Paola Faoro

Por Editor DesignBrasil

“Morar e trabalhar fora abre muito a cabeça de uma pessoa. Londres é uma cidade que respira design”

“Morar e trabalhar fora abre muito a cabeça de uma pessoa, você se obriga a ser flexível, comer coisas que nunca provou e conhece pessoas e culturas que só ouviu falar em livros”. A afirmação é da designer Paola Faoro, que aproveitou a chance de estudar no exterior para começar a consolidar uma carreira na Inglaterra. Hoje, ela é assistente de um dos sócios-diretores do Atelier Works, um escritório de design gráfico que atende a clientes como o museu National Portrait Gallery, a editora Harper Collins e o British Council.

Formada em arquitetura na Universidade Federal do Paraná, Paola Faoro é nascida em São Paulo e curitibana por adoção – viveu 20 dos seus 32 anos na capital paranaense. Começou a atuar com design gráfico depois que ingressou num grupo vocal, em Curitiba. O contato com o universo da música fez com que recebesse convites para produzir cartazes, capas de CDs e livros. Seu primeiro prêmio veio já em 1998, o Prêmio Sharp pelo melhor projeto visual pelo CD Terra Sonora.

Por quatro anos ela trabalhou como arquiteta e urbanista no EcoParaná, integrando uma equipe multidisciplinar de planejamento turístico no estado. Enquanto isso, ela não parou. Continuou fazendo trabalhos de direção de arte e design gráfico. Depois de alguns outros prêmios e indicações, recebe em 2003 o Saul do Trumpet – principal prêmio da música paranaense – na categoria “melhor projeto visual” pelo trabalho desenvolvido para o livro Artigo Oitavo. Resolveu abraçar de vez o design.

Em 2003, de posse de uma bolsa de estudos obtida junto ao British Council, partiu para Londres. Foi estudar na London College of Printing, atual London College of Communication. Recebeu distinção honrosa ao concluir o mestrado em Typo/ Graphic Studies. Em 2004 teve seu projeto Typographic Music Notation – tema de sua dissertação – publicado no livro Visual Methodology por Ian Noble and Russ Bestley, lançado em 2004 pela editora Rotovision, de Londres.

Em vez de voltar para o Brasil, Paola permaneceu na Inglaterra. “O mestrado no London College of Printing foi fundamental como um ponto de partida para entrar no mercado profissional em Londres”, afirma.
De início, como free lancer, atendeu a clientes britânicos e australianos. Pensou bem e decidiu aproveitar a oportunidade de estar em Londres para trabalhar em escritórios que admirava.

De 2004 em diante trabalhou como frila nos estúdios Johnson Banks, The Partners e Atelier Works. Até que recebeu um convite para integrar a equipe do Atelier Works. Hoje, Paola trabalha como assistente do Quentin Newark, um dos sócios-fundadores do escritório. A última novidade na sua carreira foi um convite para lecionar “Introdução ao Design Gráfico” na University of Arts London.

Nesta entrevista concedida por e-mail ao DesignBrasil, Paola conta sobre a sua experiência de estudar, trabalhar e lecionar em Londres. “É uma cidade que respira design e leva arte muito a sério”, diz.

Confira nossa conversa com a designer.

 

DesignBrasil: Você se formou em arquitetura pela UFPR e hoje atua em um escritório de design em Londres. Que caminhos te levaram a exercer a profissão de designer gráfica?

Paola Faoro :Os mais tortuosos possíveis. Enquanto estudava arquitetura comecei a cantar num trio vocal chamado Noivas do Allfreddo, em Curitiba, com a Daniella Gramani e a Melina Mulazani. Eu criava os cartazes e todo o material de divulgação para os nossos shows. Um dia, durante uma oficina de música, o José Eduardo Gramani (um músico maravilhoso lá de Campinas) me pediu para fazer o encarte do seu CD Mexericos da Rabeca. Foi o primeiro CD do selo Cântaro do qual eu passei a ser a diretora de arte, criando as capas seguintes para o CD Terra Sonora (Prêmio Sharp de melhor projeto visual), L (Marco Ferrari) e Água (Chico Saraiva).

Em paralelo comecei a trabalhar para outros músicos, escritores e grupos de teatro em Curitiba e no Brasil. Entre eles o Mundaréu, Trio Quintina, Edith de Camargo, Etel Frota, Mixirícas Aboríginas, ACT, Roberto Corrêa, etc. Eu me apaixonei pelo design gráfico, mas ao mesmo tempo tinha um emprego como arquiteta e urbanista, e senti que precisava fazer uma opção. O trabalho com planejamento urbano e regional é por natureza em longo prazo, e devido à instabilidade política e econômica do Brasil pode ser muito frustrante. O design me dava um resultado muito mais rápido e gratificante, e acabei optando por ele.

 

DesignBrasil: Você fez um mestrado em Estudos da Tipografia. O que a atraiu em estudar no exterior? Por quê a opção pela London College of Printing? Como foi a experiência de estudar nessa instituição e que benefícios essa pós-graduação trouxe em termos de bagagem de conhecimento e de contatos profissionais?

Paola Faoro: Como arquiteta, eu tinha uma boa noção de design no que diz respeito a composição, cor, proporção, fotografia, etc. Mas um assunto que para mim era novo e fascinante era a tipografia. Eu sempre tive uma relação muito forte com a palavra escrita; obras como as dos futuristas, dadaístas e poetas concretos sempre me fascinaram apesar de eu nunca ter estudado a fundo. Juntando isso com a inquietude que sempre tive de sair do Brasil por um tempo, resolvi pesquisar um lugar para fazer um mestrado em design e tipografia. Após olhar algumas escolas de design na Inglaterra e nos EUA, acabei optando pelo London College of Communication (LCC, antigo London College of Printing).

O LCC faz parte da University of Arts London que é a maior universidade de artes e design da Europa. A experiência de estudar no LCC aliada à experiência de se viver em Londres é maravilhosa. Londres é uma cidade que respira design e leva arte muito a sério. Eu me lembro da primeira vez que entrei na biblioteca do LCC e não sabia por onde começar. Nessa biblioteca achei algumas das publicações mais inspiradoras que já vi, como o livro Word and Image (Massin), edições originais da revista Tipographica e o livro Silence (John Cage).

Acho que o mestrado no LCC foi fundamental como um ponto de partida para entrar no mercado profissional em Londres. É mais ou menos como no mundo todo, uma espécie de cartão de visita. Em Curitiba, se você recebe um currículo de um estudante de arquitetura da PUCPR ou da Universidade Federal do Paraná, já sabe mais ou menos o perfil do indivíduo. Acertadas as proporções da diversidade de uma turma de mestrado, escritórios de design lêem LCC, Central Saint Martins ou Royal College of Arts e já tem uma noção da formação de determinado aluno.

 

DesignBrasil: Por que o interesse pelo tema “notações tipográficas para a música” e a que resultado você chegou ao final da dissertação?

Paola Faoro: Meu maior interesse no mestrado era aprofundar o conhecimento em tipografia. Durante a primeira fase do curso um dos meus trabalhos teve como tema a poesia visual, abrangendo desde caligramas do século 16, passando por Mallarmé, Apollinaire, Futuristas, Dadaístas até a poesia concreta iniciada na década de 50. P

ara o projeto de graduação eu precisei achar um tema em que pudesse desenvolver experimentos gráficos e ao mesmo tempo permitir um critério objetivo de avaliação. Decidi trabalhar com as partituras de música vocal por um único motivo: sempre me questionei como é que eu poderia dar uma forma gráfica às nossas músicas ajudando o leitor a visualisar a relação entre as vozes sem o uso da partitura de música tradicional, que tanto inibe os leigos. Optei pelas partituras das Noivas do Allfreddo por conhecer as músicas e também por que as letras me permitiriam fazer testes tipográficos. Tendo isto como ponto de partida pesquisei outros exemplos de notação musical (Cage, Boulez, etc) e também de “adaptações tipográficas” (como fez Richard Hamilton com “A noiva” de Duchamp) e percebi que ambos utilizavam lógicas diferentes da que eu procurava.

Criei então um sistema baseado em ritmo e altura as duas principais unidades da notação tradicional e a partir deste gerei uma série de testes. O resultado final da pesquisa foi uma série de notações tipográficas baseadas em tipo, nota, linha, coluna e forma geométrica (Nota do editor: veja primeira imagem abaixo).

  

Nas imagens, o trabalho de mestrado de Paola Faoro na London College of Printing: “Notação Tipográfica para Música”

 

DesignBrasil: Você fez alguns trabalhos de free lancer na Austrália. Como é realizar trabalhos à distância? Que método você empregava? Trabalhar sem reuniões presenciais, para clientes do outro lado do mundo e em outro fuso horário, tem algum impacto no resultado?

Paola Faoro: Eu buscava trabalho com livros e na London Bookfair conheci uns editores de Victoria, Austrália. Foi um daqueles encontros especiais em que a empatia é instantânea. Eles gostaram do meu portfolio e disseram que entrariam em contato comigo assim que voltassem para casa. Algumas semanas depois negociamos o primeiro livro, sobre um escritório de arquitetura da Califórnia. Foi um projeto muito interessante pois estávamos os três (editor, cliente, designer) em três fusos horários com oito horas de diferença cada. Se eu precisasse de um retorno imediato, precisava ligar para um deles às 6 da manhã ou a meia noite.

Mas no geral nos correspondíamos por e-mail e tudo correu com muita tranqüilidade. Após o PDF final aprovado, enviamos os arquivos finais para a gráfica que ficava na China.

 

Workshops sobre posters (foto 1) e livros (foto 2) no London College of Printing, atual London College of Communication

 

DesignBrasil: Muitos pós-graduados vão ao exterior e logo voltam. Por que preferiu ficar em Londres? Você pensa em voltar ao Brasil num futuro próximo ou as oportunidades de crescimento profissional aqui oferecidas não são tão estimulantes?

Paola Faoro: Eu penso muito em voltar ao Brasil, todo ano fico pensando “será que já está na hora?”. Mas no momento tem tanta coisa acontecendo por aqui que resolvi ficar. Eu sempre quis ter uma experiência profissional fora do Brasil. Acho que morar e trabalhar fora abre muito a cabeça de uma pessoa, você se obriga a ser flexível, comer coisas que nunca provou e conhece pessoas e culturas que só ouviu falar em livros. Eu tenho uma tendência à rotina; então isso tudo funciona como umas descargas elétricas que me fazem sair do comodismo e tentar coisas novas.

 

DesignBrasil: Que tipo de trabalho você exerceu, como free lancer, para os estúdios Johnson Banks, The Partners e Atelier Works? Que comparação você faz entre a experiência de lidar com estes três escritórios?

Paola Faoro: Trabalhei por dois períodos no Johnson Banks (www.johnsonbanks.co.uk). Em 2004 fui chamada para trabalhar na criação de uma identidade visual chamada Think London (www.thinklondon.com), uma agência de desenvolvimento para Londres. Foi um trabalho muito divertido, é uma logo inovadora composta de quase 50 ícones que representam o que London tem a oferecer.

Em 2005 fui chamada novamente para trabalhar em alguns projetos menores. Um dos que mais gostei foi um poster que criei para o Cirque Plume, um circo francês a se apresentar no Parc la Vilette, em Paris. No The Partners (www.thepartners.co.uk), o trabalho mais interessante foi a reciclagem de uma logomarca, um trabalho fascinante mas que foi vetado pelo cliente na fase preliminar. No Atelier Works (www.atelierworks.co.uk) tenho trabalhado muito com livros, catálogos, identidade visual e sinalização gráfica. Um trabalho que ficou muito bonito é o catálogo para uma exposição que acontecerá na Tate Modern em março sobre o Moholy-Nagy e Josef Albers. Foi muito interessante passar por esses três lugares.

O Johnson Banks é um escritório pequeno mas extremamente prolífico. O The Partners tem aproximadamente 50 funcionários e é um ambiente extremamente corporativo, com diretorias, subdiretorias, gerências, etc. O Atelier Works é um escritório de porte médio com três sócios, cada qual com um assistente. Não temos secretária, nos revezamos no telefone, a limpeza da cozinha é feita por um rodízio (que inclui os sócios) e um de vez em quando levo a mascote do escritório para passear (Smut, cachorrinha do Quentin).

Mesa de trabalho no Atelier Works: embaixo, à direta, a cachorrinha Smut: prova da informalidade com que funciona o escritório

DesignBrasil: Hoje você trabalha como assistente do Quentin Newark. Conte como é um dia de trabalho no escritório. Que métodos e processos de trabalho e de criação adotados no Atelier Works mais lhe chamaram a atenção?

Paola Faoro: O John e o Quentin (fundadores do Atelier Works) vieram ambos da Pentagram, então muito da estrutura organizacional da empresa foi importada de lá. Depois de um tempo, o Ian se juntou aos dois, vindo da CDT. Cada sócio toca seus projetos independente dos demais. De início, a coisa que mais chama atenção são as diferenças entre os três sócios. Antes de virar assistente do Quentin eu fiz free lancer para os três. Achei que cada um tem um processo criativo e produtivo muito particular.

O Quentin tem uma mentalidade muito clara e objetiva, o John é um excelente negociador e o Ian é o perfeccionista. Eu gosto muito de trabalhar com o Quentin. Ao mesmo tempo em que ele é exigente em termos profissionais, ele é muito tranqüilo pessoalmente. Ele é um cara que sai às 17h30 para ir ao cinema, almoça com um amigo em plena quarta-feira e tira quatro semanas de férias duas vezes por ano.

Eu sempre trabalhei muito, especialmente no Brasil quando acumulava os trabalhos de urbanismo, design e música, e depois que vim para a Inglaterra reparei como passava pouco tempo com meus amigos. Trabalhar com o Quentin tem me ajudado a mudar esta percepção workaholic que nós, brasileiros em geral, herdamos dos americanos.

Panorâmica do studio do Atelier Works.

DesignBrasil: De que modo essa mudança de percepção tem contribuído no seu desempenho profissional?

Paola Faoro: Essa idéia de sermos workaholics foi na verdade defendida pelo Domenico de Masi no seu livro Ócio Criativo, e estando na Inglaterra eu pude entender melhor essa colocação. Olha, eu não acho que tem certo ou errado. Acho que em determinada fase de minha vida priorizei o trabalho em relação a muitas coisas e fiz muitos trabalhos legais.

Mas hoje em dia eu estou vendo que é possível continuar a fazer um ótimo trabalho sem abdicar de outras atividades, bastando para isso se organizar. Além de levar a Smut pra passear, as vezes passamos um período do dia divagando sobre o trabalho de um artista, fazendo pesquisa sobre o gosto tipográfico de Josef Albers e Moholy-Nagy ou fazendo maquetes que podem inspirar o desenho de uma logomarca. São momentos raros num mundo em que tempo é dinheiro e que temos uma agenda cheia de compromissos e clientes a responder.

Quando a gente consegue organizar as demandinhas diárias que ocupam um tempão (responder e-mails, ligar pra clientes, fazer orçamentos, corrigir um layout, etc) consegue encaixar uma tarde inteira para fazer um exercício de pesquisa e brainstorm que, às vezes, não traz uma resposta imediata mas amplia nosso repertório de idéias e nos faz lembrar por que um dia decidimos virar designers.

Urban Age: um dos trabalhos do Atelier Works para uma série de seis conferências sobre urbanismo, cada uma com uma revista. A capa foi desenvolvida inteiramente por Paola Faoro; as demais revistas já tinham sido publicadas quando ingressou no escritório.

 

DesignBrasil: A quais clientes você tem atendido diretamente? Que case você destacaria que tenha tido a sua participação?

Paola Faoro: Como o time do Quentin sou eu (além da Smut, que fica ao meu lado no organograma da empresa), lido diretamente com todos os nossos clientes. O Quentin busca os projetos, faz a proposta e toda parte burocrática. Algumas vezes ele já tem uma idéia clara do que quer fazer, em outras fazemos um brainstorm até acharmos um caminho interessante.

Entre os clientes recentes estão National Portrait Gallery, Tate Modern, The Hepworth Wakefield, Harper Collins, Laurence King, RIBA (Royal Institute of British Architects), British Council, Roundhouse, Goodgifts, Silver Jungle, etc. Um projeto que estou adorando é a criação da identidade visual para The Hepworth Wakefield, uma galeria de arte dedicada à artista plástica Barbara Hepworth. Estamos trabalhando em parceria com o escritório de arquitetura de David Chipperfield com intuito de criar uma unidade entre arquitetura e parte gráfica. O desenho da logomarca tem um vínculo direto com a arquitetura e a palheta de cores para as salas e as peças gráficas também será integrada.

Trabalho do Atelier Works para a National Portrait Gallery.

DesignBrasil: O fato de você ser brasileira de algum modo influencia no seu dia-a-dia profissional no Reino Unido?

Paola Faoro: Olha, acho que a coisa mais corriqueira ainda são as brincadeiras com meu sotaque. Outro dia estávamos escolhendo uma fonte e eu mencionei a Gill Sans, mas sem querer pronunciei “guiu” (como Brasil). Até hoje tiram sarro de mim, mas no fundo sei que eles admiram uma pessoa que veio de fora, estudou uma segunda língua, perseguiu um sonho e está ali no meio deles.

 

DesignBrasil: Você foi convidada a lecionar design na University of Arts London. Fale um pouco sobre essa experiência.

Paola Faoro: Um amigo meu que era professor teve que viajar e me ofereceu dar um curso no lugar dele. O curso era em duas semanas, eu aceitei na hora. Quando fui na Universidade negociar e pegar o conteúdo programático, descobri que tudo que havia era uma lista de 10 itens sobre o que eu deveria abranger em 30 horas aula. Foi uma correria, peguei livros na biblioteca, passei dias e noites preparando um curso inteiro chamado “Introduction to Graphic Design”, na qual eu deveria abranger de cor e linha a tipografia e quark xpress.

É claro que no primeiro dia de aula eu estava uma pilha de nervos: não conhecia os alunos e teria que dar seis horas de aula em inglês. Mas no segundo dia já foi mais tranqüilo e dali em diante só melhorou. Os alunos adoraram e eu adorei lecionar. Para mim a troca que se tem numa sala de aula e a pesquisa que me obrigo a fazer como professora têm um valor fundamental.

* Entrevista – Juan Saavedra – Portal DesignBrasil – www.designbrasil.org.br