O caráter “sacro” do design

Por Editor DesignBrasil

Altar assinado pelo atelier belga Art Grossé

 

Nas várias vezes que coloquei como pauta de conversas informais a questão do Design Sacro como um estudo particular do “fazer” do design, muitos de meus interlocutores me questionaram se seria o tal design sacro um ramo específico do design ou uma forma de pensar o design no contexto religioso.

Sempre fiquei tentado a responder que, assim como na arte e na arquitetura, o caráter sacro é dado pelo fazer de qualquer uma dessas áreas voltado a um culto religioso propriamente dito. Um arquiteto que projeta uma igreja é tão arquiteto quanto qualquer outro, assim, seu projeto se diferenciará como sacro ou não, em vista daquilo que ele tomou como base para concepção deste projeto. Em outras palavras, o conjunto de traços particulares que compõem o projeto arquitetônico é que o definirá, neste caso, como sacro, e não o seu fazer em si. Note que não existe uma divisão ou fragmentação da arquitetura ao defini-la como sacra, mas sim a identificação de suas particularidades conceituais que definem assim seu caráter.

Por isso o termo caráter sempre me soou muito bem ao tratar do assunto. A palavra “caráter” pressupõe traços de personalidade de um indivíduo, sem contudo diferenciar sua estrutura construtiva dos demais. Assim como na arquitetura e na arte, o design terá seu caráter sacro definido quando seus agentes impulsionadores estiverem de acordo com aquilo que o âmbito sacro define seu ser, ou seja, o serviço ao sagrado de acordo com as tradições doutrinais e diretrizes litúrgicas de cada credo. Assim, design é design, seja ele gráfico, de produto, de interiores ou moda, o que o colocará dentro da esfera sacra são as particularidades conceituais do serviço ao sagrado inseridas em quaisquer áreas de atuação do design.

Compreendendo que Design Sacro não se trata de um outro tipo de design, mas sim uma forma particular de pensar o projeto, em qualquer que seja a vertente do design, estando esta a serviço do sagrado, chegamos então a um segundo questionamento: qual é então esse conjunto de traços particulares? O que define o caráter sacro de um projeto de design?

O simbolismo sempre foi um traço marcante de qualquer manifestação religiosa. Símbolo é uma palavra de origem grega que significa “aquilo que une”, ou seja, um elemento que em sua constituição agrupará um determinado grupo de indivíduos a uma ideia, desde que estes indivíduos estejam familiarizados com a mesma. Na tentativa humana de manifestar a presença do divino e sua relação com o homem, as várias religiões buscaram sempre atribuir significados a cores, objetos, formas e palavras, criando assim um rico conjunto de símbolos, cujo cerne de tal prática visa sobretudo a unidade daqueles que crêem com aquilo que crêem.

Toda religião possui em sua estrutura litúrgica um conjunto de símbolos que comumente são expressos através de manifestações artísticas, como a pintura e a escultura, porém, é no catolicismo que encontramos a relação com a arte de forma não somente rica, mas sobretudo formalizada e oficializada. A Igreja Católica, em seus quase dois milênios de história, experimentou do oriente ao ocidente as mais diversas variações do fazer artístico e sua evolução, tendo a arte como parte indispensável em seus templos, vestuário, mobiliário e publicações, além de toda liturgia propriamente dita. Com isso, o catolicismo pôde através dos séculos alcançar uma profunda maturidade em sua relação com a arte, tendo inclusive documentos oficiais que regulam o fazer artístico a serviço do sagrado, dentro do serviço litúrgico e da espiritualidade católica.

Por isso, ao falarmos de arte ou arquitetura sacra (sobretudo no ocidente), é quase que redundante dizer que está se falando de Igreja Católica. Isso não exclui qualquer obra de arte feita dentro dos preceitos religiosos de qualquer outro credo do conceito “sacro” do fazer artístico, mas aqui trataremos especificamente do âmbito “sacro” no sentido “católico” da palavra.

Luminária Bless You Lamp! do designer russo Dima Luginoff

Falamos de símbolo, de arte e de Igreja Católica, mas a pergunta não era sobre design? Para lembrar: qual é então esse conjunto de traços particulares? O que define o caráter sacro de um projeto de design?

Os últimos três parágrafos são importantes para que possamos compreender que os agentes impulsionadores do caráter sacro no design estão diretamente relacionados com aquilo que o catolicismo entende como expressão artística de seus simbolismos. Ao falar de arte, os documentos da Igreja não direcionam suas recomendações e conceitos à arte puramente, mas a toda expressão material de seu conjunto de doutrinas e símbolos.

Assim, aquilo que é colocado pela Igreja como conceito ou norma para a arte, é o mesmo colocado para a arquitetura e, consequentemente, para o design. Um exemplo claro é o parágrafo 123 da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, lançada pelo Concílio Vaticano II na década de 60:

“A Igreja nunca considerou um estilo como próprio seu, mas aceitou os estilos de todas as épocas, segundo a índole e condição dos povos e as exigências dos vários ritos, criando deste modo no decorrer dos séculos um tesouro artístico que deve ser conservado cuidadosamente. Seja também cultivada livremente na Igreja a arte do nosso tempo, a arte de todos os povos e regiões, desde que sirva com a devida reverência e a devida honra às exigências dos edifícios e ritos sagrados. Assim poderá ela unir a sua voz ao admirável cântico de glória que grandes homens elevaram à fé católica em séculos passados.” (Sacrosanctum Concilium, 123)

Eis a primeira boa notícia para o designer, ou seja, caso você seja contratado, por exemplo, para projetar o mobiliário do presbitério de uma Igreja, não é necessário atacar de romântico e necessariamente fazer o redesign de um altar gótico ou barroco. É necessário, obviamente, saber primeiro o que é um altar, sua função e simbolismo, bem como o que é um presbitério, uma cátedra, um ambão, enfim, estar sintonizado no contexto onde o seu projeto ganhará vida e função. Quanto ao desenho do mobiliário, este pode muito bem obedecer às tendências e concepções do design atual, “desde que sirva com a devida reverência e a devida honra às exigências dos edifícios e ritos sagrados”. Esse documento composto por nove parágrafos exclusivamente tratando de arte sacra é certamente o principal direcionador de artistas, arquitetos e designers hoje na concepção de projetos para igrejas. Além de definir a postura da Igreja quanto à arte sacra, a Sacrosanctum Concilium ainda incentiva a promoção e formação dos artistas bem como a criação de comissões de arte sacra nas dioceses. Se o que define o caráter sacro de um projeto é a devida honra ás exigências dos ritos sagrados, que exigências são essas? Ora, são justamente as ligadas ao conjunto de símbolos que compõem esses ritos. Para facilitar, vamos usar o exemplo do projeto de um altar. A primeira coisa a se pensar é: o que é um altar católico?

Descansadeira Cruz, dos designers suecos Emanuelsson e Bastian Bischoff

Jesus, ao se entregar na cruz, redimiu a humanidade de seus pecados. Antes disso, na Última Ceia, afirmou que aquele pão e vinho que Ele entregou aos discípulos são o mesmo Corpo e o mesmo Sangue que serão entregues na cruz no dia seguinte. Durante a Missa (ou Divina Liturgia, como se chama no Oriente), esse ato é atualizado pelo sacerdote (o padre) sobre o altar, que age In persona Christi (na pessoa de Cristo), ou seja, o sacrifício de Cristo na cruz do calvário é atualizado de forma incruenta (sem derramamento de sangue), nas formas do pão e do vinho. Assim, o altar não é uma mera mesa de refeição e partilha dentro da espiritualidade católica, mas sim um objeto sagrado, pois sobre ele realiza-se a mais sagrada das liturgias do catolicismo.

Dessa forma, ao conceber o projeto de um altar, seria necessário evidenciar sua importancia simbólica, sem contudo diminuir sua importancia funcional, afinal, o que acontece sobre o altar é mais importante que o próprio altar. Ainda nesse exemplo, o designer teria já definidos alguns requisitos projetuais, dados pela própria liturgia, como é o caso do material, requisito definido pela IGMR (Instrução Geral do Missal Romano): N.263: a mesa do altar fixo seja de pedra natural. É, porém, admitido outro material digno, sólido e esmeradamente trabalhado, se aprovado pela conferencia dos bispos da região […].

Este exemplo do altar ainda mereceria outros apontamentos, mas esta rápida introdução já nos dá ideia do tipo de questões a serem levantadas pelo designer num projeto de mobiliário para uma igreja. Nota-se então que num projeto sacro, além das problemáticas e requisitos ditos “clássicos” de um projeto qualquer de mobiliário, há problemáticas e requisitos muito particulares, pois tangem questões doutrinais e simbólicas que estão além do senso comum na percepção de um móvel.

Voltando a questão do “caráter”, é justamente esse diferencial no que tange ao fazer do design que faz com que projetos sacros não se tratem de “um outro design”, mas sim do design “com um olhar a mais”. Em projetos sacros, para que o designer possa olhar “além do design”, faz-se necessário o conhecimento das questões que envolvem cada produto em particular, sua função e simbolismo, sua evolução histórica e litúrgica, além de sua participação dentro do universo do espaço sagrado.

Essa compreensão da mística do espaço sagrado é indispensável, pois cada componente é parte integrante e indivisível de um único objetivo, que é conduzir o homem a contemplar o arquétipo do paraíso. Um designer não pode desenhar um cálice, um cibório, uma cátedra, um ambão ou um crucifixo como se cada um destes elementos fossem independentes uns dos outros. Não pode imprimir em seus projetos elementos que irão contra aquilo que esses objetos têm por finalidade, que é a devida honra e glória a Deus, muito menos diminuir o valor agregado de séculos de tradição litúrgica. Em outras palavras, o conhecimento das Sagradas Escrituras, da Tradição da Igreja e da liturgia são pontos indispensáveis na coleta de dados de um projeto sacro.

Ao falar de espaço sagrado e dar exemplo de objetos, talvez a ideia de que Design Sacro esteja voltado mais para o projeto de produto tenha lhe passado na mente. Mas para mostrar que as questões acima levantadas servem de base para qualquer projeto de design, seja ele de produto, gráfico, moda etc, vou citar mais um exemplo, agora dentro do universo gráfico.

Em 2006 fui convidado a fazer o cartaz de uma palestra sobre a vida de São Pedro e a missão de seu sucessor, o Papa, que seria também adaptado para camisetas e panfletos. São Pedro foi discípulo e apóstolo de Jesus, e foi a Pedro que Cristo entregou a autoridade sobre a Igreja dizendo: “Também eu te digo que tu é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado no céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16, 18-19). Assim, segundo a compreensão católica, São Pedro é o chefe dos apóstolos e o pastor de toda Igreja. Sendo martirizado em Roma, seus sucessores (os papas) recebem então seu ministério, ou seja, a liderança da Igreja.

Pensei então em qual símbolo utilizar para compor o cartaz, que ligasse a figura de Pedro aos papas e logo me veio à mente a forma do martírio de São Pedro. Assim como Cristo, Pedro também foi crucificado, mas não sentido-se digno de morrer como seu mestre, pediu que sua cruz fosse virada e ele morresse de cabeça para baixo, ou seja, a Cruz de São Pedro, como é popularmente conhecida, é uma cruz de cabeça para baixo.

Eis o meu erro! Achei de utilizar a foto do papa com uma cruz de cabeça para baixo. Quando apresentei o cartaz, senti que seria excomungado. Cometi o erro de não considerar que essa história do martírio de Pedro não é muito conhecida e que meu cartaz certamente provocaria a ideia de que a figura do papa estaria ligada a um simbolismo satânico!

Note que meu objetivo não é doutrinar ninguém. Sou designer e meu objetivo é fazer design. Mas meu trabalho não pode ir contra os valores do meu cliente, independente de minhas concepções sociais, religiosas ou filosóficas. Aliás, é oportuno lembrar que o estudo das questões religiosas envolvidas nos projetos de Design Sacro não visam o doutrinamento do designer, mas sim a real contribuição do design a algo maior do que ele por si só, principalmente àqueles que irão interagir com seus produtos. Qualquer peça de design que esteja a serviço de algo sagrado não tem valor por si mesma, mas sim pela relação existente entre sua funções (estéticas, funcionais etc) e o culto sagrado.

Insisto em dizer que aquilo que é estabelecido pela igreja como requisito para a arte sacra é “também” base para o Design Sacro, e não uma forma de confundir arte com design. Concordo com Wollner ao afirmar que “design não é arte, como definimos arte”, mas sendo o design herdeiro das funções outrora pertencentes ao fazer artístico, ele herda também, sobretudo nesse caso, aquilo que a arte deve tomar como requisito de projeto.

Projeto e arte? Sim! Ao contrário do que muitos tem (erroneamente) hoje como arte sendo a expressão livre da visão de mundo de um indivíduo, a arte, sobretudo no âmbito sacro, sempre foi objetiva, estando à serviço da mensagem evangélica. Ao pintar um quadro ou esculpir uma imagem, o artista não expressava tão somente suas ideias e concepções de beleza, mas antes buscava atender aos objetivos que aquela peça deveria alcançar dentro do contexto religioso. Toda arte sacra obedecia (e ainda deve obedecer!) a uma metodologia que ia desde a identificação de um problema (catequizar, ornar, honrar etc), passando pelos requisitos doutrinais e litúrgicos, e, através de suas formas, cores, volumetrias, materiais e composições, a solução desse problema.

Assim, se a arte em suas diversas vertentes é uma precursora do design, a arte sacra mostra-se ainda mais ligada à ideia de Design Sacro, pois compartilha ainda hoje suas mesmas motivações e princípios. Juntamente com a arquitetura, design e arte visam materializar conceitos e conduzir os fiéis a contemplar realidades ainda invisíveis, porém não menos “reais” segundo a fé cristã, as quais todos os católicos almejam e pelas quais o próprio Cristo entregou-se em sacrifício, ou seja, a eternidade do homem junto a Deus e a plenitude da felicidade no paraíso.

Artigo de Pablo Neves