Rafael Cardoso

Por Editor DesignBrasil

Autor fala sobre o livro O design brasileiro antes do design: aspectos da história gráfica 1860-1960

Quem disse que a produção gráfica brasileira anterior à década de 50 não é design? O livro “O design brasileiro antes do design: aspectos da história gráfica 1860-1960″ procura desmontar esse preconceito.

Lançado em maio deste ano pela editora Cosac Naify, o livro traz nove ensaios – organizados pelo professor e pesquisador carioca Rafael Cardoso (foto) segundo uma cronologia que parte das marcas registradas do século 19 e chega às capas de discos produzidas no início dos anos 1960.”Sou contra essa discriminação! Não é uma ideologia e muito menos um diploma que define quem é ou não um bom profissional. A qualidade da produção é que deve definir o reconhecimento do profissional, e não o seu pertencimento a esse ou aquele grupo”, afirma o organizador da obra (capa ao lado) em entrevista exclusiva ao portal DesignBrasil.

Cardoso, 41anos, é Ph.D em História da Arte pela University of London, na Inglaterra, e atualmente leciona no departamento de artes e design da PUC-Rio.

Confira a entrevista que concedeu ao DesignBrasil, por-mail, em junho de 2005.

 

DesignBrasil: Como surgiu a idéia de organizar este livro?

Rafael Cardoso: O livro surgiu diretamente do trabalho de pesquisa arquivística, meu e dos colaboradores. No Brasil, sempre houve pouca ou nenhuma pesquisa histórica voltada para a área do design. Quando voltei da Inglaterra em 1996, passei a me dedicar a levantar fontes sobre essa atividade. Logo vi que sozinho não daria conta de tanto trabalho. A partir de 2000, passei a orientar trabalhos de pós-graduação sobre o assunto. (as autoras Aline Haluch, Julieta Sobral e Lívia Lazzaro, que participam do livro, foram orientadas por mim no Mestrado em Design da PUC-Rio). Com o acúmulo gradativo de trabalhos de pesquisa, veio a idéia de reunir um pouco do que se estava fazendo e produzir um livro.

 

DesignBrasil: Por que foi negado o rótulo de design à produção gráfica pré-1960?

Rafael Cardoso: A resposta simples é: por corporativismo. A nova geração que transformou o design brasileiro entre as décadas de 1950 e 1960 precisou se afirmar como algo especial, diferente de tudo o que veio antes. À época, foi uma questão de marcar posição e de chamar atenção para suas propostas. Aquela coisa modernista de romper com o passado e apostar nas utopias, que é característica não somente do design mas de toda a era JK. Com a passagem do tempo, a turma jovem daquela época foi envelhecendo, ocupando as instâncias institucionais que eles mesmos criaram (escolas, associações, etc.) e gerando herdeiros. Essas pessoas não tinham nenhum interesse em reconhecer que não eram os únicos a fazer design, pois possuíam um quase monopólio sobre a área até a década de 1980.

 

DesignBrasil: O livro propõe uma nova visão, não discriminatória, sobre os profissionais que atuavam naquela época. Por quê?

Rafael Cardoso: Porque sou contra essa discriminação! Não é uma ideologia e muito menos um diploma que define quem é ou não um bom profissional. A qualidade da produção é que deve definir o reconhecimento do profissional, e não o seu pertencimento a esse ou aquele grupo.

 

DesignBrasil: Qual foi o critério para a escolha dos temas e dos ensaístas? E qual foi o maior desafio no desenvolvimento dessa pesquisa?

Rafael Cardoso: O principal critério foi a disponibilidade de trabalhos originais de pesquisa. Como são tão poucos por enquanto, o universo de pessoas que poderiam escrever não era muito grande. Dentro do que existe, tentei impor um recorte cronológico preciso e cobrir, na medida do possível, uma variedade representativa de projetos e suportes materiais. Do ponto de vista de metodologia histórica, foi feito um esforço para não privilegiar os indivíduos (a velha história dos pioneiros) em detrimento dos objetos e do contexto.

 

Design Brasil: A partir da pesquisa algum fato até então desconhecido foi descoberto? Quais?

Rafael Cardoso: Muitos! Muitos mesmo. Cada ensaio está recheado de fatos nunca antes divulgados ou, até, inteiramente desconhecidos mesmo dos especialistas. Não daria para listar tudo aqui. O maior elogio que ouvi até agora foi do Cássio Loredano (o ilustrador e grande expert em J. Carlos), que me disse que, lendo o texto da Julieta Sobral, ele aprendeu coisas sobre o J. Carlos que não sabia. Mas, este é só um exemplo entre dezenas, literalmente. No mínimo, 80% das imagens que ilustram o livro nunca apareceram em publicação nenhuma. Sem falsa modéstia, acho que este livro traz o maior volume de novas informações sobre design e impressos no Brasil em muitos anos.

 

DesignBrasil: O livro tem uma linguagem mais acessível do que a normalmente utilizada em um trabalho científico. Por que essa opção?

Rafael Cardoso: A primeira função de qualquer texto é comunicar. Existe certa confusão no meio universitário entre pensamento complexo e linguagem complicada. A segunda não garante o primeiro; antes, a meu ver, tende a atrapalhá-lo. As idéias mais profundas podem ser expressas com simplicidade. Isto se chama elegância. Acho que muitas pessoas usam a linguagem difícil e o jargão para criar uma barreira e, nos casos mais extremos, até mesmo para camuflara falta de profundidade daquilo que escrevem. Como escritor de ficção, tenho pouca tolerância por textos mal escritos.

 

DesignBrasil: No material de imprensa da editora admite-se que ficaram algumas lacunas. Quais são elas e já há planos para um novo livro?

Rafael Cardoso: A principal lacuna, que assinalo na Introdução, seria um primeiro trabalho de pesquisa sobre a história dos cartazes brasileiros nas décadas de 1930 e 1940. Há outras, é claro. A história do design no Brasil representa todo um imenso campo de pesquisas. Não é tema para ser esgotado em um livro, ou mesmo em uma dezena. Tem assunto aí para centenas de livros. Quanto a um próximo, a Cosac Naify está preparando o lançamento de um volume sobre o design gráfico brasileiro na década de 1960, organizado pelo Chico Homem de Melo, da USP.

 

DesignBrasil: O que as novas gerações de designers gráficos têm a aprender com os profissionais enfocados no livro?

Rafael Cardoso: Para mim, não é tanto uma questão de aprender quanto de ter prazer e de abrir perspectivas. O passado serve ao presente como um espelho, um lugar onde podemos encontrar outras opções que talvez estivessem esquecidas ou que não parecessem viáveis, à primeira vista, dentro dos limites estreitos da realidade imediata. Nele, está a possibilidade de travar um diálogo maior, para além do mercado, das escolas, dos colegas. Quem não gostaria de ter acesso a um interlocutor genial e absolutamente desinteressado? Bater uma bola com Paim,Santa Rosa, J. Carlos… é um privilégio!