Nossa bandeira, de Joaquim Redig

Por Bruno Porto

“O livro é magnífico. É um daqueles livros de Design que não o é, e por isso mesmo se torna melhor, pois alcança um público maior que o (supostamente) almejado”

No exato dia que completei três anos morando na China chegou às minhas mãos graças a uma gentileza do autor, o designer Joaquim Redig, o recém lançado livro Nossa Bandeira (Editora Fraiha). Como há pouco havíamos comemorado aqui o 7 de Setembro com o lançamento oficial do pavilhão do Brasil na Expo 2010 (um projeto bacana do arquiteto paulista Fernando Brandão) e estou envolvido em dois empreendimentos brazucas o cartaz para a 2ª Semana do Cinema Brasileiro no Vietnã e a vinda da Bienal Brasileira de Design Gráfico à China podemos dizer que há um certo patriotismo auriverde (e agora também anil) no ar. Daqui de casa, pelo menos. Entusiasmado com o pacote aberto, folheei-o de trás para frente, como faço com livros em geral, procurando logo pela segunda parte, anunciada nas capas. O livro é dividido em três partes: Formação (Símbolo Nacional) Usos (Ícone Popular) e Funcionalidade (Signo Visual). Usos é composta por exemplos vernaculares da bandeira na moda, em logotipos, nas artes plásticas, em adesivos, nos muros em época de Copa do Mundo etc. Apressadamente elegi-a como minha parte favorita do livro e achei que nela ficaria debruçado horas a fio, e continuei a examiná-lo. Mas o segundo folhear do livro não me permitiu. Me encantei com a primeira parte, Formação, em que Joaquim descreve claramente todos os processos (históricos, políticos, artísticos) que levaram ao desenvolvimento da bandeira como ela é hoje. Ele a desconstrói em matrizes, analisando em detalhes e justificando cada um dos seus elementos. Relaciona-os, histórica e visualmente, embasado por textos de diversas origens, e imagens idem. Eu lia as páginas aos pulos, atraído por uma imagem ou outra mais interessante, retornava ao início, buscava explicações em outro canto… Quando dei por mim, estava indo pela terceira passada de olhos pelo livro todo, afundado em uma poltrona enquanto o jantar esfriava. Não terminei de lê-lo ainda, por isso este texto não pode ser considerado uma resenha. É, na melhor das hipóteses, uma pré-resenha. E/ou um simples elogio: O livro é magnífico. Não deixa pedra sobre pedra em relação ao assunto Bandeira Brasileira, mas, sabiamente, está longe de encerrá-lo. É um daqueles livros de Design que não o é, e por isso mesmo se torna melhor, pois alcança um público maior que o (supostamente) almejado. O livro usa as propriedades do Design para lidar com temas e objetos de uso comum, mas não se esquiva dos academicismos necessários, sem no entanto se enroscar neles. Os esclarece, os exemplifica, e saímos todos ganhando. Nossa Bandeira possibilita a qualquer um uma viagem pela História recente e distante do nosso país, e além. Nos leva das cruzadas dos Cavaleiros Templários à Arábia Saudita dos dias de hoje, da Latino-américa revolucionária ao avião presidencial norteamericano. Nos calça um par de Havainas e nos leva por Olimpíadas e cemitérios, por tribos indígenas e bancas de revistas, pelos anos Getulistas e curvas geométricas até, literalmente, às estrelas. Por todos estes cenários nos revela segredos, nos tira dúvidas, nos provoca contradições (passei a gostar da faixa branca, quem diria!), nos corrige mitos e nos encanta com a precariedade das nossas gambiarras e com o profissionalismo dos nossos designers, de ontem e de hoje. Aliás, não é exatamente (só) o livro que é magnífico. O projeto em si é que é: a pesquisa, o editar das informações, o texto, os gráficos produzidos, tudo guiado pelo carinho e a dedicação que Redig tem, e transmite, em relação ao tema, rico, vastíssimo. Talvez o primeiro suporte deste projeto seja este livro, mas que poderia (leia-se deveria) ser transposto para palestra, documentário, animação, quadrinhos, tal a beleza e a necessidade de registro e de ação. Independente de se concordar com as opções apresentadas pelo autor (na 3ª parte, Funcionalidade, que bisbilhotei) quanto aos possíveis redesenhos da bandeira os primeiros que levam em consideração o Design e não posicionamentos políticos ou achismos o livro deveria ser obrigatório para os designers do Governo em todas as suas esferas. Se isso não acabasse de vez com os desmandos visuais a que o povo brasileiro é submetido a cada troca de governante, pelo menos aplacaria um pouco esta ignorância, no sentido de falta de instrução, visual. Se não explicito ou prolongo-me mais é para não diminuir o prazer da sua leitura.