O Design e o Designer Competitivos: uma necessidade de mercado

Por Editor DesignBrasil

 O design e o designer em especial estão passando por um momento de amadurecimento que implica no reconhecimento de um novo pensar deste ofício. Desde o início da construção da profissão no Brasil, nos idos anos 1950, em que estava profundamente enraizada na fundamentação vinda das escolas de design da Bauhaus e Ulm, já passamos por um processo de emancipação muito bem defendido por posturas de designers competentes tanto nas suas análises teóricas como na prática da profissão – neste último caso este fato pode ser observado pelo reconhecimento da competência através dos diversos prêmios nacionais e internacionais[1] e pela vasta produção bibliográfica destes últimos dez anos.

Mas isto não é suficiente para colocar o design/designer num patamar de reconhecimento de mercado, que ainda o percebe como um ser estético e não como componente essencial para o sucesso de uma empresa. A empresa, independente do seu porte, acredita que o designer, com raras exceções, existe para dar um valor estético que em tese redundaria em aumento das vendas, sem perceber que o valor do design vai além do belo e da funcionalidade – e esta análise acaba prejudicando o próprio designer, que fica desvalorizado como profissional.

No Brasil, o design como negócio ainda não se estruturou – o próprio designer perde espaço para outros agentes, já que não consegue pensar estrategicamente seu próprio oficio e menos a necessidade do cliente – o designer em particular, em especial o recém-formado ou com pouca experiência de mercado, tende a se colocar como projetista de ideias, mas não como estrategista, e esta dificuldade nasce não necessariamente da postura do próprio designer com todas suas deficiências cognitivas de base, mas do próprio ensino do design onde o aluno acaba saindo da faculdade sem uma formação empresarial e de gestão que lhe permita não só se colocar como um ente competitivo (endomarketing), mas principalmente como um solucionador de negócios da empresa.

Esta deficiência precisa ser corrigida com urgência em virtude das mudanças de mercado pelas quais o Brasil está passando nestes últimos anos, que acaba mostrando as carências de mão de obra competitiva para solucionar problemas, deixando espaço para a inovação advinda de outros mercados e não gerando a própria inteligência. Viramos países produtores e não geradores de marcas e de inovação. Em parte, a questão da inovação no Brasil tem mudado para melhor, seja no âmbito das tecnologias ou em outras áreas do conhecimento – mas no momento de gerar novas experiências ao consumidor final, área de atuação do designer, esta inovação ainda está engatinhando.

A articulação destas novas estratégias de pensamento começa pelo próprio ensino do design. É necessário estruturar uma grade que inclua:

 ? PENSAR O DESIGN – através de disciplinas teóricas que permitam que o aluno raciocine seu papel e ofício no ato de ser designer, e principalmente que aprenda a compreender-se como ser humano e como componente social – o aluno deve pensar o design através da observação. Disciplinas básicas: Antropologia (conhecer as tribos, grupos sociais, movimentos sociais etc.), Filosofia (conhecer o eu e o outro), Sociologia (conhecer a sociedade), História da Arte e do Design Contemporâneo, História do Design Brasileiro (a procura de uma linguagem brasileira), Linguagens do Design.

? PRATICAR O DESIGN – indo além da prática simples da modelagem em ateliês, o aluno deveria se integrar mais na prática produtiva de suas ideias. Para que isto aconteça, as Instituições de Ensino Superior (IES) deveriam gerar convênios com entidades que possuem laboratórios de experimentação de processos, seja gráfico ou de produto. Disciplinas básicas: Observação e Criatividade, Metodologia de Projeto, Projeto do Objeto, Projeto Gráfico, Inovação e Tendências, Desenho de Observação, Desenho Técnico, Computação Gráfica (ensinar a criar com a ferramenta), Materiais e Processos (teoria e prática em campo), Ergonomia (de interfaces de produto, gráfico e conforto ambiental).

? GERENCIAR O DESIGN – necessariamente deverá passar por uma compreensão das disciplinas que gravitam em torno da gestão (marketing, sociologia, antropologia, entre outras). O aluno deve praticar a gestão através da montagem de casos reais, e esta prática pode ser iniciada no próprio TCC, que deveria ser uma oportunidade de negócios, do inicio de um empreendedorismo, e não ser mais um TCC que fica nas prateleiras das IES. O aluno graduado tem dificuldade para gerar um diálogo estratégico com a empresa – seu cliente. Disciplinas básicas: Gestão do Design, Marketing, Empreendedorismo e Endomarketing, Gerenciamento de projetos através de Softwares.

Em paralelo a estes três focos do ensino do design, as IES deveriam dar apoio prático que complemente as atividades normais do currículo através de cursos livres, como: Softwares Gráficos (ensinar o software), Fotografia (aprender a prática do observar), Modelagem (aprender o espaço tridimensional), entre outras.

Percebo, como acadêmico, que o aluno é criativo, mas suas ótimas ideias de produtos e projetos gráficos são esquecidas nos intramuros das escolas de design, que poderiam alavancar a competitividade da indústria brasileira, mas, às vezes, por falta de vontade ou por falta de apoio, ficam só na intenção – chegamos ao ponto de que os próprios prêmios de design, em especial os primeiros lugares, não são inseridos no mercado, e o interessante é que as próprias indústrias incentivam a criação deste prêmios (o que é muito louvável), mas as mesmas, poucas vezes, viabilizam o próprio prêmio concedido.

À procura de uma excelênciaDias atrás li numa publicação semanal brasileira de grande circulação um ponto de vista sobre o significado da excelência dentro da construção de uma orquestra sinfônica em São Paulo, que em virtude desta procura de ser uma das melhores orquestras de referência no mundo, o novo diretor teve que demitir quase que um terço dos componentes da orquestra, devido ao conformismo com as antigas estruturas – os demitidos não gostavam do risco, há muitos anos faziam o mesmo, estavam acomodados, era necessário mudar ou mudar-se – vários entenderam que não é possível parar no tempo, era necessário perseguir a perfeição, ser o melhor.

Esta leitura me fez refletir sobre a excelência no ensino do design brasileiro e a primeira pergunta que me veio à mente é: qual é a escola de design do Brasil que pode ser considerada como referência em excelência? Qual seria a escola onde todos gostariam de estudar independente do investimento econômico? Não achei uma resposta. Ainda que haja várias escolas de qualidade no Brasil, dificilmente poderiam ser reconhecidas no mundo como referência. Lá fora, temos o Politécnico de Milão (Itália), o Royal College of Art – RCA (Inglaterra), o Instituto Europeu de Design – IED (Itália), o Pratt Institute (Estados Unidos) entre outras, todas ‘sonho de consumo’ dos alunos e recém-graduados das nossas escolas de design.

A seguir, apresento uma lista apresentada pelo Bloomberg/Businessweek[2] com as melhores escolas de design no mundo, conforme critérios relacionados a cenários de negócios (Design Thinking / Management Design).

Segundo a Bloomberg, as universidades estão tentando manter-se através da promoção do ensino que oferece suporte a uma abordagem interdisciplinar para resolver problemas. Apresentam os programas, oferecidos em escolas de negócios e de faculdades de design (por vezes em conjunto por ambos), um instantâneo atual do nascente movimento de ensinar o pensamento do design e da inovação para uma nova geração de líderes empresariais globais. As escolas estão listadas em ordem alfabética:

ENTIDADES DE ENSINO CIDADE – PAÍSArt Center College of Design  Pasadena, Califórnia / USACalifornia College of the Arts San Francisco, Califórnia / USACarnegie Mellon University Pittsburgh, Pasadena / USACase Western Reserve University Cleveland, Ohio / USAChiba University Chiba, JapãoChina Central Academy of Fine Arts Beijing, ChinaCranfield University/University of the Arts London Cranfield, U.K., London, U.K.Delft University of Technology Delft, HolandaDomus Academy Milan, ItáliaUniversity of Art and Design Helsinki Helsinki, FinlândiaHong Kong Polytechnic University Hong Kong, ChinaIllinois Institute of Technology Chicago, Illinois / USAImperial College/Design London London, U.KKorea Advanced Institute of Science and Technology Daejeon, CoréiaNational Institute of Design Ahmedabad, ÍndiaNorthwestern University Evanston, Illinois / USAPontifícia Universidade Católica do Paraná Paraná, BrasilPratt Institute New York, N.Y. / USARoyal College of Art/Imperial College London London, U.K.Savannah College of Art and Design Savannah, Ga. / USASchool of Visual Arts New York, N.Y. / USAShih Chien University Taipei, Taiwan / China NacionalistaStanford University Stanford, Califórnia / USASuffolk University Boston, Mass. / USAUmeå University Umeå, SuíçaUniversity of Califórnia Berkeley Berkeley, Califórnia / USAUniversity of Cincinnati Cincinnati, Ohio / USAUniversity of Gothenburg Gothenburg, SuíçaUniversity of Toronto Toronto, Ontário, Canadá

Com relação às escolas de design analisadas pelos critérios dos seus programas  de estudo[3] as melhores do mundo são:

ENTIDADE DE ENSINO CIDADE – PAÍSArizona State University, College of Design Tempe, Arizona. USAArt Center College of Design Pasadena, Califórnia. USABabson College Babson Park, Mass. USABainbridge Graduate Institute Bainbridge Island, Wash. USACalifornia College of the Arts San Francisco. USACarnegie Mellon University Pittsburgh, Pa. USACentral Saint Martins College of Art & Design Londres, InglaterraCleveland Institute of Art Cleveland, Ohio. USACollege for Creative Studies Detroit, Michigan. USADartmouth College, Thayer School of Engineering Hanover, N.H. USADelft University of Technology Delft, HolandaDesign Academy Eindhoven Eindhoven, HolandaDomus Academy Milan, ItáliaENSCI Les Ateliers Paris, FrançaESDI Brasil Rio de Janeiro, BrasilGeorge Brown College Toronto, Ont. CanadáGeorgia Institute of Technology Atlanta, Ga. USAHarvard Business School Boston, Mass. USAHochschule Pforzheim Pforzheim, AlemanhaHong Kong Polytechnic University Hong Kong, ChinaHongik University College of Design Seoul, Coréia do SulIllinois Institute of Technology’s Institute of Design Chicago, Ill.  USAIndian Institute of Technology, Industrial Design Centre Mumbai, ÍndiaKöln International School of Design Cologne, AlemanhaKaos Pilot International Aarhus, DinamarcaKeio University Tokyo, JapãoKorea Advanced Institute of Science and Technology Daejeon, Coréia do SulLondon College of Communication London, InglaterraMassachusetts Institute of Technology Cambridge, Mass.  USAMusashino Art University Tokyo, JapãoNational Cheng Kung University Tainan, TaiwanNational Institute of Design Ahmedabad, ÍndiaNorth Carolina State University College of Design Raleigh, N.C. USANorthwestern University’s Kellogg and McCormick Schools Evanston, Ill.  USANYU Interactive Telecommunications Program New York, N.Y.  USAOslo National Academy of the Arts (KHIO) Oslo, NoruegaParsons The New School for Design New York, N.Y. USAPolytechnic University of Milan Milan, ItáliaPratt Institute Brooklyn, N.Y. USARensselaer Polytechnic Institute Troy, N.Y.  USARhode Island School of Design (RISD) Providence, R.I. USARochester Institute of Technology Rochester, N.Y. USARoyal College of Art London, InglaterraSan Jose State University, School of Art & Design* San Jose, Calif.  USAShih Chien University Taipei, TaiwanStanford University: Hasso Plattner Institute of Design, and the Product Design Engineering Program Palo Alto, Calif. USAStrate Collège Paris, FrançaTongji University Shanghai, ChinaTsinghua University Beijing, ChinaU. of Cincinnati, Design, Architecture, Art & Planning Program Cincinnati, Ohio. USAU. of Illinois, Chicago Chicago, Ill. USAU. of Michigan, Integrated Product Development Program Ann Arbor, Mich. USAU. of Toronto, Rotman School of Management Toronto, Ont. CanadáU.C-Berkeley, Haas School of Business Berkeley, Calif. USAUCLA Design Media Arts department Los Angeles, Calif. USAUMEA Institute of Design Umea, SuéciaUniversity of Art & Design Helsinki Helsinki, FinlândiaUniversity of Oxford, Saïd Business School Oxford, InglaterraVirginia Commonwealth University Adcenter Richmond, Va. USAZollverein School of Management and Design Essen, Alemanha

Pelo mapa, é possível ver onde fica esta última listagem de excelência:

Pelas duas listas é possível perceber que somente duas entidades de ensino brasileiras se encaixam dentro dos critérios de excelência da Bloomberg/Businessweek: a Pontifícia Universidade Católica do Paraná e a Escola de Desenho Industrial do Rio de Janeiro.

Podemos até criticar os critérios de análise desta competitividade, mas seria interessante que esta leitura não nos levasse a uma análise nacionalista da situação, pelo contrário: mostra-se que devemos melhorar muito mais para que outras universidades, tão excelentes como as mencionadas, aparecessem nesta lista e em outras. Para isto, seria interessante desenvolver critérios de excelência, independente da visão do MEC, que levem em conta a proposta qualitativa global do ensino.

A procura de excelência nas escolas de design no Brasil deve começar não só para mudar as atitudes dos docentes e discentes, mas principalmente das próprias instituições de ensino, que devem deixar de ver o aluno como ‘cliente’ – paradigma que precisa ser quebrado para que a excelência tenha sentido.

Por Prof. Me. Luis Emiliano Costa Avendaño

Referências
[1] iF Product Design Award 2011, o Brasil teve seu melhor resultado dos últimos anos, com 23 produtos premiados, o que mostra o potencial de produção do país.

[2] http://images.businessweek.com/ss/09/09/0930_worlds_best_design_schools/1.htm

[3] http://images.businessweek.com/ss/07/10/1005_dschools/index_01.htm?chan=innovation_special+report+–+d-schools_special+report+–+d-schools

Veja também