O ano do Design Gráfico Brasileiro na China

Por Bruno Porto

“Nosso design gráfico promete ter em 2009 seu melhor ano no país que hoje é o maior parceiro comercial do Brasil”.

Apesar da cada vez mais catastrófica miopia do nosso governo em relação a China (como pode ser atestado em http://blog.estadao.com.br/blog/claudia/?title=lula_e_o_estranho_caso_da_pequena_embaix&more=1&c=1&tb=1&pb=1), que como efeito Tostines ou é causa ou é consequência das prioridades equivocadas do chanceler Celso Amorim (entenda em http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=578881), nosso design gráfico promete ter em 2009 seu melhor ano no país que hoje é o maior parceiro comercial do Brasil.

Graças ao esforço pessoal de não mais que um punhado de funcionários do governo, como o Embaixador Marcos Caramuru de Paiva e a Vice-Consul Luciana Belmok do Consulado-Geral do Brasil em Xangai, cerca de 200.000 pessoas poderão conferir de perto nossa recente produção de design gráfico: pela primeira vez fora do país, a exposição da 9ª Bienal Brasileira de Design Gráfico vai ser montada entre 14 e 21 de outubro na Shanghai International Creative Industry Week 2009.

Este evento anual conta com a presença de pavilhões da Holanda, Dinamarca, Japão, Taiwan, Austrália e Alemanha (e agora, pela primeira vez, do Brasil) com mostras de design, publicidade, arquitetura, mobiliário e moda, rodadas de negócios, e muita troca de cartões de visita. Eu visitei as três últimas edições da SICIW e a quantidade de visitantes só se compara a sua variedade: famílias com crianças e velhinhos aposentados, empresários querendo comprar e contratar profissionais, profissionais estrangeiros (dos 18,5 milhões de habitantes, Xangai possui 800.000 não-chineses) a procura de contatos e parcerias nestas áreas todas citadas, representantes de associações profissionais e escolas de design de países de toda a Ásia… Enfim, de tudo um muito, cheia todos os dias.

A presença do Design Gráfico Brasileiro neste evento foi pensada com um objetivo, em três fases: apresentar + (buscar) sensibilizar + (na tentativa de) criar referências perante o público chinês. É a estratégia que países como a Holanda e Espanha têm utilizado. A primeira, que participa há quatro anos da SICIW, realizou ano passado a impactante exposição Power do escritório Thonik Design no Shanghai Art Museum, enquanto a segunda já se valera de 2007 como o Ano da Espanha na China para ocupar o mesmo local com a rica mostra 300% Spanish Design, com três centenas de produtos e cartazes. Isso tem contribuído sobremaneira para a penetração do design gráfico destes países (através da contratação remota de serviços e, localmente, de pessoal) entre o empresariado chinês e diversas multinacionais que atuam em Xangai.

Analisando como as feiras de promoçãos de serviços de design são realizadas, me convenço quase inteiramente que ações no âmbito cultural (exposições, publicações, palestras, workshops) ainda são mais eficientes quando se trata de promover design gráfico. Quando bem realizadas, feiras e rodadas de negócios podem ser bons instrumentos para a promoção e realização de negócios de design de produto, de jóias, de mobiliário, de moda, automobilístico etc pois estes geralmente tem atrelados a produção de bens de consumo, comercializados para terceiros. Apesar do design gráfico estar obrigatoriamente em todos os outros, é talvez o mais intangível, e em boa parte dos casos é contratado pelo seu usuário final, tornando-se mais difícil de ser comprado.

Um exemplo: o pavilhão da Dinamarca na SICIW 2008 contava apenas com design de mobilário e moda, e segundo a organização foi o recordista de rodada de negócios, com 55 contatos feitos entre empresas locais e participantes. Estandes com os produtos expostos em displays e araras eram examinados pelos empresários chineses que escolhiam o material, o modelo e compravam ou encomendavam desenhos de outros semelhantes. Com design gráfico, a coisa é diferente. Uma empresa que desenvolve sistemas de identidade visual expoe em seu estande logotipos, folheterias, sinalização, rótulos desenvolvidos, mas o cliente em potencial não pode exatamente apontar uma marca e pedir eu quero aquela ali ou faz uma parecida. Deixemos isso para os sites de marcas de 9,99.

O desinteresse, ou inaptidão, do governo em promover a exportação de design gráfico se dá pela limitação que tem em se envolver apenas com processos regidos pela tangibilidade.

Algumas semanas atrás nos reunimos em Xangai com uma representação da Apex, a agência brasileira de exportação e investimentos para explicar o contexto da vinda da Bienal a China e ver se haveria algum tipo de interesse conjunto. Afinal, estamos promovendo o design brasileiro para 200.000 pessoas em um dos países que ainda está com a cabeça acima da crise econômica mundial. Me espantei ao descobrir que, segundo eles, não há interesse em apoiar a realização da Bienal. Como não conseguiram resposta para a única pergunta que fizeram (quantos negócios pretendem ser fechados neste evento?) nem tampouco conseguiram responder a nossa pergunta (como fazer negócio sem que o comprador saiba o que está comprando?), não houve arranjo. Segundo eles, o modelo de promoção que a Apex segue é o da Brazil Design Week, que como vimos em http://www.designbrasil.org.br/artigo/brazil-design-week-2008-criticas-e-sugestoes não dá muito certo para as empresas de design gráfico justamente no quesito retorno financeiro.

Em Xangai são realizadas cerca de 900 feiras por ano é, quase três por dia! que só atraem quem realmente quer comprar, e sabe o que pode ser comprado. Para o público chinês, o design gráfico brasileiro é hoje tão conhecido como o nosso café: talvez para sua surpresa, caro leitor, bem pouco. Por incível que possa parecer, o Brasil quase não vende café para a China, que compra do Vietnã a proximidade garante um bom preço e da Colômbia, que apesar de um produção quase quatro vezes menor que a brasileira, promove a marca Colômbia através da marca Juan Valdez. Desunidas, as empresas brasileiras de café não coordenam uma ação conjunta de exportação preço, atendimento, quantidade e o café brasileiro é simplesmente desconhecido aqui. Daí, a estratégia é que em 2009 a China receba uma dose maciça de Design Gráfico Brasileiro.

Para promover a Bienal, foi realizado em 16 de abril no Raffles Design Institute de Xangai o 9th Brazilian Graphic Design Biennial Seminar, em inglês e chinês, para cerca de 120 pessoas, entre professores e estudantes universitários e de ensino médio locais, jornalistas e profissionais chineses e estrangeiros (da Alemanha, Brasil, Cingapura, EUA, Filipinas, Índia, Israel, Letônia, Reino Unido, entre outros) que atuam no mercado publicitário e de design. Neste que foi o único evento oficial da Programação Paralela da Bienal no exterior, foi apresentado um panorama da produção atual de design gráfico brasileiro através de projetos selecionados para a Bienal, entre sistemas de identidade visual, embalagens, fonte tipográficas e dingbats, animações, cartazes, exposições, design editorial e material promocional de escritórios e profissionais do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Recife e Curitiba.

O seminário de uma hora e meia foi encerrado com o convite para a abertura da exposição DINGBATS BRASIL em 9 de maio na The Foundry, galeria pertencente a uma dupla de designers (de embalagem e interiores) estrangeiros. 250 pessoas compareceram a vernissage, e outras mil durante as quatro semanas seguintes, da mostra que reune 35 alfabetos pictóricos de autoria de 22 designers de todo o país, que resgatam e registram aspectos da nossa cultura – música, religião, arte, esporte, culinária e o próprio design. A mostra ganhou um catálogo-poster impresso em 3 idiomas (chinês, inglês e português) e presença online bilíngue em http://www.verbeat.org/dingbatsbrasil/ que se propõe a ser um registro não só da mostra itinerante, como da produção Brasileira de dingbats. Visitação e forte retorno de mídia causada também pela realização simultânea de outras exposições de artes visuais brasileiras fez a galeria solicitar a extensão da mostra até 11 de julho.

O próximo destino da DINGBATS BRASIL deverá ser Pequim, durante o Icograda World Congress que acontece uma semana depois da Shanghai International Creative Industry Week, entre 23 e 30 de outubro. Além da presença confirmada do designer paulista Kiko Farkas no seleto time de palestrantes (que conta também com o escritor inglês Rick Poynor e os norteamericanos Sol Sender, autor da campanha de Barak Obama, Victor Margolin e, olha só, David Carson), serão apresentados os resultados de um workshop feito na semana anterior em Xangai combinando elementos da cultura visual brasileira e chinesa. Além deste workshop com estudantes chineses e estrangeiros, estão previstas também visitas guiadas (em chinês, inglês e português afinal, Xangai tem 36 empresas brasileiras com escritórios locais e cerca de mil brasileiros residentes), três palestras e lançamentos de duas publicações de design brasileiro.

No momento, estamos (a curadora Cecilia Consolo, a ex-vice-presidente do Icograda Ruth Klotzel, o consultor cultural Braulio Flores, a arquiteta Elizabeth Premazzi e eu) tentando costurar um jeito de levar ao Icograda World Congress uma versão pocket da Bienal com o material produzido para Xangai. Conseguindo isto, é Design Gráfico Brasileiro chegando a mil formadores de opinião de 60 países.

Havendo uma percepção, básica que seja, do nosso design gráfico, com nossos empresários de design se ferramentando para atender a demanda chinesa, e as Apexes da vida se mobilizando de forma adequada, poderemos fazer bonito em 2010, quando a China realizar em Xangai a Exposição Universal, com previsão de 70 milhões de visitantes. Aí sim, os números serão importantes.