Os “pirulitos” do Aloísio

Por Editor DesignBrasil

Um dos itens concebidos por Aloísio Magalhães está presente em praticamente cada esquina da cidade do Rio de Janeiro. São os indicadores de rua, ou “pirulitos”.

Lembro-me ainda, dos tempos de faculdade, das aulas que tive sobre a produção do designer brasileiro Aloísio Magalhães. Sujeito formidável, pioneiro na prática do design de verdade no Brasil, quando design era design mesmo, e não decoração. Aloísio foi um sujeito que projetou muitas coisas que são, hoje, patrimônio iconográfico de uma geração inteira. Entre elas, as logomarcas Unibanco, Light, Vale do Rio Doce, Souza Cruz, Petrobrás, Embratur, Banco Central do Brasil, a concepção gráfica das notas do Cruzeiro (moeda corrente em 1980), entre outras. É bastante razoável que muitas dessas obras tenham sido atualizadas, ou seja, redesenhadas por outros designers para se adequarem aos novos tempos e às novas linguagens. A grande maioria manteve a essência da criação de Aloísio, pois sabiam que identidade é algo muito valioso para se descartar assim, de uma hora para outra.

Um dos itens concebidos por Aloísio, no ano de 1977, está presente em praticamente cada esquina da cidade. São os indicadores de rua, ou “pirulitos”, como alguns preferem chamar. Ainda não se deu conta? Olhe para a próxima esquina e você vai reconhecer um companheiro de longa data. Esses indicadores luminosos, que indicam os nomes das ruas, foram considerados, através de decreto do prefeito Marcos Tamoio, equipamentos de utilidade pública. Em 1999, receberam o notável índice de 90% de aprovação da população (pesquisa realizada pelo instituto GERP).

A prefeitura do Rio, desde a primeira gestão do prefeito César Maia, gosta muito de interferir na arquitetura e no urbanismo da cidade. Em 1994, com o projeto RioCidade, reformulou a paisagem de diversos bairros, modificando vários equipamentos urbanos. Nessa época, a intenção era dividir a cidade em 17 áreas e conceber, para cada uma delas, um desenho diferente de equipamento, tais como abrigos de ônibus, bancos, postes de iluminação, placas de rua, telefones públicos, caixas de correio, fradinhos etc. Em 2000, com o prefeito Luis Paulo Conde, realizou uma concorrência internacional para a implementação de novos mobiliários urbanos. Curiosamente, somente quatro empresas (todas de fora do Brasil) puderam se habilitar para participar dessa concorrência, sendo as vencedoras uma empresa inglesa e outra espanhola.

Agora, em 2007, a prefeitura lançou um edital de concorrência para os “pirulitos” do Aloísio. A prefeitura alega que precisa instalar mais indicadores de rua. A cidade possui, hoje, 6 mil unidades, e a meta é alcançar 18 mil num prazo de três anos. Trata-se de uma ótima iniciativa. Uma cidade bem sinalizada só traz benefícios para a população e para o turismo. O único detalhe é que a prefeitura apresentou em seu edital um novo desenho do indicador de rua, que enterra, numa “canetada”, uma identidade criada por 30 longos anos. O novo indicador, apesar de manter todas as características técnicas do “pirulito” concebido por Aloísio, apresenta uma forma totalmente oposta ao modelo original do designer. A nova forma, quadrada, se assemelha ao modelo utilizado na cidade de São Paulo e em muitas outras do Brasil.

Será que a prefeitura, na melhor das suas intenções (assim esperamos), está ciente das conseqüências deste ato? O argumento que ouvi (nos bastidores municipais) para justificar a mudança do desenho foi simplesmente um: vamos criar uma “bossa” nesse modelo. Adoro bossa, bossa-nova então… nem se fala, mas gosto mais da bossa nova de antes, de 30 anos atrás…

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