Pesquisa histórica em design essencialmente interdisciplinar

Por Aline Haluch

Autora: Aline Haluch

 

O conhecimento e divulgação das experiências não-acadêmicas de design, anteriores ao ensino sistematizado no país, chama atenção para a riqueza cultural que esses objetos representam e mostram que a história do design brasileiro pode ser mais extensa do que se imagina.

…tente capturar o retrato da história nas representações mais insignificantes da realidade, em suas migalhas, por assim dizer.

BENJAMIN, Briefe, II in NEEDELL, Jeffrey Belle Epoque Tropical

Quando se faz pesquisa histórica em design, uma das grandes preocupações é a respeito da abordagem do objeto de estudo ele deve ser analisado sob a ótica do design mas considerando outros fatores determinantes para a sua contextualização. É necessária uma imersão no período histórico que se está pesquisando, buscando não uma relação de datas e lugares, mas fragmentos que formarão o cenário que abrigou outrora o objeto de estudo. Fatos do cotidiano revelarão como as pessoas pensavam, a música que ouviam, a moda que usavam, a literatura que consumiam, e permitirão conhecer um pouco do imaginário da sociedade estudada. Os marcos históricos consagrados, nesse caso, já não são tão importantes quanto os marcos reais que aparecem na prática do projeto, no uso da tecnologia, na experimentação de novas linguagens.

O imaginário recobre, ou melhor, permeia toda relacão do sujeito com objetos e imagens, na medida em que é através desse registro que se constitui a própria possibilidade de tal relação. Ora, se é legítimo afirmar que o universo do design é povoado por objetos e imagens que são trabalhados, avaliados, concebidos, produzidos e reproduzidos, no campo subjetivo, podemos dizer que o designer lida constantemente com o imaginário, em todos os níveis de sua atividade. (PORTINARI, Denise B. in COUTO, OLIVEIRA, 1999:78)

Conceitos de interdisciplinaridade na pesquisa em design

A interdisciplinaridade deveria ser um ideal, um objetivo do design seja na atuação profissional ou acadêmica e às vezes o designer passa muito tempo projetando e estudando design sem se dar conta do que é essa palavra, e pior, sem vivenciá-la. A pesquisa em design, que pode se revelar uma fonte sem fim de dados, é talvez uma das áreas onde se possa experimentar a interdisciplinaridade de uma maneira mais rica e multiplicadora. Se o objetivo do design é o homem, o designer deve saber dele muito mais do que medidas e percentis, ele precisa conhecer o homem na sua cultura, seus desejos e sonhos, e suprir necessidades físicas, intelectuais e afetivas.

A preocupação excessiva da análise deixa de lado toda exigência de síntese. A preocupação analítica está muito mais voltada para o saber preciso, pouco ou quase nada interessada por saber aquilo que se sabe. (…) Se isso é verdade, como poderemos chegar a um conhecimento do homem se, por questões de método, este conhecimento se funda sobre exclusões mútuas? Como atingir um conhecimento do fenômeno humano se, por uma questão de princípio, tal conhecimento se funda sobre uma psicologia do esmigalhamento do saber? (JAPIASSÚ, 1976:101)

A construção histórica inserida na linha de pesquisa da história da cultura material conta com os conceitos da antropologia, da arqueologia e da história, principalmente. Utilizando os conceitos e a metodologia destas disciplinas é possivel compreender o objeto de estudo, cercando-o de acontecimentos, vestígios e evidências que demonstram seus significados e relevância social. A investigação antropológica e arqueológica tornaram-se cruciais para a própria História, já que possibilitam a complementação da documentação escrita com as informações obtidas através da fonte primária, ou seja, do objeto de estudo em si.

Pode-se utilizar outras disciplinas para complementar a pesquisa: literatura, filosofia, psicologia, lingüística, semiótica enfim, a área será definida pelo próprio objeto de estudo e pela abordagem que se quer fazer.

O design tem uma vocação interdisciplinar, mas é preciso explicitar essa interdisciplinaridade, pois na maioria das vezes ela acontece de forma intuitiva e desordenada. A interação/ integração intencional gera projetos mais ricos e consistentes. Esta problemática deve ser proposta no ensino de design para que o aluno tenha a oportunidade de vivenciar a interdisciplinaridade e descobrir que pode ir muito além num projeto se pensá-lo de uma maneira mais inteira.

História e História do Design

Muito mais que um conjunto de fatos ocorridos no passado, a história se caracteriza pelo relato do historiador, sob determinado ponto de vista. Ao longo de muitos anos, os fatos podem ter seu sentido totalmente desvirtuado fatos que para alguns não têm importância alguma, para outros tomarão grandes proporções, portanto o processo de seleção de fatos e a avaliação de sua relevância fazem parte de uma importante etapa da pesquisa histórica.
Se a história, mais do que um conjunto de fatos, é um processo de repensar o passado, qual será o sentido de se repensar o passado para o design?

Ao buscar as origens do design nas suas atividades correlatas artes gráficas, artesanato, pequena indústria/ manufatura seus precursores e sua importância para a consolidação do design como atividade profissional, não podemos desconsiderar as manifestações de um período anterior ao modernismo, que originou o design moderno.

A importância de se pesquisar a história do design principalmente no Brasil onde os estudos nessa área ainda são escassos é essencial para a busca de novos caminhos e interpretações para a profissão. Cronologicamente, na Europa e nos Estados Unidos, já se considera naturalmente o ponto de partida para o design o período pós-1a Revolução Industrial, no início do século XIX, quando a padronização entre produção e consumo foi alterada pela cultura comercial. (JOBLING & CROWLEY, 1996:1-12)

No Brasil, o medo em afirmar que produtos da mesma época tinham design se deve principalmente ao conceito estabelecido de que a atividade de design no país teve início apenas em meados do século XX. Para afirmar que no Brasil havia a prática de atividades relacionadas ao design desde o século XIX, as quais evoluíram até chegar ao design que se conhece hoje, é preciso confrontar essa postura, demonstrando que tal prática era concebida com significado. A pesquisa histórica em design permite buscar justamente aquele fragmento de informação que lhe dárá a prova: isto é uma atividade projetual, isto é design.

O conhecimento e divulgação das experiências não-acadêmicas de design, anteriores ao ensino sistematizado no país, chama atenção para a riqueza cultural que esses objetos representam e mostram que a história do design brasileiro pode ser mais extensa do que se imagina. No caso do design gráfico, o artista gráfico comercial que fez parte do passado e que criou marcas, identidades de empresas e produtos, embalagens, jornais, revistas e livros, anúncios e reclames utilizando a tecnologia que dispunha, sua habilidade, talento e subjetividade, trabalhava de forma bem parecida com a que os designers trabalham hoje.

Referências Bibliográficas

COUTO, Rita Maria de Souza; OLIVEIRA, Alfredo Jefferson Formas do design. Rio de Janeiro. 2AB editora. PUC-Rio, 1999. 191p.

DENIS, Rafael Cardoso Uma introdução à história do design. São Paulo, Editora Edgard Blücher, 2000, 240p.

JAPIASSÚ, Hilton (1976). Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago.

JOBLING, Paul; CROWLEY, David Graphic design: reproduction and representation since 1800. Manchester, Manchester University Press. 1996. 296p.

NEEDELL, Jefrey D. Belle époque tropical: sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século. Tradução Celso Nogueira. São Paulo, Companhia das Letras, 1993,383p.

Tags:

1 Comentário

  1. Aline Haluch disse:

    Olá, não consta minha autoria nesse artigo, gostaria que vocês incluíssem! obrigada