Martin Darbyshire

Por Editor DesignBrasil

Design, desejo e business

Design, desejo e business

Em sua primeira vinda ao Brasil, o inglês Martin Darbyshire deu uma verdadeira aula sobre como o design deve ser encarado no mundo dos negócios. Mais do que isso, mostrou como desejo e business se misturam e se complementam na gestão da Tangerine, uma das mais respeitadas empresas de design de todo o mundo.

Por Maria Celeste Corrêa

“Desejo, necessidade, vontade, necessidade…” Eles não se conhecem, mas o verso inicial da canção Comida, interpretada por Marisa Monte, ilustra com perfeição o pensamento do designer inglês Martin Darbyshire. À primeira vista, aquele homem de pele muito clara, usando óculos e um terno simples, sem nenhum apelo visual, parecia uma pessoa comum. Mas, assim que começou a falar, deixou transparecer toda a sua simpatia, sofisticação de pensamento e idéias de vanguarda – que, no entanto, nunca se distanciam da realidade do mercado.

Assim é Martin Darbyshire, um dos designers mais prestigiados do mundo, dono da Tangerine – Product Direction and Design, a empresa que recriou a Classe Executiva dos aviões da British Airways. E a síntese de tudo o que ele disse em Curitiba sobre a importância do design no mundo dos negócios pode ser resumida num pensamento: “Ao criar um produto, o designer precisa captar e atender os desejos, as necessidades e as aspirações dos clientes. Não se trata apenas daquilo que os clientes desejam hoje, mas também das necessidades deles no futuro. O design precisa absorver isso e incorporar ao produto”, ensina Darbyshire.

Dito assim parece fácil. Mas para construir esta visão privilegiada Darbyshire trilhou um longo caminho. Ele estudou na Central School of Art and Design em Londres, trabalha como designer há 22 anos, já desenvolveu projetos para empresas de 12 países e vivenciou o mercado do design no Reino Unido e nos Estados Unidos. Fundou a Tangerine em 1989 e, cinco anos mais tarde, por uma questão estratégica – ficar perto dos “tigres asiáticos” – instalou um escritório de sua empresa na Coréia.

Assim como no mundo da literatura, que exige 10% de inspiração e 90% de transpiração, ou seja, de esforço mesmo, Darbyshire define sua atividade de forma muito objetiva. “Não se trata apenas de criatividade. É preciso aplicar eficácia ao processo que envolve o design. É preciso pesquisar muito e agregar experiências distintas. Muitas vezes você interage com pessoas de áreas completamente diferentes, por meio de workshops, e o design do produto surge a partir daí. Não é mágica. Não é um coelho que sai da cartola”, explica. Na verdade, com este jeito de trabalhar Darbyshire resolve dois problemas ao mesmo tempo: capta mais facilmente aqueles tais “desejos e necessidades” dos clientes e, ainda, consegue quebrar barreiras dentro da empresa para a qual está prestando serviço. “Se estas pessoas participam do processo, acabam compreendendo melhor a nossa atividade e todo o trabalho flui com mais facilidade”, conta o designer.

E ele sabe muito bem do que está falando. Sua sistemática de trabalho transformou a Tangerine num diferencial de mercado. Os produtos desenvolvidos por sua empresa se destacam pela grande carga de criatividade e inovação: secador de cabelo, louça para banheiro, aspirador de pó, computador de mesa todo dobrável para ser transportado, TV com controle remoto, torneira, telefone multiuso (com agenda eletrônica, conexão com internet, vídeo fone), forno de microondas, equipamentos médicos e cirúrgicos, elevador e muitos outros.

Os produtos com design da Tangerine impressionam pela beleza, pela elegância e pela funcionalidade. Entre seus grandes clientes ao redor do mundo – Samsung, Hitachi, Apple Computer, Unilever, Acco, Alcatel, LG Eletronics e Maxxon Cellular são alguns deles – existe um importante fator em comum: todos valorizam muito o design. “Ao nos contratar, a empresa já está convencida de que o design é um fator fundamental no desenvolvimento de produtos. Se não for assim, não há como trabalhar”, garante Darbyshire. Em outras palavras, não se trata de convencer o cliente e sim de ter como cliente o empresário que já está convencido de que o design pode dar direção ao seu negócio.

Com a empresa plenamente convicta do tipo de serviço que está contratando, tem início o processo de criação do produto ideal para seus clientes. Martin Darbyshire explica que há vários conjuntos de valores que se relacionam neste processo. Afinal, os clientes são diferentes, mas têm desejos e necessidades comuns. E, segundo ele, um dos pontos cruciais do processo é definir onde está o produto (dentro do mercado) e onde se quer chegar. “O que o cliente quer receber? Que tipo de experiência quer ter? Que imagem o cliente que utiliza determinado produto quer transmitir? Com que estilo ele se identifica? Que características ou valores relacionados à marca do produto são fundamentais para o cliente? Ao respondermos estes questionamentos estaremos caminhando para a concepção ideal do produto. Por isso, design também é processo”, analisa Darbyshire.

Com uma clientela de peso e um portfólio abarrotado de produtos geniais, a Tangerine é uma empresa impressionantemente enxuta. “A maioria dos meus trabalhos não envolve mais do que uma dúzia de pessoas que trabalham diretamente comigo. Para projetos que demandam outras habilidades são contratados especialistas. É assim que a gente deve trabalhar, terceirizando serviços, se quiser ganhar dinheiro”, entrega o proprietário da Tangerine. Quando questionado a respeito da diferença entre inovação e design, ele diz que o papel da inovação é ajudar a empresa a definir o que ela deve fazer. Já o design ajuda a empresa que sabe o que quer fazer. Ambos – inovação e design – colaboram para que a empresa defina e compreenda a experiência que o cliente quer ter. Em resumo, esta linha sutil de trabalho apresenta um resultado final que leva o consumidor a escolher entre uma marca e outra. O processo conduz novamente à voz de Marisa Monte, nos acordes finais da canção, indagando: “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”

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