A queda e o remake de um logotipo

Por Editor DesignBrasil

 

 

Por Octavio Aragão

Em 2001, eu era editor de arte das revistas de informática da Ediouro, a saber Internet.brInternet Business e Webguide. Dividindo a redação conosco, havia a equipe da revista Cabelos & Cia, especializada em, bem…cabelos. A capa, sempre repetindo o mesmo padrão, com um rosto de celebridade exibindo um corte de cabelo diferenciado, não comprometia. Seu logotipo era simples, mas efetivo, usando a família Falstaff, de boa legibilidade e cujas terminações afiladas remetem às pontas de cabelos.

 

A boa legibilidade da revista em 2001

A boa legibilidade da revista em 2001

 

Quando cheguei à empresa, a revista já era considerada boa de vendas e dona de um nicho próprio, bem situada entre o público. Mudanças, se necessárias, seriam meramente, sem trocadilho, cosméticas. Porém, ainda assim, ao final do ano, devido a uma parceria com uma editora de São Paulo especializada em revistas, clamou-se internamente por uma mudança de projeto gráfico nas revistas, o que incluiu a Cabelos & Cia, que logo mudou de nome para um longo e pouco prático Cabelos, Beleza & Cia.

O logo, repentinamente agigantado, sofreu – sim, essa é a palavra – uma adequação que me espantou e ainda me causa estranheza, tornando a capa consideravelmente mais poluída.

 

Letras coladas e logo extended, em 2002

Letras coladas e logo extended, em 2002

 

O então diretor executivo da publicação, tomado por uma sanha renovadora, decidiu mudar o logotipo sozinho, alterando a pobre família tipográfica e eliminando os espaços entre letras, juntando maiúsculo com o a minúsculo, o mesmo a com o b e, golpe mortal, o o com o s. Como resultado, o antes elegante e legível logotipo tornou-se um elemento pesado e confuso no topo da página, criando  o que batizamos na redação de “Efeito Cabelas”. Sim, Cabelas, pois o o colado à serifa do transformou-se em outra letra, alterando a leitura.

Felizmente, pouco tempo depois o projeto foi novamente alterado, dessa vez com resultados salutares para a capa da publicação. O nome voltou ao original e certeiro Cabelos & Cia, mas dessa vez em uma linha, o que melhorou a compreensão da marca, e o & ganhou uma característica mutante – às vezes opaco, às vezes transparente – que torna o logotipo mais contrastado.

 

A capa de Cabelos & Cia hoje: equilíbrio.

A capa de Cabelos & Cia hoje: equilíbrio.

 

A fonte voltou à forma original, sem distorções forçadas, e a elegância retornou. Da fase de colação de letras, o C foi associado ao a de maneira mais coerente (apesar das outras junções ainda parecerem um pouco forçadas) e, graças aos deuses do bom design, o o foi separado do s.

No geral, a mudança fez maravilhas pela capa como um todo, aumentando o espaço para mais chamadas em corpos maiores, e ainda sobrou espaço para um slogan (questionável, mas que mesmo assim prejudica pouco o conjunto) acima do logotipo, coisa impensável na versão anterior.

O que aprendemos com isso? Deixe as pobres famílias tipográficas em paz. Não se meta a alterar seus desenhos sem conhecimento de causa ou sua publicação pode sofrer. E, principalmente, está em dúvida e tem um designer por perto? Guarde a soberba no armário e peça uma opinião. Com certeza custa algum dinheiro, mas você lucra no final.

Octavio Aragão

OctavioLivro

Doutor em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2007 e 2002). Professor Adjunto da ECO-UFRJ e pesquisador do PACC-UFRJ.

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