O novo luxo

Por Katia Faggiani

O novo luxo envolve mais que o valor econômico e monetário intrínseco no material: estética e conceito, vinculados à simbologia e à linguagem do seu criador – e é aqui que entra o design.

Percebe-se que nos últimos anos, a concepção de “luxo” transformou-se de luxo prestígio (símbolo de status social) para luxo “conquista” (símbolo de desenvolvimento e evolução pessoal e profissional). Ou seja, o que antes era visto como direito de “berço” (linhagem, tradição, nobreza), hoje é visto como conquista (liderança, capacidade de realização), que pode ser almejada e alcançada por qualquer pessoa. “O uso dos objetos como um registro de família e como um meio de continuidade se tornou algo muito difícil de se alcançar no novo padrão de consumo” (McCracken, 2003). Hoje, o luxo reúne um grupo de pessoas vitoriosas através de suas conquistas e tornou-se símbolo de ascensão pessoal.

Assim, em diversos países, principalmente nos mais desenvolvidos, a palavra “luxo” ganha outros sentidos e, agora, reúne características até então fora das tradicionais proposições, tais como: valorização de uma consciência e atitude ecológicas, utilização do tempo escasso, tranqüilidade, segurança, conforto, praticidade, qualidade de vida, respeito à diversidade cultural, compromisso social, respeito ao semelhante, lazer, distração, entre outras; que da mesma forma que as demais características do luxo, hoje são consideradas escassas e raras. Atualmente, estas características têm mais valor do que as aparências e o acúmulo de riquezas.

“Hoje em dia o luxo é relativo. Cada indivíduo o vê a seu modo. Para um sobrecarregado presidente de empresa, luxo é o tempo. Para um agricultor, é a sociabilidade, que pode traduzir-se numa boa refeição em companhia dos amigos” (Castarède, 2005: 33).

De Masi (2000) declara que o luxo se afastará, no futuro, cada vez mais do excesso, exagerado, demasiado e desmedido, para se centrar no que é necessário à vida. É o luxo considerado por Voltaire (1978) como o aperfeiçoamento das artes úteis, que declarava o supérfluo como coisa altamente necessária. Ele afirma que o luxo não é uma prerrogativa exclusiva do rico, cada homem pode valer-se dele segundo suas condições patrimoniais, a fim de embelezar a vida por meio dos vários estimulantes possíveis que lhe são franqueados. Voltaire não condena o luxo quando vê neste tipo de produto benefícios morais e econômicos, pois o luxo “estimula a indústria e aumenta a riqueza nacional, pois faz circular o dinheiro e limita o seu ‘entesouramento’, tão maléfico para o progresso das artes”. De acordo com estes pontos de vista, o luxo, na globalização atual, pode reorientar o indivíduo.

Portanto, o luxo continua sendo uma raridade, mas percebe-se que o que é raro hoje pode não ser exatamente o que era no passado. Diversos especialistas da área são unânimes em mencionar o tempo como o bem mais escasso da atualidade, seguido da autonomia, do silêncio, da beleza e do espaço. Luxo, nos dias atuais, é ter tempo para si próprio, é poder descansar em lugares tranqüilos e confortáveis, é poder usufruir e possuir o bom e belo.

Sendo assim, pode-se perceber que os artigos de luxo possuem diversos níveis de valores e significados, alguns universais e inerentes, que variam de acordo com o tempo e a sociedade, já que todos os significados de um objeto resultam da intencionalidade humana. O novo luxo envolve mais que o valor econômico e monetário intrínseco no material: estética e conceito, vinculados à simbologia e à linguagem do seu criador – e é aqui que entra o design.

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