O ano do Design Gráfico Brasileiro na China – Parte 2

Por Bruno Porto

Após a crise mundial que assolou o mundo em 2009, o Brasil entrou em 2010 com um pezinho melhor calçado na China. A Feira Mundial Expo 2010 foi inaugurada em Xangai trazendo por seis meses 70 milhões de visitantes para seus pavilhões – inclusive o brasileiro, cujo projeto do arquiteto paulista Fernando Brandão dialoga com o estilo dos nossos mais conhecidos multi-designers, os irmãos Fernando e Humberto Campana. Porto Alegre e São Paulo também ganharam espaços independentes no Pavilhão das Melhores Práticas Urbanas (Urban Best Practice Área – UBPA), dedicado a 40 cidades do mundo que, de diferentes maneiras, contribuem para o tema “Better City, Better Life”. Os organizadores e curadores dos três espaços estão preparando uma variada (são seis meses, afinal de conta) programação cultural que, estamos torcendo, inclua algo do nosso design gráfico. Pelo menos já se sente a presença de designers brasileiros na área: em Abril, os cariocas Billy Bacon, Daniel Morena e Danilo Medeiros estiveram na cidade instalando os painéis gráficos e multimedia do stand de Porto Alegre; em meados de Maio, o tipógrafo
Yomar Augusto fez palestras e ministrou um workshop de caligrafia para alunos chineses dentro do festival tipográfico holandês Don’t Believe the Type, no Dutch Cultural Center; e em Junho, o paulista Tony de Marco expoe suas premiadas fotos “São Paulo No Logo” no stand da cidade, realiza um ensaio fotógrafo sobre a Expo, divulga a 9ª edição da revista Tupigrafia e estuda a realização de um painel de graffiti Pixotosco no Soho xangainense, a Taikang Road.

De qualquer maneira, o design gráfico brasileiro entra fortalecido na China em 2010 por conta de um 2009 com resultados acima de quaisquer expectativas. Inclusive as minhas, expostas há um ano, no artigo de Junho de 2009 ‘O ano do Design Gráfico Brasileiro na China‘.

O plano de usar a exposição da 9ª Bienal Brasileira de Design Gráfico da ADG Brasil para sensibilizar o público chinês (e os milhares de estrangeiros que aqui estão) quanto a produção verde-amarela-aniz foi um sucesso de números e crítica. De maneira geral, a Bienal – apresentada em cerca de 120 painéis, com legendas em inglês, chinês e espanhol, desenhados por Sarah Stutz – esteve na China de 15 a 30 de Outubro de 2009 inserida nos dois mais importantes eventos de design do ano no país:

Os quase 400 projetos brasileiros foram vistos não apenas pelos 190.000 visitantes (de cerca de 50 países, segundo o Shanghai International Creative Industry Center) da quinta edição da Shanghai International Creative Industry Week (SICIW) – que por si só superaria a visitação da Bienal em seus 18 anos de existência – como seguiram depois para Pequim, onde a mostra integrou o Xin: Icograda World Congress Beijing. Segundo o Icograda, foram 2.000 visitantes de 45 países, entre inscritos, palestrantes, convidados e imprensa, além dos 4.000 estudantes do curso de design da Central Academy of Fine Arts – CAFA, onde o evento foi realizado.

Em Pequim (de 25 a 30 de Outubro), a Bienal foi acrescida da exposição DINGBATS BRASIL (integrante da programação paralela da 8ª Bienal, em 2006) que já havia sido vista por cerca de 2.000 pessoas em Xangai, entre Maio e Julho de 2009. As mostras foram apresentadas conjuntamente em uma ampla galeria do prédio 7 da CAFA, onde foi realizada uma das cinco sessões de palestras (justamente a que os brasileiros Kiko Farkas e Ruth Klotzel tomaram parte) do congresso. A galeria era cercada por oficinas e salas de aula, sendo passagem obrigatória para todos os estudantes de design da universidade.

Já em Xangai, a Bienal ocupara quatro salas dos dois primeiros andares de uma casa geminada, de origem espanhola, da década de 1940. A “Casa Brasileira” era a de número A3 da SICIW, logo na entrada do evento, entre as mostras de design alemão e holandês. A presença brasileira pode ser claramente sentida tanto na SICIW quanto no Icograda WDC: 300 camisetas da Bienal, em três cores, foram produzidas e cedidas pela confecção local Shanghai A-la Flow Fashion, para uniformizar os monitores e distribuição promocional nas duas cidades. Era impossível circular pelos eventos sem esbarrar com alguém de verde-amarelo, azul-branco ou amarelo-verde.

Só em visitações, isso já se aproximaria de 200.000 pessoas, um belo número redondo, mas a penetração foi além. Durante a estada da Bienal em Xangai (de 15 a 21 de Outubro), foram realizados uma série de palestras, um workshop internacional e a comercialização de livros de design brasileiros, como o Anatomia do Design, “catálogo da Bienal” publicado pela Editora Bluchner. Sem contar que em Abril um seminário no Raffles Design Institute de Xangai já apresentara 15 projetos selecionados para a Bienal (entre sistemas de identidade visual, embalagens, fonte tipográficas e dingbats, animações, cartazes, exposições, design editorial e material promocional) para cerca de 120 pessoas, entre designers, educadores e estudantes locais.

As duas sessões de palestras em Xangai foram realizadas no auditório N305 do Raffles Design Institute, com 109 lugares. No dia 14 de Outubro, a curadora geral Cecilia Consolo e eu, como coordenador da mostra na China (traduzidos para chinês por Adriana Wu, funcionária do Consulado Geral do Brasil em Xangai) fizemos a palestra de abertura da Bienal, explicando-a e as suas categorias. No dia 19, o editor da Taschen Julius Wiedemann falou sobre as relações entre ‘Visual Communication & Technology’, seguido pelo PhD em Comunicação Digital Luli Radfahrer, que condensou para a contexto chinês sua palestra ‘Mecânica dos Fluidos: Design no ambiente elástico’. Ambas palestras foram em inglês com os textos das imagens em chinês. Durante o fim-de-semana de 18 e 19 de Outubro foram promovidas quatro visitas guiadas em português/inglês (pela manhã) e inglês/chinês (à tarde).

Em parceria com a Bienal, o Raffles Design Institute também organizou um dos Pre-Congress Workshops do Icograda World Design Congress: o Brazilian Chinese Hybrid Design Workshop, realizado entre 17 e 20 de Outubro. O workshop conduziu uma exploração das características visuais das duas culturas no desenvolvimento de híbridos experimentais. Os participantes – seis alunos e ex-alunos (da China, Malásia e Áustria) do Raffles – foram orientados por quatro professores de design gráfico do Raffles (do Brasil, Austrália e EUA) acrescidos pelo professor Kelvin Tam, que conduz pesquisas semelhantes no Hong Kong Design Institute. O workshop contou ainda com palestras de Luciano Cardinali e Cecilia Consolo sobre cultura visual, embalagens e tipografia brasileiras, e com Luli Radfahrer na avaliação dos resultados finais. Ao final, outra agradável surpresa: os seis projetos foram expostos em Pequim, de 26 a 30 de Outubro, e o workshop recebeu Menção Honrosa na Icograda Workshops Achievement Exhibition.

Além destas manifestações presenciais, o design gráfico brasileiro foi, e será, visto por um número maior ainda de pessoas através de diversas publicações, impressas e online, que registraram e promoveram estas realizações.

Além da impressão dos painéis da 9ª Bienal, o Consulado Geral do Brasil em Xangai custeou também a impressão de 3.000 cartazes-folders para exposição e distribuição gratuita com informações em inglês e chinês sobre a Bienal, sua programação na China, a ADG Brasil, um breve histórico e situação atual do design gráfico no país, além de pequenas imagens de todos os projetos selecionados.

A 9ª Bienal & DINGBATS BRASIL são mencionadas e descritas no elegante catálogo (164 páginas, capa dura) do Icograda WDC, e na edição online pós congresso, com uma página em cada uma das publicações.

A 9ª Bienal recebeu 4 páginas no catálogo bilíngue da Shanghai International Creative Industry Week 2009 (55.000 unidades), com informações sobre a Bienal, sua programação, palestrantes e imagens de quatro projetos selecionados.

A mais popular revista de design gráfico chinesa, ART & DESIGN (80.000 exemplares mensais) publicou em Outubro uma edição (#118) dedicada ao Icograda World Design Congress. Um dos artigos foi “Posters as Advertising for Culture”, adaptado do texto do designer Paulo Moretto para a categoria Manifesto da Bienal, com imagens de 13 cartazes selecionados espalhados por sete páginas.

A mesma ART & DESIGN já havia publicado, dois meses antes (#116, Agosto 2009), seis páginas dedicadas a mostra DINGBATS BRASIL, quando de seu término em Xangai, anunciando sua ida a Pequim junto a Bienal.

O designer paulista Kiko Farkas, palestrante do Icograda WDC, foi capa e destaque da edição de Setembro da revista chinesa de design NewGraphic (50.000 exemplares bimestrais), publicada em Nanjing, com quase 100 projetos de posters, capas de livros, revistas e logos apresentados em 15 páginas.

Durante o Icograda WDC, a edição de Pequim do jornal em língua inglesa Global Times (circulação diária de 1.042.000 exemplares) noticiou em meia página a 9ª Bienal & DINGBATS BRASIL, com imagens de cinco projetos.

Além destes registros impressos, a Bienal na China foi promovida em diversos websites, blogs e newsletters. Destacam-se os sites da popular revista em inglês City Weekend (que possui edições regionais online e impressa em Xangai e Pequim); o site e o blog do Icograda World Design Congress; o site da Red Lationamericana de Diseño; o blog Brazilian Graphic Design; as revistas brasileiras online de design Agitprop e abcDesign; a Comunidade online Design Gráfico; e as newsletters do Consulado Geral do Brasil em Xangai, do Icograda, da Sociedade do Ilustradores do Brasil, SINAL da Esdi, e da revista ARC Design.

Esses registros garantem futuros contatos, principalmente do público chinês, com o design brasileiro, além de gerar frutos:

A badalada revista chinesa 360ºDesign (que já incluira uma foto de meia página das exposições brasileiras em Pequim em sua edição #23) dedicará toda sua edição de Julho de 2010 ao Design Brasileiro. Já a NewGraphic parece ter ficado tão impressionada que encomendou uma série de perfis sobre profissionais e escritórios de design gráfico brasileiros a serem publicados nas suas próximas seis edições, durante todo o ano de 2010. A primeira leva – os escritórios cariocas Laboratório Secreto e Boldº_ a design company e o reconhecidíssimo Miran – já está na edição #23 (Fevereiro 2010). Serão seguidos por Evelyn Grumach, Tecnopop, Tony de Marco, Yomar Augusto, Fabio Lopez, Rico Lins e outros. E a recém lançada revista bilíngue PRODESIGN já apresentou em suas duas primeiras edições os portfolios dos ilustradores brasileiros Flavio de Morais e Lula Palomanes, além da íntegra das exposição Dingbats Brasil.

No horóscopo chinês, 2010 é o Ano do Tigre – mas me parece que as listras deste tigre são verde-amarelas.