Redesenhando uma Bienal de Design – A anatomia de uma operação – Parte I

Por Bruno Porto

A Bienal é sem dúvida o maior evento para o mercado brasileiro de design gráfico.

Estão abertas até 17 de fevereiro de 2006 as inscrições para a 8ª edição da Bienal Brasileira de Design Gráfico. Realizada pela ADG Brasil – Associação dos Designers Gráficos desde 1992, a Bienal é sem dúvida o maior evento para o mercado brasileiro de design gráfico. Além da programação de palestras e workshops e o lançamento do catálogo INDEX 2006, com o registro da produção dos membros da Associação, as atenções ficam voltadas para a exposição com a seleção de alguns dos melhores projetos gráficos realizados no país a cada dois anos, e que chega a ser visitada por mais de 55.000 pessoas de todo o Brasil.

Apesar de estar em constante evolução desde sua primeira edição uma mostra da produção de 28 profissionais associados no Museu da Imagem e do Som de São Paulo certamente é nesta Bienal, com inauguração prevista para junho de 2006 no Memorial da América Latina em São Paulo, que estão sendo propostas as maiores mudanças: as categorias, o processo de inscrição e o próprio formato da exposição dos trabalhos foram completamente reestruturados, com a Mostra Seletiva passando a integrar projetos acadêmicos (de olho no futuro do design brasileiro) e a incentivar a reflexão a respeito da atividade através da categoria especial Design como Tema de Reflexão.

Aparentemente ousadas e geralmente sujeitas a mudanças de último minuto, algumas destas modificações, entretanto, começaram a ser pensadas há dois anos, quando ainda nem havia começado a 7ª Bienal que reuniu 369 projetos oriundos de 2187 inscrições.

No início de 2004 eu era, juntamente com Ana Soter e Ricardo Leite, um dos três coordenadores da ADG Brasil no Rio de Janeiro. Havíamos sucedido as duas primeiras gestões da Coordenação RJ, inaugurada quatro anos antes por Ana Luiza Escorel, Guto Lins e Jair de Souza. Se por um lado iniciáramos nossa gestão com uma crise política nas mãos forçados a aceitar o fechamento da nossa deficitária sede regional demos a volta por cima e realizamos naqueles dois anos mais de vinte ações regionais e nacionais entre concursos, ciclos de palestras, debates, workshops, lançamentos de livros, happy hours. Foi quando recebi o convite para ser o Coordenador do Júri da Bienal. Obviamente eu sabia que não tinha sido a primeira escolha: Chico Homem de Melo (que magistralmente havia feito a curadoria da 6ª Bienal, base para as próximas) e Ricardo Leite não puderam aceitar o convite, que envolvia pelo menos uma semana de dedicação completa, em São Paulo, e que outros nomes como de João de Souza Leite e Evelyn Grumach haviam sido sugeridos (e por mim endossados).

Li, impressionado, a lista de quase quarenta pessoas sondadas para compor o corpo de jurados, respirei fundo e aceitei. Quatro dias depois os quais dediquei a pesquisa e pré-agrupamento dos jurados convidados nas 17 categorias então existentes eu embarcava para São Paulo. Levava comigo o relatório da escolha do júri feito pelo Chico Homem de Melo para a 6ª Bienal, bem como alguns e-mails com suas orientações e sugestões. Era um final de tarde de domingo, seis dias antes do início do Carnaval. E era este o prazo disponível para que todo o processo de julgamento da Bienal ocorresse. Faltava ainda confirmar mais da metade dos jurados, providenciar passagens e hospedagem para os de fora de São Paulo. Foi quando fiz minha primeira nota mental: da próxima vez, estes convites talvez possam ser feitos com mais antecedência

Do aeroporto, após uma breve reunião com a Comissão Organizadora da Bienal para me situar mais exatamente do caos que seria aquela semana (o aumento da quantidade de inscrições em relação a edição anterior havia sido o dobro do esperado), fomos todos para a sede. Havia cerca de 30 casos, previamente separados pela Comissão, a serem avaliados pelo Coordenador do Júri antes do início do julgamento. Alguns nitidamente haviam sido inscritos nas categorias erradas, e precisavam ser oficialmente transferidos para as corretas. Outros tantos não foram apresentados dentro dos requisitos das categorias nas quais foram inscritos e, ou eram transferidos para outras categorias mais adequadas, ou eram desclassificados. E outros, poucos, estavam sob a suspeita de não terem sido realizados dentro dos prazos indicados, serem ghosts, ou apenas adaptações de projetos estrangeiros.

Além destes 30 casos que foram pescados pela Comissão enquanto os trabalhos chegavam, outros foram identificados durante o processo de julgamento, por mim ou pelo júri. A realidade é que o regulamento era muito vago na forma como os projetos deveriam ser apresentados em alguns casos sugeria-se apenas que fossem apresentados da melhor forma para a apreciação pelo júri o que dava margem a projetos de sinalização e ambientação, ou até de embalagens, apresentados em pranchas compostas unicamente por desenhos vetoriais ou fotos sob suspeitos tratamentos digitais, e sem quaisquer indicações de cotas, materiais ou mesmo cliente. Nem levando em consideração uma possível má fé, não poder avaliar a real extensão ou mesmo a veracidade de um projeto de design não é a melhor forma de um júri agir… Começava a fazer outras notas mentais melhor adequar a apresentação dos projetos, definir um responsável legal pela inscrição quando dei a maior sorte: André Stolarski estava no júri.

André participava juntamente com Solange Coutinho e Eduardo Braga do júri da categoria com mais trabalhos inscritos (cerca de 415), Símbolos e Logotipos. Não foi necessariamente o júri mais trabalhoso meu voto é para a hoje extinta categoria Miscelânea, pela variedade, sem falar na quantidade, de projetos que lá iam parar por aquele regulamento não contemplar a real multiplicidade de projetos feitos no Brasil mas deixou claro um aspecto pitoresco da Bienal para mim: as pessoas são capazes de inscrever qualquer coisa. Sem o menor critério estético ou técnico. Não havia grandes requisitos para esta categoria, apenas que a marca ou símbolo fossem mandados em prancha rígida no formato A3. Alguns trabalhos eram claramente amadores, novamente não havendo como comprovar sua real implementação ou mesmo atestar suas qualidades como marca. Resultado: do maior montante de inscrições em uma única categoria, foram selecionados apenas 14 projetos. Isso também surpreendeu André, e o deixou com uma pulga atrás da orelha em relação a como isso poderia ser aperfeiçoado. Pediu um computador emprestado e lá mesmo da sede passou a escrever febrilmente sobre as relações entre símbolos, marcas e sistemas de identidade visual, no que seria o primeiro de muitos e-mails trocados sobre o redesenho do regulamento.

Apesar do extremo cuidado tomado a cada Bienal pelas diferentes Comissões Organizadoras, nem sempre o regulamento vigente se mostrava completamente consonante às diferentes realidades do design gráfico brasileiro. Como exemplo bem específico, constava neste um tópico definido já havia algumas edições que se tornara obsoleto frente a mudanças tecnológicas e sociais. Para um projeto ser submetido à categoria Identidade Corporativa era obrigatório que fossem submetidos um mínimo de 10 peças. Isto fazia sentido em uma época em que o desenvolvimento de um sistema de identidade visual para uma empresa passava por uma papelaria, com envelopes timbrados, papéis de continuação, cartões para a maioria dos funcionários, folders institucionais e promocionais, uniformes, sinalização da sede e da frota enfim, aquilo que se aprende na escola. No mundo do downsizing, veículos e uniformes dos funcionários da empresa podem não ser mais necessários, pois estes foram substituídos por prestadores de serviço terceirizados. Praticamente toda a correspondência é ou está em vias de ser eletrônica. Sede e luxuosos Perfis Corporativos transformaram-se em um nem sempre lá muito tangível website. Micro-empresas também são empresas e nem todas somam 10 peças submetíveis. Outro sinal dos tempos, ainda nesta mesma categoria, foi um alto índice de inscrições não de identidades corporativas propriamente ditas (por não se tratarem de corporações), mas de identidades visuais de eventos. O impacto que as multiplicações de suportes e mídias teve na publicidade como a conhecíamos no século passado obrigou um reposicionamento por parte das empresas em se criar outras formas de relacionamento com o consumidor. Branding, Marketing Estratégico, ações de fidelização etc passaram a exigir design gráfico. Mas que não poderia ser considerado essencialmente Corporativo, por ser para um festival, campanha, brinde ou show de caráter efêmero. Nota mental: Isso precisa ser revisto… Como, e com qual justificativa, dividir Identidade Visual e Identidade Corporativa? Como, na verdade, definir, Identidade Visual de uma empresa, de um produto, de um evento, de uma de uma?

Conversando com André, escutando e lendo algumas de observações que fez, fomos aos poucos formalizando estes desvios de rota. Este trabalho se intensificou quando ele aceitou integrar a gestão seguinte da Coordenação RJ. Algumas destas correções podem ser claramente observadas nos requisitos mais rígidos de como os projetos deverão ser apresentados a partir desta Bienal. Projetos de Sinalização, por exemplo, devem ser submetidos contendo plantas de circulação e fundamentos conceituais, tipográficos, cromáticos e formais; layouts de sinalizadores em vistas, perspectivas, elevações e fachadas; relação com a escala humana; família de pictogramas e setas; processos de fabricação e montagem; plantas demarcadas; manual de sinalização com especificações técnicas e construtivas, quantificações; documentação fotográfica (humanizada) do ambiente sinalizado. Da mesma forma, publicações periódicas, como jornais e revistas, que antes deviam apenas incluir três edições, devem vir agora com malhas construtivas e especificações técnicas em manual ou pranchas A3 não identificadas quanto à autoria.

Esta questão da identificação, frente ao júri, da autoria dos projetos foi levantada por outros dois jurados em categorias e momentos distintos, Sônia Valentim Carvalho e João de Souza Leite. Não havia em local algum do regulamento a proibição, ou mesmo o desaconselhamento do uso de pranchas identificadas e algumas praticamente se transformavam em outdoors do escritório ou profissional. Tampouco a Ficha de Inscrição com as informações do projeto avaliado permitiam esta separação, já que os dados de trabalho e equipe ficavam juntos. A discussão era se o conhecimento por parte dos membros do júri quanto a autoria dos projetos avaliados poderia influenciar de alguma forma a avaliação. Isto gerou um debate dentro da própria Comissão Organizadora que acabou não considerando o fato prejudicial, visto não se tratar de projetos originais, e sim de projetos já tornados públicos. Até por que, entre outras qualidades, o júri deveria ser composto por conhecedores da área julgada desejadamente bem informados. Em alguns projetos (editoriais, ou cartazes, por exemplo), o crédito do autor é parte intrínseca do produto final, e não apenas não pode ser alienado, como dependendo do grau de expressão pessoal, poderia inclusive ser facilmente reconhecível. Pelo sim ou pelo não, outra nota mental: Pranchas não identificadas. Mal não faz. Fichas de Inscrição com informações relativas ao projeto e a equipe, separadas.

As Fichas de Inscrição também passaram por uma revisão, embora de caráter conceitual. Uma questão prática que envolve o andamento da Bienal pós-julgamento era referente aos dados dos projetos selecionados, que serviam de base não só para o julgamento como também para a composição das legendas da exposição e do catálogo. Como todas as Fichas de Inscrição eram preenchidas a mão, ou enviadas já impressas, havia o trabalho de transformar estas informações em arquivos digitais, passando por ilegibilidade de caligrafia, erros de digitação, checagem com os autores E estes nem sempre estavam disponíveis, ou teimavam para que o texto sobre seu projeto fosse mais longo e contivesse os termos dinâmico e impactante. Isso causava idas e vindas sinceramente desnecessárias. Ter a inscrição e todo o sistema de inserção de informações da 8ª Bienal on line busca solucionar este problema bem como o do limite de caracteres permitidos para que pela primeira vez consigamos ter o Catálogo pronto na data de abertura da exposição

A solução para outro problema sério categorias com quantidades obscenas de trabalhos foi encontrada através de duas situações, por iniciativa de alguns membros do júri e dos estudantes que atuavam como monitores.

A definição das categorias da Mostra Seletiva vem sendo modelada a cada Bienal, naturalmente segundo as áreas de maior atuação dos profissionais que compõem a Associação. Por exemplo, desde a 4ª edição, Cartazes e CDs possuem respectivamente categorias próprias. E isso independente do mercado fonográfico ainda mais nos anos pré-mp3 sempre ter respondido por um mercado maior que a nossa tradição cartazística. Mesmo assim, ambas tiveram na 7ª Bienal cerca de 100 projetos inscritos o mesmo ocorrendo nas categorias Capas de Livro (outro nicho familiar para os associados) e Internet & CD Rom (então uma verdadeira estranha no ninho da Associação). Embora com quantidades próximas, e sem desmerecer as especificidades de cada tipo de projeto, avaliar os projetos de uma centena de sites se mostra mais trabalhoso que uma mesma fornada de cartazes e capas de livro e abrindo um importante par de parênteses: o júri de Internet & CD Rom composto por Luli Radfahrer, Michel Lent Schwartzman e Rodrigo Teco enfrentou corajosamente sites apresentados em arquivos de Word, Corel, Jpegs e outros formatos bizarros. Inclusive após esta edificante passagem pelo júri, Michel e Luli se associaram a ADG Brasil e, com larga experiência em júris interativos, foram consultores sobre a melhor forma de submeter e avaliar projetos como games, sites vinhetas etc, e mesmo denominar algumas das subcategorias de Design em Movimento e Design Digital nesta 8ª Bienal.

Mas o ato de julgar em uma só tacada cerca de 250 inscrições de Embalagens como herculeamente fizeram Cássio Leitão, Claudio Novaes e Fernanda Martins classifica-se em um outro patamar de perrengue! Principalmente por que boa parte dos projetos inscritos compreende linhas de produtos: calculo mais de 400 peças no total, de embalagens de camisinhas a engradados de cerveja, de latas de sorvete (que derretem) a caixas de eletrodomésticos, de batons a cases para enciclopédias.

Como a quantidade de trabalhos em categorias como essa (e Material Promocional e Miscelânea) era imensa e insira aí o fator pessoas inscrevem qualquer coisa , o trabalho do júri se dificultava. As sessões de julgamento chegavam a durar 4 horas, o que exigia dos jurados um esforço de concentração para ler, analisar, guardar informações, discutir e mesmo físico, pois andam de um lado para outro. O que acontecia é que o júri desperdiçava muito tempo eliminando coisas de má qualidade, projetos em contextos muito diferentes, e quando era preciso um olhar mais apurado, estava esgotado.

Como as embalagens eram muito numerosas, não poderiam ser dispostas todas de uma vez sobre as mesas usadas para a avaliação. Foi quando os monitores Rodolfo Herrera, Mariana Muniz, Cinthia Okuno e Uriel Maniglia decidiram por conta própria dispor os projetos em subgrupos: primeiro os produtos alimentícios, que eram julgados até o fim, seguidos de uma leva de eletrodomésticos, seguidos por produtos de limpeza e perfumaria Da mesma maneira, depois de se espantarem e ficarem confusos com a variedade de suportes existentes na categoria Autopromoção, o júri composto por Billy Bacon, Claudio Rocha e João de Souza Leite definiu cotas para os projetos a serem selecionados: 1/3 de Portfólios, 1/3 de sites e outros produtos de mídia digital e 1/3 de brindes e kits. Estava definido, e pré-testado, o conceito de subcategorias.

Subdividir as categorias principais em subcategorias não só elimina o problema de muitos trabalhos diferentes vistos de uma vez só como permite uma diversidade maior de integrantes do júri, com um considerável ganho de qualidade. Como um designer não pode ser jurado de uma categoria em que concorre, me vi impedido de convidar profissionais que certamente possuíam conhecimento de causa sobre um determinado assunto por estarem concorrendo com projetos que, hoje, estariam limitados a uma determinada subcategoria e que podem agora ser aproveitados como jurados de outra!

Na próxima coluna (bem estilo “Não Perca No Próximo Episódio”): André encrespa com a visitação da Bienal e propõe mexer em tudo. Outra questão levantada por Sônia resulta em uma das maiores mudanças da nova Bienal. Nem todas as categorias conseguem ser julgadas a tempo, o júri se dispersou Carnaval adentro e eu preciso voltar ao Rio. O que fazer? E ainda: Quantos trabalhos inscrever na Bienal? Não perca!