança são raros na história do Brasil e da América Latina. Elas foram erguidas enfrentando dificuldades econômicas e políticas. E superaram essas dificuldades se reinventando, encontrando oportunidades nessas crises. Mares calmos não fazem bons marinheiros.

Entendo que o momento é de criar, seja porque as crises econômicas, sociais, políticas e ambientais sugerem a busca por novas soluções, por uma problematização mais fecunda. Se estamos capacitados a mudar as coisas, devemos pensar no desenvolvimento de competências e habilidades para vislumbrar, no mundo, a potencialidade de mudança mais profunda e transformadora.

Laura Scofield

Laura Scofield

** Esse artigo é de autoria de Gustavo Greco e Laura Scofield. Laura é responsável pela área de cultura empresarial da Greco Design (Belo Horizonte), onde trabalha desde 2009. Formada em Design Gráfico pela Universidade FUMEC, a designer atua na elaboração de projetos institucionais e de identidade, prêmios e publicações internacionais, conteúdos de workshops, palestras e ações de relacionamento da empresa.

 

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