O inestimável valor do Desenho  

Por Fabio Mestriner

Embora possa haver dúvidas e diferentes interpretações sobre suas intenções, o gesto está lá, gravado na pedra do tempo como registro indelével de que ali estiveram homens. Ainda que primitivos e no início de sua jornada, eles existiram e deixaram as toscas marcas que os incluíram na história da humanidade. Os petróglifos, sinais ou figuras singelas gravadas na rocha são considerados as primeiras expressões deixadas pelo homem pré-histórico. Algumas destas marcas são imagens reconhecíveis, é possível perceber homens e alguns de seus objetos, animais, o sol, a lua, as estrelas…, enquanto outros são sinais abstratos cujo significado permanece um mistério.

Misteriosa é também a intenção destes gestos iniciais, que podem ser apenas livre expressão sem outras intenções que não o desejo lúdico de arranhar e riscar a rocha nua ou uma necessidade latente de comunicação, ou ainda pode ter sido apenas uma forma de deixar registros de sua presença nos territórios que habitaram, como a dizer; “Nos existimos, estamos aqui e este é o nosso território”.

O fato é, que desde que se tornou a espécie denominada “homo sapiens”, o homem nunca deixou de gravar, desenhar, marcar ou pintar os lugares por onde andou, deixando um rastro de sua presença pré-histórica por todos os continentes. A partir do gesto inicial espontâneo, seus registros foram se tornando cada vez mais nítidos, intencionais, conscientes, reconhecíveis e objeto de contínuo aperfeiçoamento.

Dos petróglifos às pinturas rupestres, uma verdadeira odisseia visual foi empreendida por nossos ancestrais, transformando-se ao longo do tempo em imagens de grande qualidade expressiva, que puderam então ser compartilhadas com indivíduos de tribos distantes e até mesmo com aqueles que viveram em outras épocas, pois imagens figurativas são reconhecíveis por qualquer ser humano de qualquer época ou lugar. Mesmo uma criança muito pequena consegue reconhecer a imagem de uma vaca, não importa se em fotografia colorida, desenho animado, imagem em movimento na TV, caricatura, ícone ou símbolo esquemático. A imagem ou desenho de uma vaca sempre se reportará ao animal o qual representa e será reconhecido pelos seres humanos pois seu arquétipo parece já vir gravado na memória da espécie.

rupestre

Estudiosos das imagens com cenas das caçadas e dos animais pintados em cavernas como Pech-Merle, Lascaux e Altamira, datando entre 25 e 15 mil anos atrás, concluíram que estes desenhos tinham enorme valor para seus habitantes uma vez que possivelmente serviram como imagens votivas em rituais de caça pois seus autores acreditavam que estas imagens lhes davam poder sobre os animais ali representados. Esta suposição não é de todo infundada se considerarmos que de fato acabavam surtindo algum efeito na medida em que aqueles animais que seriam caçados, viviam alheios as combinações e preparativos feitos pelos caçadores diante de suas imagens pintadas nas paredes de suas cavernas.

 

Estas imagens sem dúvida desempenharam um papel importante na vida das pessoas que habitaram cavernas e as ajudaram a garantir sua unidade de ação na caça e consequentemente sua sobrevivência como tribo primitiva uma vez que o homem não tinha força nem velocidade para abater os grandes animais que caçava.

“O Homem é um animal que desenha”

A evolução da espécie humana e de sua capacidade de expressão visual está amplamente registrada e mostra o caminho percorrido num longo processo onde pequenas conquistas técnicas e expressivas foram se somando para resultar no exuberante painel das imagens que contemplamos hoje, deixadas por todos os homens de todas as épocas em todos os cantos da terra.

A necessidade de riscar, gravar, desenhar, pintar e registrar foi mudando, assim como suas intenções originais, mas quando em 1972 a NASA enviou ao espaço a nave Pioneer 10, decidiu incluir nela uma placa de alumínio banhada em ouro criada pelo astrônomo Karl Sagan que tinha como objetivo levar imagens e informações que registravam nossa existência e localização perante alguma forma de vida inteligente que por ventura a encontrasse no espaço.

Este gesto e sua intenção guardam forte semelhança com o que foi feito nas pedras africanas por nossos primeiros ancestrais, afinal, deixar registros para serem encontrados e compreendidos por outros seres inteligentes pode ser uma das mais importantes ligações mantidas pelos homens como um legado de sua passagem pelo planeta e uma marca registrada de sua espécie. Podemos afirmar com base nestes registros, que “o homem é um animal que desenha”, pois a capacidade de desenhar é uma das principais habilidades que nos tornou diferentes dos animais que viviam ao nosso redor no primeiro momento de nossa existência como homo sapiens. Os petróglifos, neste sentido, podem ser considerados os desenhos da infância da humanidade.

Estas marcas deixadas nas rochas da África, e a placa da NASA, estão unidas por sua intenção e fazem parte de uma mesma história, mostram o mesmo desejo de registrar e comunicar nossa existência. Elas nos contam como o homem encontrou formas de deixar rastros de sua presença que pudessem ser contemplados e compreendidos por outros homens, e até mesmo como acreditaram os cientistas da NASA que enviaram a placa ao espaço, por seres de outros planetas.

Estes rastros formaram uma trilha percorrida por gerações que foram, num processo de aperfeiçoamento contínuo dos desenhos, das imagens e formas de expressão, contribuindo para que suas mensagens fossem cada vez mais e melhor compreendidas.

O mais importante desenho criado pelo homem

A escrita é a culminância do processo de evolução do desenho pois devemos lembrar que “letra” é desenho e que sua criação marca uma baliza no tempo por separar a existência humana em duas eras distintas, a pré-história (período anterior ao surgimento da escrita) e a história (período posterior ao surgimento da escrita), pois ela fez com que o homem pudesse transmitir de forma clara e compreensível seu legado para as sucessivas gerações e tornou este legado efetivo, evitando que ele se desvirtuasse pela transmissão oral que vai sendo alterada de um locutor para outro ou desaparecesse com a perda das pessoas que conduziam a narrativa dos fatos do passado.

A palavra oral desaparecia no espaço no momento em que era proferida e só com o início das gravações no fonógrafo criado por Thomas Edson em 1877 é que ela pode enfim ser preservada. Já a palavra escrita podia preservar a informação ou conhecimento arduamente adquirido por tempo indeterminado e podia ser compartilhada por pessoas de todas as partes do mundo, todas as épocas e pelas gerações que se seguiram.

A prova disto está na existência de alguns textos antigos que resistiram a passagem dos séculos e que hoje podemos contemplar em livros guardados nas bibliotecas, eles foram preservados graças a acontecimentos que podem ser considerados milagrosos, tamanho os perigos e ameaças que poderiam ter causado sua destruição e desaparecimento.

A escrita tornou-se assim, o desenho da memória da humanidade, e desde sua criação, a maior parte do que o homem criou de importante, fez acontecer ou imaginou, está de alguma forma registrado e boa parte disso conseguiu ser preservado.

A história da escrita nos mostra o caminho trilhado pelo homem na sua marcha para a civilização pois ela constituiu ao mesmo tempo a plataforma que sustentou e a trilha por onde passou o conhecimento que foi gerado.

A intenção e o gesto estiveram sempre unidos nesta trajetória  tenho o desenho como alicerce de todo o edifício de conhecimento que a humanidade construiu.

A escrita surgiu com a agricultura, teve um origem humilde e as placas cerâmicas de Uruk cunhadas na mesopotâmia por volta de 3.300 Ac relatam principalmente contas agrícolas, doação de terras e contribuição dos agricultores ao templo desta localidade.

Com a agricultura surgiram também as cidades e com ela as construções dos palácios e dos grandes monumentos que exigiram para sua construção um desenho pois tudo o que o homem faz que exige a participação de muitas pessoas, geralmente precisa da mediação de um desenho.

Um dos mais importantes valores atribuídos ao desenho está em sua função de trazer para o plano da realidade ideias que habitavam o plano do imaginário e que através dele baixam a terra e podem ser compartilhadas com outros seres humanos.

Mas há também a função de projetar uma ideia, olhar para ela, e aperfeiçoa-la. O pensamento abstrato encontra no desenho uma plataforma de ensaio, uma forma de pensar e de projetar que foi sendo aplicada ao longo do tempo no desenvolvimento de objetos, habitações, edifícios, embarcações, veículos e tudo o que precisou de um projeto, uma planificação para ser produzido.

A rota da seda e o desenho no valor

A China deu ao mundo ocidental quatro grandes invenções, o papel, a impressão, a bússola e a pólvora. Esta inestimável contribuição chegou ao ocidente através da Rota da Seda, uma das mais importantes rotas comerciais do mundo antigo e que foi utilizada pelo lendário viajante Marco Polo em 1271/1287. A rota recebeu este nome porque o mais valioso produto que por ela transitava era a seda, tecido que despertou grande interesse na Europa graças principalmente a beleza dos desenhos que trazia estampado.

Por ter inventado o papel no ano 105 e posteriormente a impressão xilográfica em 670, a impressão com blocos de madeira, como foi denominada a xilogravura, foi também utilizada para estampar tecidos e foi principalmente a estamparia que ajudou a popularizar o tecido de seda pois seus belos seus padrões coloridos contribuíram para torná-lo mais atraente, desejado e valioso.

A seda era a maior riqueza da China por volta do século XIII e o maior valor da seda era o desenho que nela vinha estampado.

O desenho desempenhou também papel muito importante na revolução industrial pois produzir com o auxilio de máquinas o que antes era feito a mão, exigiu a introdução do que veio a ser posteriormente chamado de “Desenho Industrial”, uma forma de desenho concebido para ser reproduzidos no rudimentar maquinário da nova atividade que estava nascendo.

A necessidade do desenho concebido exclusivamente para a indústria surgiu não só pelas necessidades inerentes a produção mas também por questões estéticas uma vez que os produtos industriais foram considerados “feios” quando comparados a beleza dos produtos artesanais produzidos por mãos habilidosas de trabalhadores e artistas de grande talento.

A demanda por profissionais capazes de dotar os produtos industriais tanto de uma boa aparência estética quanto da facilidade de reprodução nas máquinas que equipavam as fábricas, ensejou a criação da escola que seria considerada o berço do que aprendemos a chamar de “design”, a Bau Haus.

Fundada em 1919, esta escola reuniu um grupo de professores que se destacavam em áreas como arquitetura, pintura, fotografia, tecelagem, artes gráficas, cerâmica entre outras. Este grupo de vanguarda nos legou não só a disciplina acadêmica como também uma ideologia do desenho pois entre seus fundamentos estava o binômio “forma / função” pois os pioneiros da Bau Haus pregavam que a forma deve ser resultado da função que realiza, o que os levou a adotar um padrão de desenho desprovido de adornos ou de elementos de estilo tão em voga até aquele momento.

Na Bau Haus o desenho industrial tomou forma e encontrou o caminho que vem seguindo até hoje, um caminho que acabou transformando o modo de vida do século XX e cuja influência ainda se faz sentir no século XXI onde o produto industrial já cruzou a fronteira do bem de produção para ser assimilado pela sociedade como expressão e atributo do conteúdo.

Muitos dos produtos industriais de hoje atribuem aos que os consomem elementos de identidade, status e expressão pessoal que tem em seu próprio desenho e na simbologia visual das marcas que os assinam algo de expressivo valor. Vivemos na sociedade das marcas, das grifes e dos ícones, todos eles são desenho e são eles que nos orientam no oceano de possibilidades e dos produtos que precisamos escolher.

A expressão máxima de valor que um desenho pode alcançar

Traduzir em desenho a alma, a história e a identidade cultural de um povo é uma missão que só o desenho consegue cumprir. O desenho que consegue fazer isso se chama “Bandeira”. As bandeiras nacionais são a expressão máxima de significado e valor que um desenho pode alcançar.

Neste momento está ocorrendo no mundo um evento que chama a atenção para a importância que uma representação simbólica tem para uma nação.

Há alguns anos vem se desenrolando na Nova Zelândia um intricado e cuidadoso processo de consulta popular cujo objetivo é mudar a bandeira desta antiga colônia britânica*. Os neozelandeses decidiram substituir a atual bandeira vinculada com a comunidade britânica por um novo desenho criado num concurso nacional onde mais de 10.200 desenhos inscritos por todos que desejaram participar foram selecionados em etapas até que restaram quatro opções escolhidas para a votação final. Mas num sinal de que os tempos estão mesmo mudados, a população reclamou e um quinto desenho que havia ficado fora do grupo final, foi incluído posteriormente neste grupo demonstrando que a escolha de uma bandeira não é um processo simples pois todos os nacionais de um país devem se sentir representados por ela.

Por mais surpreendente que possa parecer, este procedimento de escolha de uma nova bandeira não é novo. Em 1965, o Canadá, também membro da comunidade britânica substituiu a sua pela atual bandeira com a folha da árvore símbolo do país que todos conhecemos.

Quando observamos as cinco bandeiras finalistas do processo de escolha da Nova Zelândia, podemos observar as diferenças entre elas, os desenhos são acompanhados de explicações sobre suas cores e significados das imagens que apresentam mas no fundo sabemos que as pessoas escolherão baseadas em seus gostos pessoais e nas sensações que os desenhos lhes inspiram pois é assim que os seres humanos lidam com os desenhos.

Os neozelandeses em sua maioria, provavelmente não estão cientes de que a bandeira que escolheres terá impacto no futuro da nação porque o desenho traz em sua concepção que vai além das formas e cores que o compõe.

A palavra desenho vem do Latim “Designare” que em sua origem traz  o significado de “desígnio”. Portanto desenho tem a ver com desígnio, ou seja:

O desenho é algo que participa e interfere no destino daquilo que foi desenhado.

Ao escolher uma nova bandeira, a Nova Zelândia estará escolhendo também algo que vai participar e interferir no seu destino. Só nos resta torcer para que os neozelandeses escolham um desenho que os ajudem a alcançar o destino que desejam para sua nação.

Precisamos prestar mais atenção ao desenho que está a nossa volta, a marca da nossa empresa, dos nossos produtos e serviços, dos objetos que escolhemos para nossas vidas e se perguntar se estes desenhos nos ajudam a alcançar o destino que desejamos.

  • Nota: Entre os dias 20 de novembro e 11 de dezembro de 2015 a será escolhida uma das 5 bandeiras que disputará em plebiscito com a bandeira atual as opções mudar ou permanecer com a bandeira atual.