A metralhadora e o sniper – O Design em contextos de crise

Por Editor DesignBrasil

“A tragédia não é apostar alto e errar. A verdadeira tragédia é apostar baixo e acertar.”

 Michelangelo

 

Por Ronald Kapaz

Não, essa breve reflexão não é sobre a Guerra no Oriente Médio, mas é sobre uma outra guerra, mais sutil e não menos perigosa no longo prazo, em que estamos perdendo espaço. Assim, me perdoem a imagem bélica da metralhadora e do Sniper. Não me ocorreu uma melhor.

Praticar o Design há mais de 34 anos nos dá uma perspectiva privilegiada sobre a relação da disciplina com o mercado, que queremos compartilhar aqui para ajudar a pensar. Comecemos por uma breve reflexão.

Nossa atividade pode ser associada, metaforicamente, à de uma maternidade. Tudo que fazemos e por que somos procurados se refere, na maioria das vezes, ao nascimento de algo que não existe ainda, e que precisa ser gestado com carinho para que venha ao mundo com identidade, personalidade e ganhe um corpo.

Todo negócio, produto ou serviço, antes de chegar ao mercado, foi primeiro idealizado e desejado, e precisa, para que se materialize, ser concebido e desenhado. E é na concepção e gestação que, assim como no nascimento de cada um de nós, é necessário o encontro de duas partes, envolvidas com igual responsabilidade na criação da vida, e com papéis diferentes, como na vida.

Poderíamos identificar aí um princípio feminino e um princípio masculino na forma como a relação cliente-designer acontece: um encontro qualificado em que caberá ao cliente gestar seu projeto ou produto a partir da intervenção semeadora do(s) profissional(ais) qualificado(s) para inspirar e orientar, segundo um desejo comum, o destino e a forma do que irá nascer.

Para que exista esta vontade de “dar à luz” a algo novo, é preciso que haja um contexto de segurança, confiança, otimismo e desejo que são inspirados por um estado de espírito interior, que é altamente influenciado pelo contexto externo e pelo mundo.

Vivemos hoje uma realidade bastante complexa, num momento em que o Brasil precisa (re)encontrar sua vocação e seu potencial, e enfrentar as enormes urgências que se apresentam a todos, todo dia. Carecemos de um projeto de país, que não conseguimos desenhar para implementar. Vivemos sob a diretriz imediatista e perigosa de lidar com o contingente sem poder construir espaço para os fundamentos e o planejamento, que nos (re)colocarão no mapa internacional como um player relevante que podemos e devemos ser.

E o Design, o que pode nesse contexto?

Sabemos todos o impacto negativo do contexto de insegurança em que nos encontramos. Empreender requer otimismo e credibilidade, e não estamos vendo isso no curto prazo, e nem o mercado internacional vê isso para o Brasil no curto prazo. Diversos projetos, de empresas nacionais e internacionais, encontram-se num modo de stand-by, à espera de que alguma sinalização positiva possa surgir no horizonte de quem precisa e deseja investir para crescer (e sobreviver). E o que fazer enquanto isso?

Num contexto de crise, todo investimento, que é necessário, precisa da garantia de que o pouco que é possível possa resultar em muito. Viveremos sob a premissa da otimização do investimento, que passará a ser a tônica nos próximos anos no Brasil.

Nesse contexto, vale perceber que existem momentos em que sobram recursos e é possível “atirar para muitos lados” (pense no gasto de uma metralhadora) e momentos em que é necessário o tiro certeiro, o investimento ótimo (pense no atirador de elite, no sniper, e no seu tiro econômico e preciso).

Enfrentamos uma conjuntura complexa e sabemos que não é possível sobreviver sem criar e sem acreditar na inversão desta realidade através do empreendedorismo e do investimento criativo, planejado e eficaz.

O Design existe, desde sempre, para ser essa ferramenta de otimização e eficiência que pode ajudar a gestar o novo, mesmo e principalmente em contextos complexos, em que a inteligência pode mais que a força, e que a criatividade se fortalece com a adversidade e vence.

Cabe então decidir sobre a melhor estratégia para este momento: a metralhadora ou o sniper?

“No momento em que nos comprometemos, a providência divina também se põe em movimento. Todo um fluir de acontecimentos surge a nosso favor. Como resultado dessa atitude, seguem-se todas as formas imprevistas de coincidências, encontros e ajuda, que nenhum ser humano jamais poderia ter sonhado encontrar. Qualquer coisa que você possa fazer ou sonhar, você pode começar. A coragem contém, em si mesma, o poder, o gênio e a magia.”

-Goethe

 

O autor

Ronald-Kapaz-Vanc

Ronald Kapaz é VP de Estratégia da Oz Estratégia+Design

 

 

1 Comentário

  1. Diego mafioletti disse:

    PARabéns pelo artigo ronald!
    Acredito que a otimização do investimento é a onda onde os designers devem surfar neste período de guerra do arremesso de produtos. nosso papel é mostrar que design quebra barreiras entre áreas e faz o vetor da empresa apontar para uma unica direção. devemos, com nosso “dom criativo” ensinar o “pensar design” e mostrar a real importância dos valores da instituição. se é para ser metralhadora, que o alvo seja fixo e todos os projeteis (projetos) acertem em cheio!