O que é e o que nunca foi design gráfico chinês

Por Bruno Porto

Até poucos anos atrás, para se procurar livros de design em uma livraria devia-se ir a seção de Artes. Quando muito, de Arquitetura. Hoje já existe, em muitas livrarias, seção específica para Design.

Como lembrei em meu último artigo, nunca se falou tanto em design no Brasil ou no mundo. Até poucos anos atrás, para se procurar livros de design em uma livraria devia-se ir a seção de Artes. Quando muito, de Arquitetura. Hoje já existe, em muitas livrarias, seção específica para Design. No Brasil, parte desta conquista deve-se a atuação da 2AB Editora, criada por André Villas-Boas em 1997, e sua estratégia de só vender ou mesmo consignar sua publicações em bloco. Para ter referências como Viver de Design de Gilberto Strunk ou Design no Brasil: Origens e instalação de Lucy Niemeyer, a livraria tinha que levar pelo menos um exemplar de cada um de seus livros. Como não dava para separar todos em seções já estabelecidas, aos poucos, era mais fácil a criar uma prateleira para Design.

Entretanto, mesmo quando se há Design Gráfico estampado bem na frente, grandão, é provável que você leve outra coisa para casa.

Acabei de comprar o livro 3030 New Graphic Design in China (www.3030press.com/book2.php ), da editora 3030 Press (que já lançara o 3030: New Photography in China) e fiquei embasbacado com as imagens e projetos apresentados. Pena que pouquíssimos são, por assim dizer, de design gráfico.

A orelha do livro o descreve como uma stunning selection of posters, packaging, book design and illustration de 30 dos melhores jovens-designers-em-torno-dos-30-anos da China continental. Não deixa de ser (uma meia) verdade. A maior parte do que é apresentado é realmente stunning (atordoante, e no bom sentido). E, bem tem cartazes, embalagens, livros e ilustração.

Dos 153 projetos apresentados, mais de 40% (68) são cartazes. Só que desses, no máximo 15 são de verdade. Os outros 53 não possuem clientes (produtos, serviços, eventos ou empresas), e são apenas ilustrações, colagens digitais e fotografias que se aproximam muito mais das artes plásticas e outras formas de expressão pessoal do que de um projeto de design.

Contei cinco embalagens, das quais pelo menos três foram feitas para os próprios autores (um dos designers também tem um selo de música e desenhou seu próprio CD, por exemplo). Também contabilizei a mesma quantidade de folhetos e de revistas (entre as quais a excelente 360º, sobre design gráfico, de produto, arquitetura e artes visuais).

Livros, contei 25. Menos da metade destes foram feitos para terceiros (boa parte para exposições de artes visuais) e cinco são claramente edições únicas, experimentais ou próximas a sketchbooks.

O livro apresenta ainda 23 ilustrações assim classificadas pelos próprios autores, com algumas poucas parecendo ser editoriais, e a maioria no âmbito da expressão pessoal, não havendo sido encomendadas por outros. Há praticamente o mesmo número (24) de algo que só consigo agrupar como artes plásticas: instalações, esculturas, pinturas, colagens.

Por ultimo, 8 identidades visuais (nenhum sistema, entretanto: apenas logos, envelopes, ou peças esparsas). Das quais uma é do próprio escritório do autor, e a outra de uma exposição que um dos designers organizou. Ah sim, dos trinta nomes, sete se apresentam como designers e curadores. Será este o próximo atriz e modelo?

Então, dos 153 projetos apresentados, 58 são realmente de design gráfico, dos quais apenas 40 parecem ter sido solicitados por clientes de verdade, que provavelmente pagaram por eles.

Isso diminui a qualidade dos trabalhos apresentados, ou o talento de seus autores? De maneira alguma. É uma bela apresentação da estética e de linguagens gráficas produzidas por artistas visuais chineses contemporâneos (semelhante ao que foi apresentado na recente edição #13 da revista Computer Arts Brasil); só não chame de design gráfico o que não é. Pois isto confunde a todos, de compradores de serviços de design aos futuros designers profissionais, hoje estudantes. Então, pergunta a sociedade, ISSO é que é design gráfico?

Por inúmeros motivos históricos há na China uma grande confusão ou para ser mais diplomático, uma tênue divisão entre ilustração e design visual (ambos tem um forte referencial pictórico), mas esta é a mesma distorção apresentada em boa parte das recentes publicações norteamericanas e européias para não falar das poucas brasileiras existentes. Gatos bonitos e coloridos e radicais e firulados por lebres. Muitos que ou não existem de verdade ou não estão inseridos dentro da definição de atividade econômica que o design gráfico é. E isso, já definiu André Villas-Boas, não é ser profissional.

1 Comentário

  1. Palluh - Paloma Sarilho disse:

    Eu quero ibagens…sNIF…RSRSRS, ADOREI O TEXTO, MAS AMO QUANDO TEM IBAGENS….