O Designer e o terremoto

Por Bruno Porto

O terremoto de 7,8 graus de magnitude na Escala de Richter que atingiu a província de Sichuan na China, em 12 de maio último matou 69 mil pessoas e deixou cerca de 19 mil desaparecidos. Individualmente, e como designer gráfico, como ajudar?

O terremoto de 7,8 graus de magnitude na Escala de Richter que atingiu a província de Sichuan, na China, em 12 de maio último, matou 69 mil pessoas e deixou cerca de 19 mil desaparecidos. Em ano de Olímpiadas ameaçadas por questões ecológicas e de polêmicas manifestações no Tibete, as atenções do mundo se voltaram para a China pela primeira vez com simpatia. O país parou oficialmente inclusive, com três dias de luto onde a grande maioria dos bares, boates, teatros e mesmo academias de ginástica e casa de massagem não abriram, e absolutamente toda a cobertura da tv era relativa ao incidente ­e vem se mobilizando em números impressionáveis: 89 mil pessoas foram hospitalizadas e 158 mil habitantes foram removidos das zonas mais perigosas. Isso obviamente requer uma quantidade de recursos inimaginável.

No dia seguinte ao ocorrido, quando o número de mortos já saíra das centenas e chegara aos milhares passou-se pelos departamentos da universidade onde leciono uma sacolinha de doações para a Cruz Vermelha. Doei, claro, e compareci ainda a dois eventos que contribuiram para a entidade, um jantar-com-bingo organizado pela comunidade brasileira (3 mil dólares levantados) e um show gratuito ao ar livre com 6 horas de duração organizado por cerca de trinta músicos de diversas nacionalidades que moram em Xangai (9 mil dólares com a venda de camisetas, bottons, bebidas e velas decorativas).

Mesmo assim, fiquei com uma sensação incômoda, pois acho que o problema aqui não é dinheiro. Em casos como o Tsunami de dois anos atrás na Tailândia ou do recente ciclone em Mianmar, a situação é diferente, e a grana faz diferença. Afinal, a China, como país, possui recursos financeiros. Mas, assim como o Brasil, tem uma corrupção tétrica, e o medo das pessoas é estar doando um dinheiro que não vá chegar a quem necessite.

Não que um campanha de doação na China não tenha suas, digamos, qualidades. Afinal, é um bilhão e meio de pessoas. Se apenas metade doasse 1 renminbizinho que seja, tem-se aí mais de cem milhões de dólares. E vi que os chineses estão fazendo questão de doar, inclusive os mais humildes, como a faxineira e os porteiros do prédio.

Uma semana após o primeiro tremor (outros viriam depois, destruindo mais de 70 mil habitações) haviam sido arrecadados quase 90 milhões de dólares em doações particulares. Três semanas depois, esse montante chega a 5,7 bilhões de dólares, com doações vindas de diversos países com relações comerciais com a China, inclusive o Brasil.

Por toda a universidade e nos edifícios empresariais e residenciais outras campanhas estão sendo feitas em busca de comida, roupas, remédios e barracas. Todos temos aquela blusa velha, lata de leite em pó etc, mas também não acho que isso seja “a” solução. Afinal, é muito mais jogo isso vir das indústrias têxteis, alimentícias e semelhantes – por preço de custo, que seja: ainda bato na tecla de que grana não é a encrenca. Até por que não é exatamente caro de se produzir coisas na China, não é verdade?

Há a sensação de impotência diante de uma, qualquer, tragédia, mas neste caso específico, me vi encucado com uma reflexão profissional.

Individualmente, e como designer gráfico, como ajudar? Uma indústria pode doar (ou fazer a preço de custo, a título de doação) o que produz. Prestador de serviço doa seu trabalho. Um arquiteto pode fazer o projeto de reconstrução da cidade, de uma escola, algo assim. Mas e o designer gráfico?

É fácil achar designers gráficos fazendo camisetas e posters que são vendidos ou leiloados em exposições (http://www.25abovewater.com/info.html) ou em seus websites
(http://gentlepurespace.com/blog/archives/typographic-posters-for-chinese-earthquake-victims), mas quanto ($$$) realmente isso arrecada? Quanto (em importância) isso realmente ajuda? Ao contrário de campanhas de conscientização, em que quanto mais (cartazes, camisetas, websites, barulho) melhor, não é necessário ajudar a promover um desastre. Ou o maior beneficiado é o autor, que “nobremente” doou sua criatividade / seu talento / seu serviço de design, em troca de promoção?

Fizemos um brainstorming com uma dúzia de professores (de pelo menos dez países diferentes) do departamento de comunicação visual e não saímos dos “E se?…”. Cartazes para serem vendidos ou leiloados na internet? Mas dinheiro não é o problema. Um site com um banco de dados que ajudasse as pessoas a localizarem familiares e amigos? Quando o furacão Katrina atingiu Nova Orleans em 2005, o escritório norteamericano de design The Chopping Block e o AIGA – Instituto Americano de Artes Gráficas desenvolveu um website(http://www.displaceddesigner.com/) que se prontificava a conectar profissionais que pudessem dar e os que precisam de ajuda, na forma de empregos, equipamento, acolhida etc. Mas informação na China é muito controlada.

Muitas outras idéias foram postas para jogo (infográficos relacionados a higiene e segurança, por exemplo), mas nenhuma que, dentro do contexto e das proporções atuais, vingasse. Chegamos, no máximo, ao conceito de uma série de templates para download gratuito de projetos de identidade, sinalização, cardápios etc que ajudassem os moradores a reconstruir sua economia. Nada muito factível, ou útil, na prática. Frustrou. Frustrou reconhecer que este tal design gráfico, e o
profissional que o exerce, que “pode mudar o mundo” fica atado, e nem sempre vence. Mas isso passa.

Pausa de uma semana. Até que, semana passada, achei uma maneira mais efetiva de ajudar. O designer de produto inglês Luke Cardew -­ amigo de uma amiga daqui­ – vinha desenvolvendo há três anos o projeto de um abrigo temporário para casos de terremotos. Com o desastre em Sichuan, se uniu a outros designers e finalizou o protótipo: http://www.iboughtashelter.com/about/ . A tenda, resistente e leve, é feita de bambú e outros materiais que podem ser reutilizados depois de desmontada e possui mais espaço que as barracas convencionais. Seu custo de produção é de pouco mais de R$150,00.

O objetivo de Luke é amenizar um problema grave e de difícil solução. Pelos números oficiais (uma entrevista do premier Wen Jiabao para a Phoenix TV de Hong Kong) nos abalos 16 milhões de prédios foram destruídos. O governo está construindo 1 milhão de casa novas (atualmente tem seis mil completas), mas
estamos a cinco meses do inverno, que na China é brutal. Além de reduzir imediatamente o sofrimento de pessoas, iniciativas como a de Luke ajudam a direcionar mais rapidamente esforços para a construção de residências.

Esta semana Luke e amigos partiram para Chengdu com diversas tendas que foram produzidas com dinheiro arrecadado pela venda de camisetas
(http://www.iboughtashelter.com/2008/05/27/buy-a-t-shirt/), que foram doadas e custam cerca de R$30. Lá em casa “compramos” duas tendas e pegamos outras vinte camisetas para vender. Desta forma eu ajudo, através de um projeto de
design, e sei para onde o dinheiro está efetivamente indo.