Philip Hess, da Senz° Umbrellas, conta tudo sobre seu negócio – e sobre design

Por Centro Brasil Design

No Brasil para participar do Seminário Design to Business, inserido na Semana D, que aconteceu em Curitiba entre 2 e 8 de outubro, Philip Hess, um dos três fundadores da Senz° Umbrellas, empresa holandesa que rompeu paradigma ao desenvolver e comercializar um novo formato para o usual guarda-chuva – que não vira e resiste a ventos de até 100 km/h, deu entrevista exclusiva ao DesignBrasil em que fala sobre design, negócios e estratégias.

A ideia que criou a Senz° surgiu como um projeto de graduação, motivado a partir da frustração de Gerwin Hoogendoorn, integrante do time fundador, que teve três guarda-chuvas quebrados em uma semana. Introduzida ao mercado em 2006, as 10 mil unidades iniciais da peça foram vendidas em apenas nove dias, e, a partir daí, a repercussão só aumentou: além da visibilidade nas mídias, a Senz° foi premiada com a estatueta iF Gold do iF Design Awards – considerada o Oscar do Design – além de receber prêmios internacionais como o Red Dot Design Award, o Good Design Award e outros.

A apresentação de Hess no evento mostrou que o sucesso nasce com o bom produto – neste caso, uma inteligente aplicação de inovação para melhorar um objeto que existe há 3 mil anos – mas que a boa administração é que mantém o negócio em uma crescente. “Marketing também é um processo de design”, diz Hess sobre o trabalho que faz na Senz°. “No marketing, as possibilidades são divergidas e convergidas assim como em um produto”, afirma. Sobre o guarda-chuva, ele conta que vários problemas foram solucionados com o design desenvolvido pela empresa, entretanto o público não se lembraria de todos os pontos – “as pessoas vão se lembrar de apenas uma coisa”, diz Hess – e assim simplifica a definição de seu produto como um ‘guarda-chuva de tempestades’ (the storm umbrella, em inglês).

Hess durante o seminário Design to Business, em Curitiba (Foto: Daniel Sorrentino)

Philip Hess ainda deu boas lições para o início de um negócio, sobre investidores, sobre a boa comunicação com a imprensa e a importância de se ter uma mensagem simples e ser fiel à realidade do produto. E ainda destaca que as pessoas por trás do produto são tão importantes quanto o produto em si. “Nossos investidores estavam interessados em trabalhar conosco – não tanto com o guarda-chuva – mas conosco, as pessoas”, afirma ele. “E há múltiplas maneiras de se lidar com os investidores: também é possível ser criativo neste ponto”, completa.

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

 

DesignBrasil: A ideia que criou a Senz° nasceu ‘a partir de pura frustração’. Você acha que esta é a melhor motivação para inovar? Que outros fatores podem impulsionar uma ideia?

Philip Hess: Com uma frustração, você está na verdade melhorando alguma coisa que você não gosta – mas é importante que os outros se sintam da mesma forma, para que você não acabe fazendo egodesign. E uma ideia pode começar com uma necessidade que não é um problema, ou uma abordagem científica para transformar algo. Basta encontrar uma oportunidade.

DB: Você fala sobre o problema ambiental – relacionado ao desperdício de tantos guarda-chuvas que são jogados fora. Como é pensado o ciclo de vida do produto na Senz°?PH: Nesta área, nós podemos melhorar – o que fazemos não é suficiente. Mas é algo em que estou muito interessado – no processo de produção existe muito trabalho, e todo ele é feito na China. Nós vamos tentar mover parte dele para países em desenvolvimento, para que os salários possa alimentar mais pessoas – e então se torna um social business. E isso seria muito satisfatório para mim, é muito motivante. Sobre os materiais, alguns aspectos são recicláveis: o tecido é poliéster, e também há alumínio e outros metais. Mas tenho que dizer, podemos melhorar nesta área.

DB: O que você quer dizer quando afirma que ser realmente inocente é o melhor caminho para a criatividade?PH: Muitas pessoas são bem práticas quando você tem uma ideia, e dizem: ‘não, isto não pode ser feito’ – e ser inocente faz com que você se abra para outros tipos de oportunidades. Talvez uma ideia realmente não possa ser feita, mas ela pode te levar a outras ideias que podem dar certo. O truque é trazer algo que está fora da caixa para a fronteira interna dela (usa a expressão em inglês outside of the box). Tenho que dizer, que como um designer e um empreendedor, não perdi a criancice e inocência. Eu confio nas pessoas – e eu prefiro ir à falência por ser assim do que ser de outro modo. 

DB: Você mostrou algumas ideias de sketches durante sua apresentação. Como foi este processo e seleção?PH: O mais importante em um guarda-chuva é que ele tem que ser dobrável e ser grande para proteger da chuva. Um dos caminhos com que trabalhamos durante a fase dos sketches era um guarda-chuva inflável, e um outro abria como um arco e flecha. Mas no fim, o produto tem que ser socialmente aceito e ter apelo comercial – e foi assim que definimos o design final, que não vai muito longe do guarda-chuva tradicional, mas ainda é muito diferente. Já que estamos trabalhando com um arquétipo que tem mais de 3 mil anos de idade, essa é a parte em que você volta um pouco para ‘dentro da caixa’.

DB: Você diz que o triângulo ‘design, marketing e vendas’ estão naturalmente juntos. Qual é você acha que é a chave para fazê-lo funcionar na prática?PH: Vou dar o exemplo da Senz°: temos um líder do projeto, o responsável pelo design, que trabalha em cima de uma tarefa – e um orçamento. A cada duas semanas, há uma reunião sobre o processo com todas as áreas reunidas (marketing, vendas, logística), para que então o responsável pelo design possa ajustar o processo.

DB: Uma das fases mais desafiadoras do desenvolvimento de um produto é encontrar investidores. Você falou sobre uma carta de intenção: como foi isso? E como você vê a relação com os investidores?PH: Sobre a carta de intenção, foi simples: nós mostramos o produto a alguns potenciais clientes e perguntamos se eles estariam interessados em comprá-lo. Então quem dissesse sim, eles assinavam esta carta de intenção, que nós mostramos aos investidores. Sobre a relação com os investidores, acredito que eles olham para o produto mas também para as pessoas por trás dele. Eles representam uma oportunidade de realizar seu sonho. Nossos investidores, por exemplo, estavam interessados em trabalhar conosco – não tanto com o guarda-chuva, mas conosco, as pessoas. E eles queria fazer um investimento a longo prazo: digo que há diversas maneiras de lidar com isso, e também é possível ser criativo nesta parte.

DB: Sobre os casos de garantia da primeira leva (de dez mil guarda-chuvas) que você cita na apresentação. Quais foram os desafios e as soluções encontradas?PH: Em relação ao produto, havia algumas falhas: o protetor de olho (que fica nas pontas do guarda-chuva) não tinha uma boa fixação. E também havia um problema com as hastes, elas entortavam. Então, o que antes era feito somente em alumínio passou a ser desenvolvido também com fibra de vidro, e problema solucionado. Em relação aos problemas, é muito mais importante a forma como você lida com eles e com as pessoas do que o fato de que, por exemplo, seu produto quebrou.

DB: Sobre o iF Gold que a Senz° ganhou em 2009…PH: O iF nos deu credibilidade e tornou muito mais fácil o reconhecimento como um produto de design: isso abriu a porta para uma nova área de distribuição. E também foi um pouco estranho ser mencionado em uma categoria com nomes gigantes como Porsche.

DB: Você diz que marketing é um processo de design.PH: Eu acho que design é solucionar problemas – você pode aplicar isso a produtos mas também a outros problemas. Como um designer, é possível ter um olhar bem analítico e encontrar uma solução. O processo de marketing é design enquanto você diverge e converge possibilidades – similar ao que se faz com produtos. Em os dois envolvem todos os aspectos da empresa: estratégias e logística.

DB: Como agregar o fator emocional a uma marca e contar histórias? Como foi isso com a Senz°?PH: Traduzir aspectos técnicos para algo que as pessoas entendam – isto é relevante para poder tocar as pessoas emocionalmente. A completa interação com a marca. Não lembro quem disse que ‘as pessoas vão esquecer o que você fez, mas nunca vão esquecer como você as fez sentir’ (a citação é de Maya Angelou, escritora norte-americana: People will forget what you did, but people will never forget how you made them feel, no original). Assim como existe o ‘Top of mind’ de produtos, existe o ‘Top of mind’ de pessoas por trás de marcas – como é o caso do Steve Jobs. No caso da Senz°, nós estávamos cientes do fator ‘juventude’ – de que as pessoas gostavam, então isso ajudou. E também é preciso ser real e autêntico. E isso sendo ao mesmo tempo natural e planejado. Eu, por exemplo, passei a usar terno e gravata nas reuniões da empresa depois que começamos a Senz°, e eu não me sentia confortável. Depois, parei de usá-los e me visto assim (ele estava de camisa social, com a manga dobrada, e calça jeans). E trato os clientes como amigos, conto as mesmas piadas.

DB: Você imaginava trabalhar com uma ideia tão boa baseada em um produto tão simples? Como você vê a trajetória desta carreira?PH: Para mim, a alegria está em ser pioneiro e progredir. Toda vez que a empresa entra em uma nova fase, vem um novo desafio. E assim você continua a aprender e desenvolver a si mesmo – e acho que isso é que é empreendedorismo. Quanto ao começo, lembro que não fazia ideia no que eu estava entrando. Eu só pensei que deveria dar uma chance: ‘Vamos apenas tentar’, pensei.

DB: E o futuro?PH: Neste momento, estamos focados em expandir nossa distribuição. Mas, somos designers de coração e também queremos criar novos produtos. Hoje, estamos ativos e quase 50 países – o que vai tornar muito mais fácil a distribuição de um novo produto. Somos uma marca de ‘weather enjoyment’ (algo como ‘para aproveitar o clima’) – e eu espero que sejamos a melhor do ramo.

  Philip Hess posa com um Senz° Umbrella amarelo, durante evento para estudantes (Foto: Daniel Sorrentino)