Quadrinhos de Mauricio de Sousa como Design Gráfico

Por Editor DesignBrasil

Há no Brasil bastante pesquisas sobre quadrinhos. A área de design comporta os quadrinhos de várias maneiras. Fundamentalmente, onde o design encaixa a área de quadrinhos?

“(…) a concepção de um design não é simplesmente uma representação em forma visual de valores predeterminados, mas um processo criativo e catalítico em que fatores externos interagem com as crenças, talentos e habilidades do designer”. (HESKETT:1998, p.10)

Por muito tempo, após a criação da Bauhaus, na Alemanha, o design trouxe consigo conceitos arraigados a respeito de sua consolidação enquanto atividade. A idealização Bauhauseana da forma seguindo a função veio sendo encarada como o meio pelo qual o design se estabelecia como área de atuação, tomando seu lugar nas comunicações de massa; a produção em série era até então a justificativa da atuação do designer na indústria. Como aborda André Villas-Boas a respeito da ação do designer:

“Um projeto gráfico só existe enquanto tal se for idealizado para reprodução do contrário, é uma obra circunscrita ao campo da arte do artesanato, uma peça única. E o projeto está diretamente ligado à forma pela qual esta reprodução será realizada se será impresso a cores, quais as dimensões do papel, a disponibilidade de investimento para a sua consecução, qual o tipo de impressão e quais as especificações técnicas do maquinário a ser utilizado etc.” (VILLAS-BOAS:1994)

Podemos arriscar que há alguns anos atrás, mal se falava da atuação do designer no desenvolvimento de projetos que envolvessem a transmissão da mensagem entendendo que há um significado para ela. No mercado brasileiro, quando se falava de programação visual, era vista como um elemento de melhoria dentro de um projeto, apenas para torná-lo mais atrativo para o público. O design gráfico era encarado (erroneamente) somente como uma ferramenta de funcionalidade. Como afirma John Heskett:

“(…) o desenho industrial é um processo de criação, invenção e definição, separado dos meios de produção. Ele envolve uma síntese final de fatores contributivos e muitas vezes conflitantes numa concepção de forma tridimensional e na sua realidade material passível de reprodução múltipla por meios mecânicos”. (HESKETT:1998, p. 11)

“Hoje em dia, a atuação do designer na sociedade não é mais vista como a de um simples vendedor de idéias, mas essencialmente, como a de um elemento polarizador de conceitos. O profissional de design deve ter condição de propor estratégias que atendam aos anseios e necessidades da comunidade em que está inserido e que também sejam capazes de modificar a percepção e a atuação social desta mesma comunidade”. (FARBIARZ:1998)

Hoje, as escolas de design do Brasil abrem espaço em seus currículos para a adequação do designer em novas áreas, atuando novas mídias. É comum encontrarmos nas grades curriculares, disciplinas que envolvem a criação para a Internet, CD-roms, desenhos animados, desktops, entre outras. É cada vez mais comum nas agências de publicidade, que admitiam somente profissionais da propaganda, a contratação de designers, não só para cargos de criação, mas também para atuarem no desenvolvimento de interfaces gráficas, com aspectos significativos, ou seja, diretamente sob a perspectiva de influência na “mensagem”.

No âmbito do design, tratando-o como parte dessas novas áreas de atuação, existem agora, estudos a respeito do design de livros infantis, de jornais, de revistas e, por que não, de histórias em quadrinhos. Já encontramos estudos da atividade design abordando os meios de comunicação de massa, avaliando-os como aliado às soluções de problemas que anteriormente eram resolvidos somente pelos profissionais formados pelas áreas da Comunicação Social, como publicitários e jornalistas.

Podemos encarar que o estabelecimento do design enquanto atividade passou a ser não só a produção em série, mas também a transmissão da mensagem. E o que é a transmissão dessa mensagem, senão o uso adequado dos elementos utilizados como “peças-chave” da comunicação, estabelecendo um processo de significação entre o emissor e o receptor, denominados signos? Quando falamos em comunicação, encaramos o sujeito receptor dotado de pré-requisitos necessários para o entendimento da mensagem. Na verdade, o estudo do meio de significação da mensagem, organiza a forma que o sujeito dá sentido às coisas. (BARTHES:2001, p. 205)

O sentido de transmissão da mensagem aqui é tomado como item de análise, como uma justificativa para um estudo de quadrinhos, fazendo parte de uma classificação onde o designer atua livremente, fundamentado em elementos que constituem a construção imagética por parte do receptor da mensagem, no campo do imaginário.

“O imaginário recobre, ou melhor, permeia toda relação do sujeito com objetos e imagens, na medida em que é através desse registro que se constitui a própria possibilidade de tal relação. Ora, se é legítimo afirmar que o universo do design é povoado por objetos e imagens que são trabalhados, avaliados, concebidos, produzidos e reproduzidos, no campo subjetivo, podemos dizer que o designer lida constantemente com o imaginário, em todos os níveis de sua atividade.” (PORTINARI in:COUTO, OLIVEIRA:1999)

Para Barthes, essa transmissão só é permitida, quando há uma ciência capaz de entender a forma que se adota, pelos vários sentidos que o ser humano se expressa. A esse conhecimento, que é chamado de linguagem, ele diz que intervém sempre, principalmente nos sistemas de imagens. É por isso que é correto dizer que estamos na civilização da imagem. (BARTHES:2001, p.206)

O designer gráfico se tornou um profissional que executa projetos que se beneficiam do uso dos sistemas de imagens. Não cuida somente da imagem impressa, bidimensional, mas também, de sistemas de objetos. Para discorrer sobre os sistemas de objetos e do uso da imagem, devemos esclarecer que a mensagem depende de uma transmissão e de uma significação, fazendo uso da linguagem adotada para tal. Como entender sobre essa significação através da linguagem?

Para tanto, este artigo se beneficia dos estudos de Barthes sobre a Semiologia, que é a ciência que estuda os signos. E trata o designer como o profissional que usa o ato de significar como ferramenta, fazendo uso dos aspectos comunicativos da mensagem.

Mas o que faz do ilustrador de histórias em quadrinhos, Mauricio de Sousa um designer? Mauricio de Sousa hoje possui uma grande equipe que vai de roteiristas, passando de desenhistas, arte-finalistas, até produtores gráficos, que fazem com que as suas revistas sejam produzidas mensalmente com a maior excelência de projeto. Não é só da imagem que vamos tirar proveito como ato de significar, mas sim, do objeto revista como um todo que utiliza a imagem criada.

Devemos entender o que é objeto, senão uma coisa vaga, como definição de uma coisa, livre para a apropriação. Ou seja, para Barthes, primeiramente são as conotações existenciais de sua constituição, pela sua própria existência que não é humana, depois, “as conotações tecnológicas do objeto, definido principalmente como um elemento de consumo; produzido”. Então, se o “objeto é criado como um meio pelo qual está suscetível às significações produzidas de um sujeito para que outro sujeito o tenha por significado, inserido socialmente, se beneficiando da indústria para reproduzi-lo”, as histórias de Mauricio de Sousa, que são constituídas de imagens idealizadas, obedecendo a um projeto gráfico e reproduzidas pela indústria gráfica, elas são objetos de design.

Além de objetos produzidos em série, dotados de significação, utilizando imagens pictóricas para o entendimento do leitor, idealizando-as, é necessário nesse momento afirmar, como já mencionado, que as histórias em quadrinhos de Mauricio de Sousa obedecem, de certa forma, engessado, um projeto gráfico quadrinizado, característico do autor. Essa leitura de imagens é permitida por uma linguagem visual característica.

Há essa altura, após relevâncias apontadas sobre a sua produção gráfica, fundamentadas pela idéia da Bauhaus sobre o design sustentar a produção em série como atividade e avaliar o processo de significação ao qual a imagem adotada por Mauricio de Sousa, tornam as suas histórias em quadrinhos tão características, por uma visão de abordagem semiológica, é necessário dizer que o objeto de análise constrói a mensagem, utilizando-se de imagem pictórica, como um objeto de design.

Referências Bibliográficas

HESKETT, John. Desenho industrial. Tradução de Fábio Fernandes. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.

VILLAS-BOAS, André. Modernismo e funcionalismo: o caminho do design gráfico não é um só. In.: Anais do p&d design 94. Aend-BR. Estudos em Design. P. IX-6, V.2.

FARBIARZ, Alexandre. O meio tecnológico de produção gráfica na relação Designer/Univercidade/Indústria Gráfica. In.: Anais do p&d design 98. Aend-BR, Estudos em Design P. 0531, V.2.

BARTHES, Roland. A aventura semiológica. São Paulo, Martins Fontes. 2001. P.205

PORTINARI, Denise B. In: COUTO, Rita Maria de Souza; OLIVEIRA, Alfredo Jefferson Formas do design. Rio de Janeiro. 2AB editora. PUC-Rio, 1999. 191p.

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