Os impactos da ergononia nas metodologias de design

Por Editor DesignBrasil

Discutiremos nesta oportunidade, os impactos da ergonomia nas metodologias do design, e o estabelecimento do denominado design ergonômico.

No ultimo texto apresentado nesta coluna, escrevemos um pouco sobre a relação entre Design e Ergonomia, e a permeabilidade que há entre as ações de ambas as áreas. Apesar desta inter-relação, devemos destacar que a ergonomia, de fato, depende de procedimentos próprios do design, possibilitando sua aplicação, já nas fases de concepção do projeto.

Neste sentido, discutiremos nesta oportunidade, os impactos da ergonomia nas metodologias do design, e o estabelecimento do denominado design ergonômico.

Esta denominação caracteriza um segmento específico do desenvolvimento do projeto do produto (ambiental, objetual ou informacional), cujo princípio é a aplicação do conhecimento ergonômico no projeto de dispositivos tecnológicos, com o objetivo de alcançar sistemas de interfaces seguros, confortáveis, eficientes, efetivos e aceitáveis.

Considerado um segmento do design, o design ergonômico também apresenta algumas alternativas metodológicas, baseadas nos métodos ergonômicos. N. A. Stanton e M. Young publicaram, em 1999, um completo guia de métodos ergonômicos que, segundo os autores, foram criados para melhorar o desenvolvimento do projeto, através da compreensão e predição da interação entre o homem e seus dispositivos tecnológicos.

Esta publicação demonstra 12 ferramentas metodológicas, sendo algumas delas destinadas particularmente a determinadas fases do desenvolvimento do projeto. Os autores afirmam também que, dentre essas fases, as ferramentas metodológicas podem causar maior impacto nos estágios da concepção do projeto, mais precisamente durante a geração de protótipos analíticos, momento em que as diferentes alternativas podem ser comparadas ou avaliadas.

Existem algumas metodologias de design ergonômico que podem ser consideradas mais completas, porque não são ferramentas complementares no desenvolvimento de produto, mas apresentam uma estrutura metodológica própria e com enfoque ergonômico.

Um primeiro exemplo, apresentado aqui, foi desenvolvido pelo Ergonomi Design Gruppen, da Suécia, e publicado em 1997, que propõe uma seqüência de seis etapas metodológicas:

Início do desenvolvimento de um novo produto, decorrente das necessidades do mercado;
Análise do mercado e necessidades dos usuários;
Criação de novas idéias, representadas bi e tridimensionalmente;
Teste com modelos funcionais, incluindo mock-ups e/ou protótipos;
Desenvolvimento do produto, incluindo o projeto técnico; e
Preparação para a produção e introdução no mercado

Outra proposta deste gênero foi desenvolvida pela equipe do Product Safety and Testing Group, da Universidade de Nottingham (Nottingham, UK), organizada por B. Norris e J. R. Wilson em 1997, a qual é denominada metodologia de produtos ergonômicos/seguros.

Nesse sentido, são apresentadas várias possibilidades de aplicação das recomendações ergonômicas no processo clássico de desenvolvimento de um produto (metodologia do projeto) e nos vários estágios em que isso pode ocorrer: Definição dos Objetivos: conhecendo o mercado e as necessidades dos usuários; Requisitos e restrições, avaliando custos, restrições técnicas, regulamentações e impacto social; Concepção do design, com base nas informações ergonômicas; Detalhamento do design, a partir das avaliações ergonômicas com a nova proposta de produto; e Produção, mercado e aperfeiçoamento, com o monitoramento e avaliação do produto.

A Sandvik (empresa transnacional) apresentou em 1997, um programa científico para o desenvolvimento de instrumentos manuais, cujo objetivo destaca a implementação de critérios ergonômicos no projeto desses equipamentos. Esse programa é caracterizado por 11 etapas, a saber:

Especificações Preliminares: decorrentes de questionamentos sobre o uso, aspectos físicos dos equipamentos e interface com o usuário;
Análise do mercado: observando a preferência dos equipamentos, incluindo a análise de similares;
Revisão Científica: observando os resultados de pesquisas relacionadas às doenças ocupacionais, riscos e descrição das patologias;
Projeto (desenho e prototipagem): desenvolvimento das etapas básicas da metodologia do projeto, incluindo a definição dos conceitos, a criação e evolução das propostas e a confecção de mock-ups e protótipos;
Primeiro teste de usabilidade: aplicando técnicas de análise ergonômica;
Avaliação e modificação do protótipo: baseada nos resultados do primeiro teste de usabilidade;
Segundo teste de usabilidade: envolvendo usuários especializados;
Recomendações finais do projeto com a definição da proposta de produto para a engenharia/produção;
Especificações da produção;
Terceiro teste de usabilidade, no lançamento do produto; e
Revisão/Feed-Back.

No Brasil, entre os muitos pesquisadores na área, podemos destacar B. Frisoni e A. Moraes que, em 2001, apresentaram 14 etapas … para o desenvolvimento de um projeto de produto ergonômico…, que se caracteriza por destacar aquelas subetapas, que têm na ergonomia sua prioridade.

Ainda no Brasil, vários outros pesquisadores vêm desenvolvendo estudos relacionados às metodologias do design ergonômico, com destaque para os centros de pesquisa em Bauru (SP), Rio de Janeiro (RJ), Recife (PE), Florianópolis (SC), Porto Alegre (RS), São Paulo (SP) e outras regiões. Independente das origens, ao observarmos as metodologias de design ergonômico descritas anteriormente, nota-se que elas apresentam, como principais características, a análise ergonômica da atividade como foco da problematização, e a determinação de critérios ergonômicos e de usabilidade como diretrizes para o desenvolvimento do produto. Além disso, devemos destacar a necessidade da avaliação e análise do produto em desenvolvimento.

Se analisarmos com atenção, é certo que não podemos desconsiderar a importância de pesquisas junto aos usuários diretos, as quais permitem determinar critérios projetuais integralizados, contribuindo expressivamente para a operacionalização do projeto, justamente no momento de aprimoramento e validação das soluções focadas à usabilidade, garantindo este princípio já nas fases iniciais do projeto. Entretanto, o desenvolvimento de procedimentos metodológicos de avaliação e análise do produto também pode contribuir de forma expressiva na aplicação do design ergonômico, uma vez que é através desses procedimentos que se cria a oportunidade de avaliar de modo satisfatório a usabilidade do produto.

De forma geral, o design ergonômico deve caracterizar-se por um processo trans e multidisciplinar; envolver, ao menos, o conhecimento fisiológico, perceptivo e psicológico na interface homem X tecnologia; fundamentar-se em abordagens epidemiológicas ou laboratoriais para a detecção e avaliação dos problemas ergonômicos; e alternar desenvolvimento e criatividade, com avaliação sistematizada de produtos e sistemas, utilizando-se para isto de mock-ups e/ou protótipos
(físicos ou mesmo virtuais, no caso de sistemas computacionais).

Por fim, a nossa pretensão aqui é contribuir na compreensão do quanto às pesquisas e ações projetuais em torno do design ergonômico podem e devem ser ampliadas e evoluídas, com a finalidade principal de melhorar a qualidade de vida humana.

No próximo artigo, pretendemos apresentar alguns exemplos da demanda ergonômica na interface de produtos.

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