Por dentro da seleção do iF DESIGN AWARD 2016

Por Editor DesignBrasil

** por Bruno Porto e Marco Aurélio Lobo Júnior

Ao entrarmos no imenso galpão 52 do porto de Hamburgo é impossível não pensar na cena final de Caçadores da Arca Perdida, em que a poderosa — e perigosa — relíquia recuperada por Indiana Jones desaparece em um gigantesco armazém de contêineres e engradados. Emitindo exclamações de alegria e surpresa, os sessenta jurados da 63ª edição do iF DESIGN AWARD se perdem em meio aos 5.295 projetos inscritos, cuidadosamente organizados, em suas categorias específicas, e expostos, em sua maioria, sobre longas mesas que vão de uma extremidade a outra do enorme espaço.

Para se chegar às mesas é preciso passar por fileiras de móveis, equipamentos hospitalares (como mesas cirúrgicas e cadeiras de dentistas), barracas de camping (montadas), máquinas de lavar roupa (vinte e duas!), bicicletas, luminárias, pias e chuveiros (instalados em cenários que emulam banheiros), além de duas dúzias de carros, em suas maioria de empresas européias como Volkswagen, Aston Martin e Audi.

Considerado um dos principais selos de excelência em design do mundo, o iF DESIGN AWARD  foi criado na Alemanha em 1953, e reune anualmente um júri de especialistas para analisar e premiar projetos de design de produto, comunicação visual, embalagem, arquitetura e interiores, entre outros. A júri desta edição se reuniu entre 19 e 21 de janeiro de 2016 e selecionou um total de 1.821 projetos.

Durante este curto período, as 37 categorias desta edição foram analisadas por grupos de dois ou três jurados, cada um contando com dois assistentes. O principal pedido ao júri foi bem claro: selecionar cerca de 1/3 dos trabalhos enviados em cada categoria, os Top 30%. Isso é feito colando um adesivo verde ou vermelho nas fichas dos trabalhos, que contém uma breve descrição dos projeto, cliente, ano de produção, autoria e um QR Code que será lido pelos celulares dos assistentes, registrando e imediatamente contabilizando os resultados. Após a seleção dos projetos, cada grupo de jurados define um pequena quantidade de projetos para receberem o iF Gold Award.

Na orientação dada a todos antes do jantar de boas vindas, o diretor do iF, o alemão Ralph Wiegmann, esclarece que foram dois meses de preparação das inscrições – recebendo os trabalhos de 53 países – seguidos por dois meses de arrumação dos projetos no galpão: todos os objetos e pranchas estavam expostos da melhor forma possível para o julgamento, o que incluía réguas de tomadas para os produtos eletrônicos e elétricos, tablets para vídeos que complementavam os impressos, computadores para as inscrições digitais e uma área isolada para análise de projetos secretos, ainda não lançados e considerados segredos industriais. Ao júri era solicitado explicitamente não divulgar quaisquer informações discutidas ou tirar fotos. Também foi reforçado que, por respeito aos clients do iF, cada projeto deveria ser analisado individualmente, sem comparação com as demais inscrições. Diferente do iF Student Awards, não há uma pré-seleção do que chega até este júri. Se a organização alemã foi impecável, o processo de seleção não se diferencia em nada da maior parte de concursos e premiações realizados no Brasil: a atitude dos jurados é, de uma forma geral, extremamente ética e responsável, e o implacável tempo sempre joga contra.

A maioria esmagadora dos trabalhos enviados, em quaisquer categorias, eram de empresas e designers alemães, seguido por de outros países da Europa e Ásia, e em menor número de outros países. Isso era refletido na composição do júri: dos 60 jurados, 29 eram alemães, 19 vinham de outros países europeus, 10 eram asiáticos e 2 latino-americanos: um carioca (Bruno Porto, que participou no júri de publicações, tipografia, identidade corporativa, branding, publicidade e sinalização) e um mineiro (Marco Aurélio Lobo Júnior, que atuou no júri de produtos domésticos), ambos radicados em Brasília. Em mais de seis décadas de premiação, foram poucos os brasileiros que integraram o corpo internacional do júri do iF: os veteranos João Carlos Cauduro (1980), Guiseppe Bonsiepe (nas edições de 1999, 2002, 2004, 2007 e 2009) e Angela Carvalho (1994, 1997 e 2013), e, mais recentemente, Ronald Kapaz (2014), Gustavo Greco e Marcelo Rosenbaum (2015). A presença do Brasil no júri foi sendo conquistada nos últimos anos pelo aumento gradual de trabalhos brasileiros na competição — principalmente a partir de 2002 com o projeto Design Excellence Brazil, que até 2012 co-patrocinava inscrições estratégicas — que culminou com o país se tornando um dos dez mais premiados no iF na última década.

Praticamente todos os grupos de jurados contavam com um participante alemão e um asiático (ou ocidental com experiência de trabalho na Ásia). Vimos como isso era essencial para que todos os membros do júri pudessem compreender a adequação das soluções diante das necessidades dos clientes e mercados, mas principalmente dentro do contexto de uso de alguns produtos. Em muitos embates, entretanto, a opção pela estética européia prevalecia, com muita ênfase em forma + função.

Como historicamente a premiação é voltada ao design de produto — as categorias deste segmento contabilizam mais do que o dobro das de comunicação visual — nossa percepção é de que isso torna as decisões neste campo mais acirradas e meticulosas. Após a definição dos selecionados, era permitida a cada jurado de produto questionar até duas decisões feitas – fossem pela inclusão ou exclusão de um projeto – dos demais jurados de produto, com o veredito sobre as dúvidas sendo dado por voto da maioria, em assembléia.

Se este formato e características do julgamento torna a conquista de um iF DESIGN AWARD em projetos de produto mais difícil e prazerosa, ao mesmo tempo abre um espaço fértil para projetos de design gráfico, principalmente para empresas – contratantes ou autores dos projetos selecionados – que buscam ampliar sua atuação no exterior. É o que tem feito dezenas de empresas asiáticas que buscam essa chancela européia tanto para promover seus produtos em seus próprios países como para ganharem acesso a novos mercados.

Com base no que vivenciamos da dinâmica do processo de seleção desta edição, apresentamos abaixo algumas sugestões aos designers e empresas brasileiras que decidirem investir – o valor da inscrição desta edição variava entre 275€ e 350€ – na conquista de um iF DESIGN AWARD :

– O texto de descrição do projeto deve ser objetivo e técnico, estabelecendo de forma clara seu público alvo e contexto de uso. Se na ficha de inscrição não houver espaço para grande detalhamento, mantenha em seu site estas (e outras) informações em inglês. Houve casos em que o júri fez este tipo de consulta, principalmente quando havia a possibilidade de um iF Gold Award.

– Parece óbvio, mas não é: envie fisicamente o produto – mesmo gráfico, como livros, cartazes, papelarias, etc – ao invés de simplesmente em formato digital. Dada a alta qualidade dos projetos expostos durante o julgamento, é difícil não sentir a falta de uma análise mais próxima, real. Protótipos de projetos de produto tampouco são vistos com a mesma seriedade que os produtos em si.

– Curtos vídeos complementares ou demos são uma ótima pedida para websites, apps, campanhas publicitárias etc, bem como para produtos que possuam especificidades no seu uso. Desta forma é mais eficiente a comunicação ao júri dos aspectos do projeto que você deseja ressaltar.

– Para serem levadas à sério, as campanhas publicitárias inscritas devem ter um conceito forte aliado a uma direção de arte de altíssima qualidade. Deixem as meras sacadinhas criativas para prêmios como o D&AD e Cannes.

– Áreas sobrecarregadas (ou Se for inscrever é bom que seja EXCELENTE): anuários corporativos, embalagens de cerveja, máquinas de lavar roupa e purificadores de ar.

– O que apareceu pouco (ou Acreditamos que teriam boa chance de entrar): fontes tipográficas (principalmente famílias), projetos com ilustração de qualidade, campanhas publicitárias de bom gosto que geraram resultados, utensílios de cozinha, cutelaria, produtos têxteis, louças sanitárias.

Household / Tableware: os jurados Marco Aurélio Lobo Júnior (Brasil), Cecilie Manz (Dinamarca), Cristoph Boeninger (Alemanha), e as assistentes Kimberly Liu e Sandra Fischer.

Household / Tableware: os jurados Marco Aurélio Lobo Júnior (Brasil), Cecilie Manz (Dinamarca), Cristoph Boeninger (Alemanha), e as assistentes Kimberly Liu e Sandra Fischer.

 

 

 

Corporate Identity, Branding, Magazine /  Press / Publishing, Annual Report, Typography / Signage, Advertising, Events: os jurados Fabian Furrer (Suíça), Bruno Porto (Brasil), Kilian Strauss (Alemanha), Tammo Bruns (Alemanha) e Markus Kreykenbohm (Alemanha), e as assistentes Mareikke, Carmen, Louisa e Korinna.

Corporate Identity, Branding, Magazine /  Press / Publishing, Annual Report, Typography / Signage, Advertising, Events: os jurados Fabian Furrer (Suíça), Bruno Porto (Brasil), Kilian Strauss (Alemanha), Tammo Bruns (Alemanha) e Markus Kreykenbohm (Alemanha), e as assistentes Mareikke, Carmen, Louisa e Korinna.

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Marco Lobo é bacharel em Design pela Universidade de Brasilia, UnB, e Especialista em  Docência Universitária pelo Centro Universitário de Brasília, Uniceub. São 15 anos de experiência em políticas públicas de design e em promoção comercial internacional, sendo Assessor do Programa Brasileiro do Design, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Consultor do programa de promoção internacional do mobiliário brasileiro junto a Associação Brasileira da Indústria do Mobiliário, Professor Adjunto do Departamento de Design da Univille – Joinville, SC. Foi gestor de Projetos da Apex-Brasil para os setores de Máquinas e Equipamentos, Design e Moda e assessor do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos – CGEE/MCTI. Atualmente é Consultor em Gestão da inovação e do design, Coordenador de Projetos do Instituto Europeu de Design, IED, e Professor do Curso de Design do Instituto de Ensino Superior de Brasília, IESB.

Bruno Porto, coordenador do curso de Design Gráfico do Centro Universitário IESB, atua como designer gráfico, professor e consultor em design. O profissional se destaca nas áreas do design gráfico e da ilustração, tendo trabalhos expostos nas Américas, Ásia, África e Europa, e publicados em mais de 40 livros e revistas internacionais. É Coordenador Executivo pelo Brasil da Bienal de Tipografia Latino-Americana (TIPOS LATINOS); membro do Conselho Diretor da Sociedade dos Ilustradores do Brasil (SIB) e dos Conselhos Consultivos da Associação dos Designers Gráficos do Distrito Federal (ADEGRAF) e da Associação dos Designers Gráficos (ADG Brasil). Foi nomeado Embajador del Diseño Latino pelo Comité de Diseño Latino no Foro de Escuelas de Diseño 2015.